SÁBADO, 2
Ventura: da demagogia ao socialismo
Ventura colocou a redução da idade da reforma como a condição para aprovar a reforma laboral do Governo. O líder do Chega é inteligente e sabe muito bem que o Governo não pode aceitar uma medida que iria apressar a falência da segurança social em Portugal. Por isso, foi um modo de não apoiar uma reforma laboral que é impopular entre muitos dos eleitores do Chega e, ao mesmo tempo, procurar conquistar alguns votos no escalão etário onde tem menos votos, entre os 60 e os 67 anos.
Mas esta demagogia é perigosa. Antes de mais, Ventura fez uma proposta tipicamente defendida pelas esquerdas radicais. Isso tem um peso entre o eleitorado de direita do Chega, como se viu com muitas das reações. Depois, o Chega irá perder votos entre os mais jovens que estão fartos de políticos que defendem sobretudo os interesses dos mais velhos.
Em temas económicos, Ventura não tem convicções, mostra uma enorme ignorância (fazia bem a Ventura estudar um pouco mais de economia) e limita-se a fazer propostas demagógicas. Falta pouco para Ventura perceber que não se pode agradar a todos ao mesmo tempo e, quem o tenta, acabará por agradar a poucos.
DOMINGO, 3
O 31
Sou um portista de Lisboa, daqueles que fez o liceu em turmas onde só havia benfiquistas e sportinguistas. A tradição familiar de defender o Norte contra o poder da ‘capital’ foi mais forte do que as amizades de Lisboa. Mas foi uma preparação ótima para a vida: dá-nos a coragem e a capacidade de defender as nossas convicções sozinhos contra todos.
Depois de uma época terrível, o Porto voltou a ser campeão, sem jogar um futebol bonito, mas com uma equipa competitiva e muito bem preparada. Muitos previam que sem Pinto da Costa o Porto ficaria muito tempo sem ganhar. Afinal, no seu segundo ano como presidente, Villas-Boas mostrou a sua qualidade e espírito vencedor. Outros diziam que Farioli, sob o peso do da derrota no Ajax na época passada, não era um treinador vencedor. Mas afinal é, e ganhou o campeonato com mais 9 pontos que o Benfica e o Sporting. Os nossos jogadores, jovens e a maioria sem vitórias no campeonato nacional, mereceram ser campeões. Estou convencido que este campeonato vai dar-lhes experiência, mais qualidade e vão libertar-se da ansiedade que sentiram nos últimos jogos. O Porto voltou. Em futebol, nada assusta tanto os meus amigos benfiquistas e sportinguistas.
SEGUNDA, 4
A Ucrânia na União Europeia
Mesmo com a guerra em curso, e sem sinais de paz a curto prazo, há um debate em curso sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia. A Comissão Europeia e alguns Estados-membros querem uma adesão rápida. A UE tem investido bastante na defesa ucraniana, por isso não faz sentido deixar a Ucrânia fora da UE durante muito tempo, sobretudo se uma das prioridades é o aprofundamento da defesa europeia. No início da guerra, a adesão da Ucrânia à UE seria um modo de compensar a exclusão da NATO. Entretanto, as coisas mudaram. Agora é a UE que precisa da Ucrânia para reforçar a sua autonomia estratégica em relação aos Estados Unidos. As forças armadas ucranianas são as únicas com experiência de guerra contra a Rússia. Se a ameaça russa é a principal razão para aprofundar a defesa europeia, não faz sentido deixar a Ucrânia de fora do esforço europeu. Além disso, a indústria de defesa ucraniana já é uma das mais avançadas da Europa. Sem a Ucrânia, não haverá uma defesa europeia forte.
