segunda-feira, 02 nov. 2026

504 milhões em comboios mais lentos do que o Alfa

Comboios de alta velocidade são mais potentes, mas não se deitam nas curvas como os pendulares. Por isso, farão piores tempos na Linha do Norte. 
504 milhões em comboios mais lentos do que o Alfa

A CP vai gastar pelo menos 504 milhões de euros em comboios de alta velocidade que, durante anos, vão circular na Linha do Norte mais devagar do que o Alfa Pendular. O ministro admite-o, mas diz que a diferença «é irrelevante».

O concurso foi lançado em maio. São 12 comboios, com opção para mais oito, capazes de chegar aos 300 km/h. A Alstom e a Talgo foram admitidas. Com as opções em aberto, a conta pode chegar aos 850 milhões. O contrato deve ser assinado até março de 2027 e o primeiro comboio só chega em 2031. 

O problema é a linha. Em 2031, a alta velocidade existirá, na melhor das hipóteses, entre o Porto e Oiã. O segundo troço, até Coimbra, só deve ser construído entre 2027 e 2032. Este calendário será impossível de cumprir se os concorrentes levarem as suas divergências para tribunal.

Em finais de agosto, o relatório preliminar excluiu a proposta da Lusolav, consórcio liderado pela Mota-Engil. O júri propôs a adjudicação ao grupo dominado pelos espanhóis da Sacyr. O agrupamento português, em sede de audiência prévia, defendeu formalmente o contrário: ser readmitido a concurso, com a exclusão do concorrente.

Entre Soure e o Carregado, o prazo para lançar o concurso, até ao final do primeiro semestre, não foi cumprido. Finalmente, entre o Carregado e Lisboa, a parte mais complexa da obra, não há calendário. Enquanto a linha de alta velocidade (LAV) for apenas entre o Porto e Oiã, o resto da viagem faz-se pela velhinha e sobrecarregada Linha do Norte.

O SOL perguntou ao ministro das Infraestruturas porque vai Portugal gastar 504 milhões em comboios que vão andar mais devagar do que o Alfa. «As velocidades máximas na Linha do Norte para comboios convencionais são marginalmente inferiores às praticadas pelos comboios com sistema pendular. Nos troços em que proporciona essa vantagem, a diferença de tempos é irrelevante», responde Miguel Pinto Luz.

A frase repete, quase palavra por palavra, a resposta que a Infraestruturas de Portugal (IP) deu ao SOL na véspera. O problema é que a IP se recusou a satisfazer o nosso pedido para divulgar «qual a velocidade máxima dos futuros comboios na Linha do Norte, troço a troço, face aos 220 km/h do Alfa Pendular». 

A questão não é de potência, mas de adesão à linha, segurança e conforto dos passageiros. O Alfa Pendular deve o nome ao facto de se inclinar nas curvas. Por isso, o sistema que controla a velocidade na Linha do Norte, o CONVEL, deixa-o andar até 40% acima do limite dos comboios convencionais. Ora, os futuros comboios de alta velocidade aceleram mais, mas não se inclinam.

Em junho de 2023, um parecer técnico da IP, a que o SOL teve acesso, analisou o Avril, comboio de alta velocidade da Talgo, uma das admitidas a concurso pela CP. Conclusão: «Apenas poderá circular na Rede Ferroviária Nacional com velocidades iguais ou inferiores» às dos convencionais. Com o CONVEL, «não é possível» criar um patamar excecional próprio. Mesmo que o Avril fosse certificado para curvar mais depressa, o ganho ficaria abaixo dos 15% da categoria mínima de comboio pendular. 

No futuro, apenas a instalação de novos sistemas de sinalização, como o ETCS, poderá mudar essa limitação. O ETCS está previsto entre o Entroncamento e Leixões, num contrato com 1.740 dias de obra. Para o troço Entroncamento-Lisboa, não há data conhecida.

Irrelevante? Uma simulação, elaborada por fonte qualificada do setor, dá 2h28 ao Alfa entre Lisboa-Oriente e Porto-Campanhã, com paragens em Coimbra e Aveiro, e 2h40 ao Talgo. São 12 minutos de diferença. A IP calcula que o primeiro troço de alta velocidade, Porto-Oiã, poupe «cerca de 10 minutos». Ou seja, o ganho da obra nova pode perder-se todo durante anos.

«A entrada em serviço dos novos comboios permitirá obter, desde a fase inicial, ganhos de tempo na ligação Lisboa-Porto», garante o ministro. Não diz quantos minutos, nem em comparação com que comboio. Se a IP esconde a informação, a tutela deixa-a ficar assim, a salvo da polémica.