segunda-feira, 02 nov. 2026

Ricardo Araújo: "Guimarães pode e deve tornar-se uma referência europeia de qualidade de vida"

A cidade era um bastião do PS, mas Ricardo Araújo conseguiu acabar com um jejum de 36 anos. O autarca quer contrariar o envelhecimento do concelho, atraindo jovens.
Ricardo Araújo: "Guimarães pode e deve tornar-se uma referência europeia de qualidade de vida"

Guimarães tem uma população envelhecida, mais de 20% tem mais de 65 anos, ao contrário de Braga que tem uma das populações mais jovens. O que pensa fazer para inverter este ciclo, onde há cada vez mais idosos e menos jovens?

Quero que Guimarães volte a ser um Concelho atrativo para os jovens, onde possam construir o seu futuro, constituir família e encontrar oportunidades à altura das suas ambições.

O envelhecimento da população é uma das expressões preocupantes de um problema que identifiquei muito antes de assumir a presidência da Câmara Municipal e que não se resolve apenas com políticas dirigidas à demografia. Como sempre defendi, Guimarães precisa de recuperar capacidade para atrair investimento, criar oportunidades e fixar as novas gerações.

Mas não basta constatar. Para inverter esta tendência, é essencial compreender por que razão tantos jovens, depois de concluírem os seus estudos, encontram melhores condições profissionais e de vida fora do nosso concelho.

Guimarães tem uma capacidade industrial extraordinária, empresas que competem nos mercados internacionais e uma universidade de referência. Contudo, o estudo económico que apresentámos recentemente revela com clareza que o ganho médio dos nossos trabalhadores representa apenas 82% da média nacional. Este indicador ajuda a compreender bem o problema que há muito havíamos identificado.

Quando um jovem qualificado encontra melhores oportunidades profissionais noutro território e, simultaneamente, enfrenta dificuldades para comprar ou arrendar casa em Guimarães, percebemos que há um problema estrutural que temos de resolver.

É precisamente esse ciclo que queremos e estamos já a alterar.

É por isso que definimos três grandes prioridades: habitação, mobilidade e desenvolvimento económico.

Estamos a atuar sobre as suas causas e não apenas sobre as suas consequências.

Em apenas um ano de mandato, aprovámos uma revisão do PDM que amplia as possibilidades de construção de habitação e de instalação de empresas. Em mais de 10 anos não foi construída uma única habitação pública, em Guimarães. Hoje, estamos a reforçar a oferta habitacional pública, a acelerar o licenciamento de novas habitações, a alargar o apoio ao arrendamento e a apostar numa economia capaz de gerar emprego mais qualificado e melhor remunerado.

Queremos também melhorar profundamente as acessibilidades e os transportes públicos, porque a mobilidade condiciona cada vez mais as decisões das famílias e das empresas.

Mas quero deixar uma coisa muito clara: rejuvenescermos Guimarães não significa desvalorizar quem cá viveu e trabalhou toda a vida. Temos uma responsabilidade para com todas as gerações. Queremos que os jovens encontrem aqui o seu futuro e que os nossos seniores tenham condições para viver com autonomia, segurança e dignidade.

O nosso objetivo não é apenas contrariar o envelhecimento. É criar um concelho onde as pessoas tenham razões para ficar, para regressar e para vir viver.

Gosta muito de dizer que Guimarães é o berço da nação, mas que quer que seja o berço do futuro. O que pretende fazer para tornar isso realidade?

Guimarães tem uma história única e extraordinária, mas nenhum território pode construir o seu futuro apenas a partir da importância do seu passado. Temos a responsabilidade de transformar essa herança numa vantagem para o futuro.

Sempre defendi que Guimarães precisava de recuperar dinamismo, atratividade e competitividade. Fiz esse diagnóstico porque conheço a capacidade das nossas empresas, o talento dos nossos jovens e a qualidade das nossas instituições, mas também porque reconheço a distância que ainda separa esse potencial dos resultados económicos que desejamos alcançar.