Muitos Estados-membros, talvez a maioria, não querem uma entrada rápida da Ucrânia na União Europeia. Uns estão preocupados com a necessidade de reformas internas na Ucrânia, sobretudo em relação à corrupção e ao estado de direito. Outros temem o impacto da adesão da Ucrânia na política agrícola da UE. E também há quem receie a deslocação da maioria dos fundos de coesão para a Ucrânia. O compromisso pode permitir uma entrada da Ucrânia relativamente rápida, mas com períodos de transição e com condições. A PAC não se aplicaria à Ucrânia durante uns anos, e os fundos de coesão estariam condicionados a reformas internas na Ucrânia.
TERÇA, 5
A extrema-esquerda na Alemanha
Os serviços de segurança alemães têm estado concentrados no terrorismo islâmico e no terrorismo neo-Nazi, mas até há pouco tempo tinham ignorado o terrorismo e a violência política dos grupos das esquerdas radicais. Isso mudou depois de, em Janeiro, um grupo da extrema-esquerda ter atacado uma das centrais elétricas em Berlim e parte da cidade ter ficado sem eletricidade e sem aquecimento durante horas no pico do inverno.
Desde então, as forças de segurança descobriram planos dos grupos de extrema-esquerda, anarquistas, grupos anti-capitalismo, eco-anarquistas, para realizar ataques a infraestruturas, empresas e capitalistas alemães. Uma das maiores fraudes nas sociedades ocidentais é o modo como as extremas-esquerdas enganam as nossas populações. Pretendem defender causas morais, como o ambiente e o planeta, a luta contra a injustiça económica e social, mas recorrem à violência e a atos terroristas sem qualquer remorso e exibindo mesmo uma superioridade moral revoltante. Será que não se aprendeu com a história do século XX e com as mortes, a violência, e com o terrorismo provocados pelas boas intenções das extremas-esquerdas? Não há boas ou más mortes, nem bom ou mau terrorismo. Há violência política e vítimas. E os grupos das extremas-esquerdas, por toda a Europa, recorrem cada vez mais à violência, em nome de uma superioridade moralidade que não passa de um cinismo repugnante.
QUARTA, 6
A China e o Golfo
A visita do MNE iraniano a Pequim mostra que a China tem estado envolvida nas negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irão. O Paquistão não passa de um ‘proxy’ dos chineses. A China tem duas preocupações em relação aos bloqueios do estreito de Ormuz. Em primeiro lugar, cerca de um terço do petróleo que a China compra vem do Golfo, sobretudo da Arábia Saudita, do Irão e do Iraque. Mais importante, o bloqueio de Ormuz tem um impacto grande na economia asiática. O crescimento económico chinês depende das suas exportações, e Pequim não quer os seus principais mercados em recessão. Por isso, o MNE chinês foi muito claro. O bloqueio de Ormuz deve acabar e a livre navegação deverá ser restabelecida.
Trump quer ir à China, a 15 e 16 de Maio, para a Cimeira com Xi, com o fim do bloqueio de Ormuz e com um princípio de acordo com o Irão. Os iranianos, em concerto com os chineses, poderão adiar o acordo e o fim do bloqueio até à Cimeira. Se assim for, a visita de Trump será vista como um pedido a Pequim para desbloquear o impasse no Golfo. Neste cenário, isso aconteceria dias depois da Cimeira.
QUINTA, 7
As eleições no Reino Unido
Desconfio que as eleições de hoje vão ser muito negativas para os trabalhistas e para o PM, Starmer. Segundo as sondagens, os resultados na Escócia e no País de Gales serão terríveis, e são dois bastiões tradicionais da esquerda britânica. Se o Reform Party de Farage ficar à frente dos trabalhistas na Escócia e no País de Gales, as coisas ficarão muito complicadas para o Governo britânico.
Além do partido de Farage, os trabalhistas vão perder votos para os Lib Dems, à direita, e para os verdes (aliados com grupos islâmicos) à esquerda. Nem o declínio dos conservadores conforta os trabalhistas. A partir de amanhã, as grandes questões da política britânica serão sobre a nova liderança dos trabalhistas (e o novo PM), e quando acontecerá a substituição de Starmer.