quinta-feira, 05 nov. 2026

Cristiano Ronaldo, um herói improvável

O herói representa um ideal humano. Na Antiguidade, era uma figura histórica ou lendária, à qual se atribuíam qualidades excepcionais: a nobreza do corpo e da alma, a grandeza de carácter e o autodomínio. Muitos heróis são figuras lendárias; outros, pelos feitos que praticaram, entraram na história e inspiraram uma longa tradição literária. A figura de Alexandre, o Grande, e a extensa literatura a que deu origem constituem um exemplo elucidativo. No contexto da tradição sapiencial bíblica, Salomão destaca-se como patrono da sabedoria, mais do que pelas suas qualidades de militar e rei. Também Gilgamesh, protagonista da célebre epopeia da antiga Mesopotâmia, adquire, ao longo da sua jornada, uma dimensão sapiencial.

No mito das Cinco Idades, ou Raças, relatado por Hesíodo em Trabalhos e Dias [1], à raça de bronze sucedeu-se a “raça divina dos heróis”, a alguns dos quais foi reservado, após a morte, um destino privilegiado nas Ilhas dos Bem-Aventurados. Nos Poemas Homéricos, a aretê dos heróis — excelência ou virtude no seu sentido mais amplo— podia igualmente associar-se à sabedoria: a que advém da experiência da velhice, que é representada por Nestor; a que caracteriza a prudência do homem maduro, de que Ulisses é exemplo; e a que se exprime pelo dom da palavra, ou seja, pela eloquência, na qual sobressaem Ulisses e Nestor.

Mas os tempos mudam. A sociedade em que vivemos, embora distante da antiga aura do sagrado, continua a alimentar-se do mito e do culto do herói. À semelhança do seu antepassado, o herói contemporâneo representa um arquétipo, um modelo no qual a sociedade projecta os seus ideais e sonhos, as mais das vezes irrealizáveis. Concentra em si atributos como a audácia, a força moral e a resiliência perante as adversidades e, tal como o seu congénere antigo, aspira à fama e à glória. Surge-nos, agora, não como guerreiro ou sábio, mas como protagonista de banda desenhada ou personagem real, na condição de estadista, vedeta de cinema ou atleta. É neste último grupo que se inclui o nosso super-atleta, Cristiano Ronaldo: uma figura improvável, se atendermos à distância entre a modéstia das suas origens e a dimensão universal do reconhecimento que alcançou.

Na mesma obra, Trabalhos e Dias, Hesíodo discorre sobre o valor do trabalho e sobre as dimensões éticas e sociais que a ele estão associadas. O trabalho surge como condição essencial de uma vida digna e ordenada. Hoje em dia, porém, o mérito nem sempre encontra o reconhecimento que merece. Alguns sectores da nossa sociedade parecem reféns de interesses instalados, para os quais a excelência é uma provocação e o talento uma ameaça. Não raras vezes, o reconhecimento internacional de figuras portuguesas de excepção contrasta com a reserva, ou mesmo a hostilidade, com que os seus méritos são acolhidos entre nós.

É sobejamente conhecido que Cristiano Ronaldo se alcandorou, à custa de “trabalho, suor e lágrimas”, ao patamar de ídolo planetário, granjeando respeito, carinho e admiração em diferentes partes do mundo. É, por isso, desconcertante ouvir vozes que se esforçam por denegrir as qualidades de quem, quer se queira quer não, é, indubitavelmente, por mérito próprio, o mais reconhecido embaixador de Portugal no mundo. Em contrapartida, essas mesmas vozes parecem, por vezes, mais prontas a incensar e a aclamar figuras estrangeiras. Poderia pensar-se que se trata de um comportamento anómalo e inexplicável; todavia, ele remete para uma persistente tendência, tantas vezes denunciada entre nós, de menosprezar quem se distingue. É uma atitude que encontra expressão no velho adágio popular: “Santos de casa não fazem milagres”.

Os antigos Gregos conheciam bem o humor cáustico e o vitupério (psógos) como instrumentos de combate social e político. O conceito de psógos apresentava vários matizes e gradações, que iam da polémica hostil e do ataque frontal ao motejo e à ironia subtil. A invectiva e a crítica virulenta, pessoal ou política, ocupavam um lugar significativo na vida pública; em contrapartida, também o elogio e o encómio eram cultivados. Dessas atitudes opostas desenvolveram-se importantes tradições discursivas: a do vitupério (psógos) e a do elogio (épainos), ambas profundamente enraizadas na cultura literária e retórica da Grécia antiga.