Mais uma vez, o estudo desenvolvido pela Universidade do Minho, que apresentámos em setembro, veio confirmar uma realidade que considero decisiva. Guimarães é um grande concelho industrial e exportador, mas continua a apresentar níveis de produtividade e de remuneração inferiores à média nacional.

O estudo identificou ainda aquilo a que tenho chamado o paradoxo do conhecimento. Temos ciência, investigação, centros tecnológicos e recursos humanos altamente qualificados, mas não rentabilizamos ainda todo esse conhecimento em valor acrescentado, produtos, empresas, propriedade intelectual, novos setores de atividade e melhores salários.

É precisamente aqui que se situa a mudança que queremos concretizar.

A nossa estratégia não passa por abandonar a indústria com tradição, antes pelo contrário. Passa por lhe acrescentar tecnologia, inovação e maior valor, criando simultaneamente condições para que se desenvolvam novas atividades económicas.

O Guimarães Space Hub e o projeto de instalação da primeira fábrica de satélites óticos em Portugal são exemplos desta orientação estratégica e dessa ambição. A antiga Fábrica do Alto, associada à história industrial do nosso concelho, vai acolher uma atividade ligada à indústria aeroespacial. É uma imagem particularmente expressiva do caminho que pretendemos seguir.

Estamos igualmente a aprofundar a colaboração com a Universidade do Minho, o UPCA e várias entidades de investigação com quem firmámos um Pacto para a Inovação. Não menos importante, foi o lançamento da Green Academy, associando a transição ambiental à qualificação, à inovação e à competitividade empresarial.

Mas melhor futuro para todos não se constrói apenas com projetos tecnológicos e inovação. Exige habitação acessível, melhores acessibilidades, transportes públicos eficientes, educação de qualidade e um concelho socialmente coeso.

É por isso que considero a habitação, a mobilidade e o desenvolvimento económico prioridades inseparáveis da nossa governação.

A transformação que pretendemos não consiste em fazer de Guimarães uma cidade diferente daquilo que sempre foi, mas em fazer com que o extraordinário património de talento, conhecimento e capacidade de trabalho dos vimaranenses produza mais prosperidade e melhores condições de vida.

O nosso passado explica quem somos. O nosso trabalho tem de determinar aquilo que seremos. Queremos que Guimarães continue a ser o Berço da Nação e se afirme, cada vez mais, como Berço da Inovação.

Os autarcas que têm sido entrevistados nesta rubrica têm uma coisa em comum: todos dizem querer transformar a sua terra na melhor para viver. Não é uma utopia? As autarquias vão substituir o poder central e fazer o país andar para a frente?

Seria uma utopia se a nossa ambição não estivesse acompanhada de uma estratégia, de prioridades e da responsabilidade de apresentar resultados.

Defendo que Guimarães pode e deve tornar-se uma referência europeia de qualidade de vida. Mas não confundo essa ambição com a ideia de que existe uma cidade ideal, onde desaparecem todos os problemas.

Uma cidade oferece qualidade de vida quando permite que as pessoas concretizem os seus projetos, independentemente da idade, dos rendimentos ou da freguesia onde residem.

Não basta termos um centro histórico reconhecido internacionalmente se uma família não consegue encontrar habitação acessível. Não basta termos uma universidade prestigiada se os jovens qualificados precisam de sair para encontrar empregos compatíveis com as suas capacidades. E não basta atrair investimento se continuarmos a ter problemas de mobilidade que retiram tempo às famílias e competitividade às empresas.

É exatamente por isso que considero indispensável uma estratégia e uma visão integrada do desenvolvimento.

Quanto ao papel das autarquias, não quero substituir o poder central, mas quero que Portugal deixe de desperdiçar o potencial dos seus territórios por excesso de centralização.

As câmaras municipais estão próximas dos cidadãos, conhecem as necessidades das empresas e identificam os constrangimentos que condicionam a vida quotidiana. Essa proximidade permite-lhes agir, mas também é verdade que muitas das soluções dependem de competências, decisões e investimentos do Estado.

Precisamos, por isso, de uma descentralização efetiva, acompanhada dos meios financeiros correspondentes e de uma relação de cooperação institucional mais eficaz entre os diferentes níveis de governação.

