Já trouxe A Diplomata a esta coluna, a propósito do gato de Schrödinger. Regresso a esta série televisiva por outra intromissão da ciência nos corredores do poder. No primeiro episódio da quarta temporada, recentemente estreada, a Presidente dos Estados Unidos, Grace Penn (Allison Janney, na foto), censura o marido por insinuar que existe uma atração entre ela e o vice-presidente, Hal Wyler, casado com a embaixadora Kate Wyler, rematando com sarcasmo: «A embaixadora receia que a descarga de oxitocina que sinto ao falar com o vice-presidente tenha alterado a minha política nuclear».
Apelidada de ‘hormona do amor’, a oxitocina (ou ocitocina) presta-se a esta tirada presidencial pela sua associação aos vínculos afetivos e à confiança. Até que ponto merece tal alcunha é outra questão. Tem funções bem estabelecidas no parto e na amamentação: estimula as contrações uterinas e a ejeção do leite. Também se observaram aumentos da sua concentração no sangue durante o orgasmo, tanto em mulheres como em homens, sugerindo uma possível participação na resposta sexual. Atua igualmente em circuitos cerebrais envolvidos na regulação dos comportamentos sociais e do medo, embora os seus efeitos variem consoante a pessoa e o contexto.
Trata-se de um nonapéptido, ou seja, uma molécula constituída por nove resíduos de aminoácidos. Produzida no hipotálamo, é armazenada e libertada para o sangue pela parte posterior da hipófise, ou glândula pituitária – uma estrutura do tamanho de uma avelã, localizada na base do cérebro.
Em 1953, o bioquímico norte-americano Vincent du Vigneaud sintetizou esta molécula pela primeira vez em laboratório, um feito que contribuiu decisivamente para que lhe fosse atribuído o Nobel da Química dois anos depois.
Há estudos experimentais que sugerem que a sua administração a voluntários tanto pode favorecer a aproximação aos outros como aumentar a desconfiança e reforçar comportamentos defensivos. Em 2005, um estudo publicado na revista Nature deu especial força à associação entre oxitocina e confiança. Num jogo experimental com dinheiro, os participantes que receberam a hormona por via nasal confiaram a outra pessoa quantias em média superiores às confiadas pelos que receberam um placebo. Era um resultado prometedor, embora faltasse saber até que ponto se reproduziria em novas experiências. Em 2020, um estudo de replicação publicado na revista Nature Human Behaviour não confirmou o efeito principal que tornara célebre a experiência original.
Outros resultados também complicaram o retrato da oxitocina como hormona do amor e da confiança. Em algumas experiências sobre pertença a grupos, os participantes que receberam a substância mostraram maior preferência pelos membros do seu próprio grupo, mas a aproximação aos ‘nossos’ não se traduzia necessariamente numa maior abertura aos demais.
Importa ainda ter presente que os efeitos de uma dose de oxitocina administrada pelos investigadores não são necessariamente os mesmos da oxitocina que o organismo produz e liberta naturalmente. Assim, estas experiências não permitem, por si só, explicar o papel da hormona nas relações do dia a dia.
Voltando a Grace Penn, a sua irritação pode ler-se como uma reação à facilidade com que a primeira mulher na presidência dos EUA é reduzida a alguém cuja atração por um homem comprometeria a capacidade de decisão. A referência à sua «descarga de oxitocina» ridiculariza a ideia de que uma hormona pudesse ditar a sua política nuclear.
Há, de facto, química na atração amorosa e sexual, como há química no medo, na memória e no pensamento. Ainda assim, reduzir essa atração a uma mera descarga hormonal é atribuir a um único mensageiro químico um poder explicativo que a ciência não lhe reconhece. Quanto à política nuclear, seria reconfortante saber que entre o hipotálamo e o botão há lugar para o discernimento.
Químico