Na nossa sociedade, a crítica parece, frequentemente, sobrepor-se ao elogio, prolongando, em registos diferentes, uma inclinação para o escárnio e para o insulto, ambos condizentes com a antiga tradição das Cantigas de Escárnio e Maldizer. O elogio, porém, é uma arte e, como tal, deveria ser cultivado. Uma palavra apropriada, no momento certo, pode ter um impacto decisivo na vida de alguém. A capacidade de reconhecer o mérito alheio eleva o ser humano. Pelo contrário, entre as paixões analisadas por Aristóteles na Retórica, a inveja (phthonos) é a única rotulada negativamente, pois está associada a um mau carácter (êthos). Distingue-se pela dor provocada pelo sucesso ou prosperidade de outrem, mesmo quando estes são merecidos. É o sofrimento perante um bem que alguém possui e que está fora do alcance de quem desejaria possuí-lo.

Uma outra dimensão da grandeza heróica é a benevolência. No canto XXIV da Ilíada, Príamo, rei de Tróia, ousa dirigir-se à tenda de Aquiles para lhe pedir a restituição do corpo de seu filho, Heitor, morto às mãos do guerreiro grego. Comovido pela súplica de Príamo e pela lembrança do próprio pai, Aquiles acede ao pedido e concede tréguas para a realização dos funerais. A cena revela que a grandeza do herói não se mede apenas pela força ou pela vitória, mas também pela capacidade de reconhecer a dor do outro e de agir com compaixão.

Tem-se falado menos desta faceta de Cristiano Ronaldo, embora a sua actividade solidária seja frequentemente evocada na imprensa internacional. Entre os testemunhos publicados, destaco o de Cheyanne Bryan, associada à Plataforma Smiley Movement, que relaciona a notoriedade e a fortuna do futebolista com iniciativas de beneficência. Segundo a jornalista, de acordo com o site dosomething.org e com muitas outras fontes, doações de montantes elevados fazem dele o desportista que mais contribui para instituições de caridade. A filantropia de Ronaldo tem sido canalizada para o apoio a crianças gravemente doentes, a serviços médicos e a causas humanitárias. É conhecido o seu papel como embaixador global de grandes organizações sem fins lucrativos, como a Save the Children, a World Vision e a UNICEF. O trabalho de caridade do atleta vai muito além das doações que fazem manchetes. É igualmente referido o seu apoio a crianças em situação de doença grave e o seu envolvimento em iniciativas de solidariedade. Notícias relativas à entrega de prémios e bónus desportivos a instituições de beneficência ilustram a imagem pública dessa generosidade.

Embora os golos, troféus e recordes de Cristiano Ronaldo venham sempre a definir o seu legado futebolístico, a atenção dedicada aos outros oferece uma medida diferente do sucesso. Para um jogador cuja carreira se construiu sobre uma ambição incansável, o facto de colocar a notoriedade e os recursos adquiridos ao serviço de causas solidárias recorda-nos que alguns dos contributos mais significativos de um atleta podem ocorrer fora do campo de futebol — que, obviamente, não é um campo de batalha, ainda que, metaforicamente, a ele possa ser associado.

Em suma, o herói, qualquer que seja a época em que vive, distingue-se, não apenas pela excepcionalidade dos seus feitos, mas também pela capacidade de transcender os limites da condição humana e de deixar uma marca duradoura na memória colectiva. Se, na Antiguidade, a glória se conquistava sobretudo no campo de batalha, no mundo contemporâneo pode alcançar-se através de outras formas de excelência, entre as quais o desporto ocupa um lugar privilegiado. Cristiano Ronaldo personifica, a seu modo, alguns dos atributos que os antigos Gregos associavam ao ideal heróico: a aretê, entendida como excelência, a perseverança perante a adversidade, a ambição de alcançar a glória e a aspiração ao reconhecimento universal. A estas qualidades acresce uma dimensão ética, expressa nos gestos de solidariedade que lhe são atribuídos. É, pois, na conjugação do talento, do trabalho, da determinação e da generosidade que reside a sua grandeza. Porque o verdadeiro herói não é apenas aquele que conquista a glória, mas também aquele que sabe conferir-lhe um significado humano.

[1] Marília P. Futre Pinheiro, Mitos e Lendas da Grécia Antiga, Clássica Editora, 2011 (2ª ed.)

Professora Catedrática Jubilada (FLUL)

Nota: Marília P. Futre Pinheiro escreve de acordo com a antiga ortografia