A habitação, a saúde, a educação ou as grandes infraestruturas de mobilidade demonstram como essa articulação é necessária. Nenhuma autarquia consegue resolver isoladamente problemas desta dimensão, mas seria igualmente difícil resolvê-los sem envolver os municípios.

O desenvolvimento nacional não se faz exclusivamente a partir de Lisboa ou do Porto, mas também de territórios como Guimarães, que têm capacidade produtiva e conhecimento para contribuir muito mais para a economia e crescimento do país.

Esta semana, a oposição questionou as suas medidas para a área da Habitação. Qual o legado que pretende deixar?

A habitação é um dos problemas mais importantes que temos de resolver em Guimarães. E a minha preocupação não é ganhar um debate com a oposição. É garantir que conseguimos dar respostas às pessoas que precisam de uma casa.

Durante quase uma década, não tinha sido concretizada uma nova construção pública de habitação. Não podemos ignorar esse ponto de partida, sobretudo quando falamos de um problema que condiciona a vida de tantas famílias.

Mas não cheguei à Câmara para passar o mandato a explicar o passado. Cheguei para mudar o presente e preparar o futuro.

Os factos e a realidade exigem que reconheçamos que o Município esteve quase uma década sem concretizar uma única nova construção pública de habitação. Simultaneamente, a revisão do Plano Diretor Municipal (PDM), essencial para aumentar a capacidade de resposta do território, permanecia por concluir ao cabo de sete anos.

Por isso, não podíamos continuar a tratar a habitação como um problema social circunscrito a um número limitado de famílias. Hoje, esta grande dificuldade atinge também os jovens, os trabalhadores e uma parte muito significativa da classe média.

Por isso, fizemos uma clara mudança de prioridade e começámos a agir em várias frentes:

- Avançámos com a construção de 75 novas habitações em Azurém e simultaneamente lançámos um procedimento destinado à aquisição de até 300 habitações adicionais. Estamos também a licenciar muito mais e a reabilitar o parque habitacional existente.

-Ao mesmo tempo, aprovámos, por unanimidade, o alargamento do apoio municipal ao arrendamento, elevando o limite de rendimento elegível de cerca de 650 euros para quase 2.100 euros mensais brutos. É uma alteração que permite chegar a famílias que anteriormente ficavam excluídas e que poderá abranger mais agregados adicionais.

-E concluímos a etapa decisiva da revisão do PDM, aprovada na Assembleia Municipal sem votos contra, com um aumento de cerca de 20% de solo urbano que permite destravar o desenvolvimento do nosso território e criar novas possibilidades para a oferta habitacional, a atividade económica, reservando também soluções de futuro em matéria de mobilidade. Mas o que me importa naturalmente é transformar essa capacidade urbanística em projetos e casas efetivamente disponíveis.

É legítimo que a oposição fiscalize e questione as nossas decisões. Faz parte da democracia. Mas também é importante que a discussão política tenha como referência aquilo que se faz e os resultados que se pretende alcançar.

Não prometo resolver em poucos meses uma crise que se agravou durante muitos anos. Comprometo-me a dar-lhe a prioridade que exige, a mobilizar os instrumentos disponíveis e a trabalhar para aumentar a oferta habitacional.

Existe uma diferença entre reconhecer um problema e fazer dele uma prioridade de governação. Desde que assumimos funções, estamos a assumir prioridades e responsabilidades muito claras, a mobilizar instrumentos, recursos e a executar decisões.

Não prometo resolver em meses uma crise que se agravou ao longo de muitos anos. Comprometo-me, isso sim, a não aceitar que a habitação permaneça num plano secundário da prioridade política e da ação municipal.

O legado que quero deixar é uma Guimarães onde mais pessoas consigam aceder a uma habitação digna, onde os jovens tenham condições para constituir família e onde a falta de casa não seja um obstáculo ao desenvolvimento do concelho.

No final, o que contará não serão as declarações que fizemos. Serão as casas que conseguirmos disponibilizar, as famílias que conseguirmos apoiar e a capacidade que deixarmos instalada para continuar a responder a este problema.

