quinta-feira, 05 nov. 2026

SpoGomi: o fenómeno que transformou a recolha de lixo num desporto global

Nascido no Japão em 2008, esta modalidade transformou a apanha de lixo urbano numa competição desportiva com regras e pontuações. A iniciativa cresceu até à criação de um Campeonato do Mundo e embora enfrente críticas quanto ao seu real impacto ambiental, continua a expandir-se globalmente.  
SpoGomi: o fenómeno que transformou a recolha de lixo num desporto global

Há quem olhe para uma beata de cigarro no chão e lamente apenas a falta de civismo. Kenichi Mamitsuka pensou mais longe e vislumbrou a possibilidade de criar um novo desporto. A história remonta a 2008, quando este empresário e entusiasta da atividade física, durante as suas corridas matinais pelas ruas de Tóquio, começou a recolher resíduos que encontrava pelo caminho. 

Ao perceber que podia transformar uma causa social importante num jogo divertido que poderia englobar muitas pessoas, estabeleceu formalmente as regras e fundou a Associação Japonesa de SpoGomi em 2008. SpoGomi, em japonês, é um neologismo que cruza a abreviação do termo japonês supotsu (desporto) com gomi (lixo).

Poderá causar alguma estranheza que este desporto tenha surgido naquela que, aparentemente, seja das cidades mundiais com as ruas mais limpas No entanto, desde o ataque com gás sarin no metro de Tóquio, em 1995, os caixotes do lixo na via pública foram quase totalmente removidos por razões de segurança. As pessoas são educadas para levar o lixo para casa, mas, numa metrópole com cerca de 35 milhões de habitantes, há inevitavelmente resíduos pequenos que escapam, como beatas de cigarro debaixo dos canteiros e nas frestas dos passeios, recipientes de plástico de lojas de conveniência ou invólucros descartáveis. 

No Japão, a limpeza não é vista apenas como uma tarefa de higiene ou de serviço público municipal, mas sim como uma responsabilidade cívica individual. Aliás, desde a infância, as crianças limpam as próprias salas de aula nas escolas. Daí que o menor sinal de sujidade seja logo um grande sinal de alarme para a generalidade dos cidadãos.

«Aconteceu algo engraçado: o lixo, que antes me parecia algo desagradável, começou gradualmente a transformar-se em alvos. Percebi que me estava a divertir e deu-se o click: a razão pela qual estava a gostar era porque, sem querer, tinha adicionado elementos desportivos à apanha do lixo», revelou Mamitsuka, em entrevista à National Geographic.

Decidiu então transformar a apanha de lixo, uma das tarefas mais ingratas do dia-a-dia, numa modalidade desportiva com regras, pontuações e cronómetro, desejando tornar o ato de limpar a cidade algo competitivo e divertido.

Regras, estratégia e arbitragem

O SpoGomi rege-se por um conjunto de regras elaborado pela Associação Japonesa de SpoGomi. As equipas são compostas por três elementos que, no dia da competição, recebem como equipamento luvas de proteção, pinças de recolha e vários sacos de lixo de cores distintas. A partir do momento em que o cronómetro começa a contar, as equipas dispõem de uma hora para percorrer uma área urbana delimitada (geralmente num raio de três a cinco quilómetros) e recolher a maior quantidade possível de resíduos. Dezenas de árbitros, devidamente identificados com coletes, braçadeiras e apitos, patrulham a zona delimitada da competição. Nos 20 minutos que se seguem ao apito final, os árbitros fazem a triagem minuciosa dos materiais recolhidos.   

Uma regra importante é a proibição de correr. «Pretendia uma competição na qual qualquer pessoa pudesse participar, independentemente da idade ou do género. Muitos desportos separam as pessoas por género ou premiam a capacidade atlética, mas eu não queria isso», explicou. É proibido correr, mas pode caminhar-se de forma acelerada e a distância entre os jogadores de cada equipa não pode ultrapassar os dez metros, sob pena de penalização. 

No que respeita ao sistema de pontuação, o lixo não é avaliado apenas pelo seu peso bruto, possuindo cada tipo de resíduo uma ponderação diferente, em função do seu impacto ambiental e da dificuldade de recolha. Enquanto o plástico e o vidro somam pontos regulares por quilograma, as beatas de cigarro, altamente poluentes e difíceis de apanhar individualmente, atribuem multiplicadores substancialmente mais elevados por grama.    

