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A CP vai gastar pelo menos 504 milhões de euros em comboios de alta velocidade que, durante anos, vão circular na Linha do Norte mais devagar do que o Alfa Pendular. O ministro admite-o, mas diz que a diferença «é irrelevante».
O concurso foi lançado em maio. São 12 comboios, com opção para mais oito, capazes de chegar aos 300 km/h. A Alstom e a Talgo foram admitidas. Com as opções em aberto, a conta pode chegar aos 850 milhões. O contrato deve ser assinado até março de 2027 e o primeiro comboio só chega em 2031.
O problema é a linha. Em 2031, a alta velocidade existirá, na melhor das hipóteses, entre o Porto e Oiã. O segundo troço, até Coimbra, só deve ser construído entre 2027 e 2032. Este calendário será impossível de cumprir se os concorrentes levarem as suas divergências para tribunal.
Em finais de agosto, o relatório preliminar excluiu a proposta da Lusolav, consórcio liderado pela Mota-Engil. O júri propôs a adjudicação ao grupo dominado pelos espanhóis da Sacyr. O agrupamento português, em sede de audiência prévia, defendeu formalmente o contrário: ser readmitido a concurso, com a exclusão do concorrente.
Entre Soure e o Carregado, o prazo para lançar o concurso, até ao final do primeiro semestre, não foi cumprido. Finalmente, entre o Carregado e Lisboa, a parte mais complexa da obra, não há calendário. Enquanto a linha de alta velocidade (LAV) for apenas entre o Porto e Oiã, o resto da viagem faz-se pela velhinha e sobrecarregada Linha do Norte.
O SOL perguntou ao ministro das Infraestruturas porque vai Portugal gastar 504 milhões em comboios que vão andar mais devagar do que o Alfa. «As velocidades máximas na Linha do Norte para comboios convencionais são marginalmente inferiores às praticadas pelos comboios com sistema pendular. Nos troços em que proporciona essa vantagem, a diferença de tempos é irrelevante», responde Miguel Pinto Luz.
A frase repete, quase palavra por palavra, a resposta que a Infraestruturas de Portugal (IP) deu ao SOL na véspera. O problema é que a IP se recusou a satisfazer o nosso pedido para divulgar «qual a velocidade máxima dos futuros comboios na Linha do Norte, troço a troço, face aos 220 km/h do Alfa Pendular».
A questão não é de potência, mas de adesão à linha, segurança e conforto dos passageiros. O Alfa Pendular deve o nome ao facto de se inclinar nas curvas. Por isso, o sistema que controla a velocidade na Linha do Norte, o CONVEL, deixa-o andar até 40% acima do limite dos comboios convencionais. Ora, os futuros comboios de alta velocidade aceleram mais, mas não se inclinam.
Em junho de 2023, um parecer técnico da IP, a que o SOL teve acesso, analisou o Avril, comboio de alta velocidade da Talgo, uma das admitidas a concurso pela CP. Conclusão: «Apenas poderá circular na Rede Ferroviária Nacional com velocidades iguais ou inferiores» às dos convencionais. Com o CONVEL, «não é possível» criar um patamar excecional próprio. Mesmo que o Avril fosse certificado para curvar mais depressa, o ganho ficaria abaixo dos 15% da categoria mínima de comboio pendular.
No futuro, apenas a instalação de novos sistemas de sinalização, como o ETCS, poderá mudar essa limitação. O ETCS está previsto entre o Entroncamento e Leixões, num contrato com 1.740 dias de obra. Para o troço Entroncamento-Lisboa, não há data conhecida.
Irrelevante? Uma simulação, elaborada por fonte qualificada do setor, dá 2h28 ao Alfa entre Lisboa-Oriente e Porto-Campanhã, com paragens em Coimbra e Aveiro, e 2h40 ao Talgo. São 12 minutos de diferença. A IP calcula que o primeiro troço de alta velocidade, Porto-Oiã, poupe «cerca de 10 minutos». Ou seja, o ganho da obra nova pode perder-se todo durante anos.
«A entrada em serviço dos novos comboios permitirá obter, desde a fase inicial, ganhos de tempo na ligação Lisboa-Porto», garante o ministro. Não diz quantos minutos, nem em comparação com que comboio. Se a IP esconde a informação, a tutela deixa-a ficar assim, a salvo da polémica.