A habitação será fundamental para «chamar» mais gente para o concelho, nomeadamente professores, médicos e por aí fora?

Sem dúvida. Hoje, a habitação é um dos fatores que mais condicionam a capacidade de um território para atrair e fixar pessoas.

E esta realidade obriga-nos a olhar para a política habitacional também como uma dimensão da nossa estratégia económica e de desenvolvimento.

Um hospital pode oferecer uma excelente oportunidade profissional, uma escola pode precisar de contratar professores ou uma empresa pode querer instalar um novo centro de investigação. Mas, naturalmente, se os profissionais não encontrarem uma casa compatível com os seus rendimentos, a atratividade dessas oportunidades fica seriamente comprometida.

Este é um problema especialmente relevante para Guimarães, onde pretendemos reforçar os serviços, consolidar a relação com a Universidade do Minho, atrair novas empresas e desenvolver atividades económicas de maior intensidade tecnológica.

Mas há um princípio que não podemos esquecer: tornar Guimarães mais atrativa não pode significar criar mais dificuldades a quem já cá vive.

Quem vive no nosso concelho não pode pagar essa fatura.

Ou seja, precisamos de soluções que respondam simultaneamente a quem procura estabelecer-se em Guimarães e a quem nasceu ou cresceu aqui e enfrenta dificuldades para constituir família, comprar a primeira casa ou suportar uma renda.

Por isso, a estratégia municipal não pode ficar limitada a apoios financeiros. Isso exige uma política que combine habitação pública, apoio ao arrendamento, reabilitação, investimento privado e melhor planeamento do território.

Exige também melhores transportes públicos e acessibilidades. Num concelho com a dimensão e a diversidade das nossas freguesias, a oportunidade de viver em Guimarães não pode ficar limitada a quem consegue morar perto do centro ou dispõe de transporte próprio.

A habitação é, por isso, muito mais do que uma resposta social. É uma condição para o crescimento económico, para a atração de talento e para a coesão territorial.

Queremos uma Guimarães onde seja possível chegar para trabalhar, mas também ficar para viver. E onde a atratividade do concelho represente uma oportunidade para os vimaranenses, não uma dificuldade acrescida.

O que pretende com a criação da Área Metropolitana do Minho?

Quero que o Minho tenha uma voz mais forte, maior capacidade de decisão e instrumentos que lhe permitam transformar o seu peso económico, científico e demográfico em investimento e melhores condições de vida para as pessoas.

Durante demasiado tempo, a organização administrativa não acompanhou a realidade da nossa região. Hoje, as pessoas vivem num município, trabalham noutro, estudam noutro e utilizam serviços que ultrapassam largamente as fronteiras administrativas.

Contudo, continuamos frequentemente a planear a mobilidade, a habitação e as infraestruturas a partir de unidades administrativas que, isoladamente, têm uma capacidade limitada para responder a estes desafios.

É esta realidade que pretendemos definitivamente transformar.

A criação da Área Metropolitana do Minho não pode nem deve ser entendida como uma simples alteração do mapa administrativo, mas como uma nova escala de planeamento, decisão e representação institucional, capaz de articular os municípios, as universidades, os centros de investigação, as empresas e as restantes instituições da região.

Queremos uma região com maior capacidade para captar investimento, desenvolver infraestruturas, coordenar políticas de mobilidade e habitação, promover a inovação e negociar com o Estado projetos estruturantes.

O processo que iniciámos com Braga, em julho, tem precisamente essa finalidade. E quero sublinhar que não pretendemos criar uma estrutura exclusiva das duas cidades, antes um projeto que foi concebido com uma lógica aberta e partilhada com os restantes municípios do Ave e do Cávado, que poderá ser alargado ao Alto Minho e as instituições que participam no desenvolvimento da região.

Naturalmente, a sua concretização exige trabalho técnico, consenso político e enquadramento legislativo. Não confundimos o início de um processo com a sua conclusão.

