Querida avó,
Nos próximos dias celebraram-se inúmeras datas: Dia da Bruxas, Dia de Todos os Santos, Dia de Finados e, como já tínhamos pouca coisa para celebrar, resolveram importar ainda o Halloween. Para mais, este ano, o feriado de 1 de novembro é a um domingo. Assim sendo, as celebrações têm de ser todas concentradas em dois dias.
Com isto tudo, o Pão-por-Deus está cada vez mais esquecido, infelizmente!
Ouviste falar da idosa que organizou o próprio funeral para não faltar à sua despedida?
Aos 80 anos, a norte-americana Shelvy Neal decidiu assistir ao próprio funeral antes de morrer. No dia do aniversário, reuniu cerca de 100 familiares e amigos numa cerimónia invulgar, marcada pelo humor e pela vontade de não perder nada da sua vida, nem mesmo a própria despedida.
O objetivo da “falsa defunta” era, acima de tudo, celebrar (de forma bizarra) os seus 80 anos de uma vida feliz, rodeada de amor. Quando morrer, garante que quer uma cerimónia tradicional num cemitério.
Segundo o que li, a dita cuja recusa-se a perder seja o que for. Pelos vistos, inclusive o seu próprio funeral!
A Pringles (famosa marca de batas fritas) lançou uma macabra promoção de Halloween: um sorteio que oferece a um fã a possibilidade de ver as suas cinzas guardadas numa urna personalizada com o formato da icónica lata da marca – além de um prémio em dinheiro equivalente a 200 anos de batatas fritas, imagina.
Enfim, ouvimos cada uma.
Por cá, já ouviste falar do “Festival do Luto”?
É um evento pioneiro que pretende transformar a forma como vivemos o luto. Com a realização atividades para todos e todas as idades. A organização oferece performances artísticas, conversas com especialistas, testemunhos de esperança e muito mais. Não ficaste “mortinha” por ir?
Fui ver o “Feiticeiro de Oz” ao Casino Estoril, gostei imenso.
Com tanta coisa assombrosa… nem sei se conseguirei dormir por estes dias.
Bjs
Querido neto,
Cada país tem as suas tradições. Não se encontram em mais lado nenhum, senão em Portugal, as danças dos pauliteiros, o cante alentejano, o vira do Minho, os caretos de Podence, os bonecos de Estremoz, o Banho Santo em Esposende… já para não falar dos Santos Populares, Romarias e Procissões que se realizam por este país fora.
Não precisamos de ir buscar tradições alheias!
Em fevereiro fico irritada com todas as festarolas em volta do Dia de São Valentim. Sobretudo por ser um Santo estrangeiro. O nosso Santo António faz o mesmo, e ainda melhor pois é casamenteiro e milagreiro.
Em outubro volto a ficar irritada com esta novidade de celebraram o “Halloween”.
Espero que muita gente leia este texto. Muita mesmo. E que aprendam (e fixem!) o que nele se escreve.
Ando há anos a dizer a mesma coisa, nesta altura do ano, e parece que ninguém (ou pouca gente) me ouve.
Ó meus amores, o dia 1 de novembro não é o Dia das Bruxas (ou, em português correto, do “Halloween”). Basta olhar para a palavra. Nem em minderico existe uma palavra como esta.
E se a palavra não é portuguesa, como é que o que ela significa poderia ser? Se quiserem festejar o “Halloween”, não tenho nada contra – desde que o façam em Inglaterra ou nos Estados Unidos.
Mas em Portugal o que neste dia se festeja é o Pão-por-Deus. Os miúdos levam um saco de pano ao ombro e entram em todas as lojas a pedir Pão-por-Deus. E toda a gente lhes dá qualquer coisa (normalmente rebuçados, chupa-chupas, caramelos, etc.).
Portanto deixem-se lá de estrangeirices, e mantenham a tradição!
E já agora quero que saibam que aqui na Ericeira o que se festeja é o Pão-por-Deus – que, ainda por cima, dura três dias! Mas aqui não se pede apenas nas lojas – aqui pede-se a toda a gente.
E assim é que é democrático!
Espero que tenham aprendido muito com este texto – e ai se eu vir para o ano alguma bruxa aqui pelas ruas!
Bjs