Apenas é válido o lixo abandonado na via pública. Tirar resíduos de caixotes do lixo, invadir propriedades privadas ou recolher bens de utilização pública constituem infrações graves, que levam à desqualificação. Por outro lado, erros na colocação dos resíduos nos respetivos ecopontos resultam em perda direta de pontos na contagem final.

Da expansão nipónica ao Campeonato do Mundo   

O que começou com um pequeno grupo de entusiastas foi ganhando força nas comunidades locais espalhadas pelo Japão, levando ao surgimento de 230 competições. Também algumas empresas japonesas começaram a aderir à causa, envolvidas numa responsabilidade ambiental corporativa. O grande ponto de viragem ocorreu quando a influente The Nippon Foundation abraçou a iniciativa, inserindo-a numa estratégia global de combate à poluição marinha: estima-se que cerca de 80% do plástico existente nos oceanos tenha origem terrestre.   

O auge deste movimento concretizou-se em novembro de 2023, com a realização do primeiro Campeonato do Mundo de SpoGomi, em Tóquio, nos bairros de Shibuya e Omotesando. A edição inaugural reuniu 21 seleções nacionais que disputaram o título após ultrapassarem exigentes fases de qualificação em países como os Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, França, Índia ou Marrocos. 

A vitória neste primeiro Mundial foi da seleção da Grã-Bretanha, que somou 9046,1 pontos, por ter recolhido 57,27 kg de lixo. «Muitas outras equipas são talvez mais ecológicas e menos desportivas, enquanto nós somos provavelmente o oposto, mas saímos daqui com uma enorme noção de quanto precisamos de limpar os nossos oceanos e reduzir o lixo», referiu a capitã da equipa, Sarah Parry, após erguer o troféu. «Às vezes era mesmo difícil porque não havia assim tanto lixo. Tivemos de procurar um pouco mais fundo, como nos arbustos, ou focarmo-nos nas beatas de cigarro no chão», afirmou Beatrice Hernandez, membro da equipa dos EUA.

A segunda edição do Campeonato do Mundo realizou-se em 2025, de novo em Tóquio e já está projetada nova edição para outubro de 2027. Refira-se que atualmente, este desporto já acolhe eventos regulares em cidades europeias como Barcelona, Paris, Brighton e Düsseldorf. 

Até ao momento, Portugal não organizou qualquer evento oficial nem teve uma seleção a participar no Campeonato do Mundo. Embora existam movimentos ecológicos locais em Portugal dedicados ao plogging (apanhar lixo enquanto se corre), estes não estão vinculados à federação desportiva e competitiva do SpoGomi. 

No entanto, a Nippon Foundation abriu candidaturas a entidades internacionais para acolher as etapas de qualificação do próximo Mundial. Qualquer organização ambiental, município ou federação desportiva em Portugal pode candidatar-se junto da federação japonesa para tornar-se ‘Organizador Local’ e realizar a primeira eliminatória oficial em solo nacional, apurando a primeira equipa portuguesa a viajar para o Japão.

As críticas  e o debate ético 

O SpoGomi não tem estado isento de alguma controvérsia. Alguns sociólogos e ativistas ambientais defendem que a mercantilização e a espetacularização da limpeza urbana podem desviar a atenção do verdadeiro problema: a produção em massa de plásticos de utilização única e a quota de responsabilidade das multinacionais na poluição global. Alega-se ainda que, ao tratar a recolha como um jogo em que “vence o melhor”, corre-se o risco de normalizar a presença do lixo no espaço público, transformando a negligência de uns na diversão desportiva de outros. 

E também se coloca a questão da pegada ecológica das grandes competições internacionais: fazer equipas deslocarem-se de avião de vários continentes até ao Japão para apanhar resíduos num parque urbano pode parecer um paradoxo ambiental substancial.

Uma das vozes críticas foi Marianne Krasny, professora e diretora do Laboratório de Ecologia Cívica da Universidade de Cornell. «Apanhar lixo é ótimo, mas isso não resolve o problema fundamental, que é: por que razão as pessoas atiram lixo para o chão, ou se poderemos diminuir o consumo de plásticos de utilização única? Ou se podemos instalar sítios convenientes onde as pessoas ponham as beatas dos cigarros nas ruas», defendeu, em entrevista à National Geographic.

Os defensores do SpoGomi contrapõem, garantido que os estudos de impacto da modalidade revelam um efeito duradouro nos participantes, alegando que quem compete na modalidade passa a olhar para as ruas com um olhar mais atento e crítico, mudando os seus hábitos de consumo e o seu comportamento diário. E lembram que este desporto atrai muitas pessoas que habitualmente não participam em ações de voluntariado ambiental.