Existe também uma dimensão de equilíbrio territorial e o Minho tem condições para desempenhar um papel ainda mais determinante nesse objetivo, porque o Minho reúne uma combinação muito relevante de indústria, conhecimento, empreendedorismo e recursos humanos qualificados.

A verdadeira ambição é conseguir que o peso económico, científico e demográfico do Minho se traduza em maior capacidade de decisão e em melhores condições de vida para quem aqui reside, estuda e trabalha.

O Minho não precisa de abdicar das suas identidades. Precisa de transformar a sua força conjunta em capacidade de decisão. E Guimarães deve ter um papel ativo nessa construção.

Pretende fazer só um mandato, depois de ter conquistado uma câmara que há mais de 30 anos «era» do PS?

De forma clara e direta como gosto de responder: a minha vontade e intenção é fazer mais do que um mandato.

A mudança política que ocorreu em Guimarães, depois de 36 anos de governação socialista, foi um momento importante na história do concelho. Mas uma mudança de maioria só ganha verdadeiro significado se for acompanhada por uma mudança na capacidade de responder aos problemas e de criar oportunidades.

Candidatei-me porque entendi que Guimarães precisava de um novo ciclo de desenvolvimento. Fiz essa avaliação reconhecendo as realizações positivas das décadas anteriores, mas também identificando dificuldades que, na minha perspetiva, exigiam novas prioridades e uma nova estratégia.

Foi com esse compromisso que me apresentei aos vimaranenses e, como digo várias vezes, estou cá para cumprir e transformar.

Os problemas que elegemos como prioritários não se resolvem através de decisões isoladas nem obedecem integralmente aos ciclos eleitorais. A melhoria das acessibilidades, a diversificação da economia, a construção de mais habitação, a permanente valorização do território e a criação de mais oportunidades para as novas gerações exigem determinação, continuidade e persistência.

Neste momento, a minha preocupação é cumprir, com a maior determinação e exigência, o mandato que os vimaranenses me confiaram.

Mas também é natural que um presidente de Câmara tenha uma visão de longo prazo. Consideraria até preocupante que assim não fosse, sendo que essa visão tem também de ser acompanhada de resultados concretos a cada momento.

Não quero que este mandato fique na história apenas por ter representado uma alternância política. Quero que seja reconhecido pelo que conseguimos transformar na vida das pessoas e pelas oportunidades que criámos para o futuro do concelho.

A minha ambição é continuar a servir Guimarães e cumprir o mandato que me foi confiado. E serão sempre os vimaranenses a decidir o futuro.

Diz que ser presidente da Câmara de Guimarães é a sua maior honra da vida política e cívica. Se for convidado para um cargo governativo, recusa?

A presidência da Câmara Municipal de Guimarães é a maior honra da minha vida política e cívica. Foi para servir Guimarães e os vimaranenses que me candidatei, e é nessa missão que estou concentrado.

Tenho muito respeito pelas funções governativas e por quem as exerce. Mas, neste momento, não trocaria a responsabilidade que assumi perante os vimaranenses por outro cargo.

A maior honra da minha vida política é aquela que os vimaranenses já me confiaram. Por isso, quero exercê-la com inteira dedicação e estar à altura dessa confiança.

Tenho naturalmente muito respeito pelas funções governativas, por todos aqueles que as exercem, e não digo que não no futuro, mas enquanto puder e os vimaranenses assim o quiserem, o meu compromisso maior é com Guimarães e com os Vimaranenses.

Há muito trabalho para realizar e é nesse trabalho que estou totalmente concentrado.

Guimarães e Braga têm uma rivalidade que vem de longe. O que se pode fazer para «minimizar» essa disputa permanente, que tem no futebol o seu expoente máximo? Conseguirão trabalhar em conjunto?

A rivalidade entre Guimarães e Braga faz parte da história e da identidade das duas cidades. Temos comunidades com um forte sentimento de pertença, patrimónios próprios e instituições que representam gerações de vimaranenses e bracarenses.

Não vejo qualquer problema nessa rivalidade. Pelo contrário, considero que a identidade e o orgulho de cada cidade são valores que devemos preservar. O problema seria transformar essa diferença numa incapacidade de trabalhar em conjunto, de cooperar.

Não existe qualquer contradição entre defender os interesses de Guimarães com determinação e reconhecer que há desafios que exigem respostas conjuntas com Braga ou vice-versa.

Partilhamos uma universidade de referência, um tecido empresarial fortemente relacionado e movimentos diários de pessoas que estudam, trabalham e utilizam serviços em ambos os concelhos.

Quando falamos de transportes públicos, de acessibilidades, de habitação, de investigação ou de atração de investimento, estamos a falar de problemas e oportunidades que ultrapassam as fronteiras administrativas.

É por isso que considero especialmente relevante o entendimento alcançado com o Presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues, para iniciarmos o processo de criação da Área Metropolitana do Minho.

Não estamos a pedir aos vimaranenses que deixem de ser exigentes na defesa de Guimarães. Estamos a demonstrar que essa defesa pode ser mais eficaz quando existe capacidade de cooperação regional.

Quanto ao futebol, reconheço inteiramente a intensidade da rivalidade entre o Vitória Sport Clube e o Sporting Clube de Braga. O desporto faz parte da identidade das duas comunidades e deve continuar a ser vivido com emoção, entusiasmo, intensidade, mas também com respeito.

O que não devemos permitir é que a paixão desportiva se transforme em hostilidade ou prejudique a relação institucional entre as cidades.

Guimarães e Braga não precisam de concordar em tudo, nem de deixar de competir. Precisam é de reconhecer que há objetivos estratégicos para os quais a cooperação constitui uma vantagem para ambas.

O futuro do Minho beneficiará dessa capacidade de entendimento, sem que nenhuma das cidades tenha de abdicar da sua identidade.

Quero uma Guimarães que saiba defender aquilo que é seu, que tenha orgulho na sua identidade e que não tenha receio de cooperar. Podemos ser rivais no futebol e trabalhar juntos pelo futuro do Minho.

Qual foi o dérbi mais emocionante a que se recorda de ter assistido, ou não gosta de futebol?

Há um dérbi da minha juventude que recordo particularmente. Em fevereiro de 1990, o Vitória foi ao Estádio 1.º de Maio vencer o Braga por 3-1, num jogo que começou precisamente com um golo do adversário, logo aos cinco minutos.

O Vitória reagiu de imediato, empatou por Chiquinho Carlos e chegou à vitória com dois golos de Silvinho. Foi um daqueles resultados que ficaram na história dos confrontos entre os dois clubes.

Recordo também a importância que o Vitória sempre teve para a minha geração e para a cidade. Crescer em Guimarães é compreender muito cedo que o Vitória representa uma ligação emocional extraordinária entre o clube e os seus adeptos.

E há uma coisa que não mudou, nem vai mudar (risos), porque confesso que quero que o Vitória ganhe todos os dérbis, naturalmente. Mas quero também que a rivalidade se viva com desportivismo e respeito, porque defender apaixonadamente o nosso clube não nos impede de reconhecer aquilo que nos aproxima enquanto comunidades.

Se gosta de futebol, consegue fazer o melhor onze de sempre do Vitória?

Escolher onze futebolistas numa história tão rica como a do Vitória é um exercício necessariamente discutível. Cada geração de adeptos guarda memórias diferentes e associa determinados jogadores a momentos muito particulares da vida do clube.

Mas escolheria o seguinte: Neno, Costeado, Geromel, Fernando Meira, Dimas, N'Dinga, Pedro Mendes, Pedro Barbosa, Vítor Paneira, Raphinha e Paulinho Cascavel.

Imaginemos que recebe um autarca de outro país e lhe oferece um almoço, ou jantar. O que mandaria cozinhar e que vinho ofereceria?

Não teria grandes dúvidas. Escolheria uma refeição que mostrasse o melhor da nossa cozinha tradicional, começando pelos sabores mais genuínos de Guimarães.

Serviria um bom bucho recheado, preparado à moda vimaranense, ou uns rojões à minhota, acompanhados pelos sabores tradicionais da nossa região. E reservaria para a sobremesa duas especialidades que considero indispensáveis, as Tortas de Guimarães e o Toucinho-do-Céu, heranças da nossa tradição conventual.

Quanto ao vinho, faria questão de valorizar a produção regional, com opções adequadas às preferências dos convidados.

Mas, sobretudo, escolheria uma mesa onde o nosso convidado pudesse descobrir aquilo que a gastronomia de Guimarães tem de mais especial. Uma cozinha de sabores intensos, profundamente ligada às tradições familiares, às receitas transmitidas entre gerações e ao extraordinário saber dos nossos cozinheiros e cozinheiras.

Gostaria que esse convidado saísse de Guimarães a conhecer melhor a nossa terra e com vontade de regressar. Porque também é através destes momentos de partilha que afirmamos a identidade e a capacidade de acolhimento do nosso concelho

Que papel terá a cidade e os vimaranenses nas comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal?

Guimarães tem uma responsabilidade histórica incontornável nas comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, em 2028. Foi aqui, a 24 de junho de 1128, que ocorreu um dos momentos decisivos do processo de formação de Portugal.

Esta data não pertence apenas a Guimarães. Pertence à história de todo o país. A comemoração dessa data tem por isso uma dimensão nacional e exige articulação com o Governo e com o Comissariado Nacional liderado pelo Dr. Paulo Portas.

Assumimos como prioridade reforçar a sua dimensão nacional, envolvendo a Assembleia da República, o Governo e as mais altas instituições do Estado.

Esse trabalho que realizamos teve uma expressão particularmente significativa no Conselho de Ministros realizado em Guimarães, em 3 de julho, com o anúncio do Comissariado Nacional. Posteriormente, essa estrutura foi formalizada e foram designados os seus órgãos, incluindo uma comissão executiva e um conselho geral em que o Município está representado pelo historiador António Amaro das Neves.

A presidência da Comissão de Honra pelo Presidente da República reforça igualmente a dimensão institucional e nacional destas celebrações.

Mas há uma questão que considero absolutamente essencial: os vimaranenses não podem ser meros espectadores de uma celebração desta dimensão. Antes, têm de ser protagonistas na sua construção e concretização.

Quero que as escolas, a Universidade do Minho, as instituições culturais, as associações, as freguesias, as empresas e os cidadãos tenham um papel ativo na programação. Queremos que as comemorações cheguem a todo o concelho, envolvam diferentes gerações e promovam uma relação mais profunda com a nossa história.

Desejo particularmente que as novas gerações compreendam o processo de formação de Portugal, o significado decisivo e único da Batalha de São Mamede de 1128.

Por isso, uma comemoração desta dimensão deve promover conhecimento histórico, valorizar o património, estimular a investigação, aprofundar a consciência cívica e reforçar a projeção internacional de Guimarães e de Portugal.

Para Guimarães, deve também representar uma oportunidade de melhorar a valorização e a interpretação do nosso património, reforçar a atratividade cultural e turística e criar condições para que os benefícios desta celebração perdurem no tempo.

A história confere-nos uma responsabilidade que é simultaneamente uma honra e uma exigência. Mas quero que o seu impacto vá muito além de 2028. O trabalho que fizermos deve deixar conhecimento, melhores condições de valorização do património, novas oportunidades culturais e uma ligação mais forte entre os vimaranenses e a história da sua terra.

Desejo que, em 2028, Guimarães seja um lugar de encontro de portugueses de todas as regiões, gerações e sensibilidades, unidos pelo interesse em conhecer melhor a sua história e em participar numa celebração que pertence a todo o país.

E gostaria que, depois das comemorações, permanecesse algo particularmente importante para os vimaranenses. Uma maior valorização do nosso património, mais conhecimento, novas oportunidades culturais e uma relação ainda mais profunda das gerações jovens com a história da sua terra e do seu país.

A história deu a Guimarães um lugar único na formação de Portugal. Cabe-nos agora honrar essa responsabilidade, envolvendo os vimaranenses e garantindo que esta celebração deixa um legado para as gerações futuras.