quinta-feira, 05 nov. 2026

Quem anda de cara tapada, algo mais quer esconder…

Os filmes ensinaram-nos que quem aparece de cara tapada vem pronto para armar sarilho.

Nas recentes manifestações no Rossio, vi, em todos os dias,pessoas de cara tapada.Cachecol puxado até ao nariz, capuz na testa, óculos escuros a meio da tarde. Havia polícia a dez metros e não aconteceu nada, excepto na interação retratada na fotografia que ilustra esta crónica. O polícia pareceu pedir ao manifestante que baixasse o lenço e após resposta negativa do mesmo, resolveu ele mesmo puxá-lo para baixo.É interessante porque ocultar o rosto, excepção feita a casos muito específicos, é proibido. Desde 23 de Setembro está em vigor a Lei 58/2026, publicada no Diário da República a 24 de agosto. Proíbe o uso, em espaços públicos, de roupas destinadas a ocultar ou a obstaculizar a exibição do rosto. E não se fica pelas ruas,abrange expressamente eventos, práticas desportivas e manifestações. As multas vão de 150 a 750 euros por negligência e de 400 a 3.000 euros quando há intenção.

A verdade é que de cada vez que vou a um estádio ver futebol ou que vejo uma manif na televisão, o que é transversal às duas? Elementos de cara tapada, precisamente aqueles que no estádio usam de pirotecnia ilegal e na rua instigam a comportamentos desafiadores e provocatórios. A Lei que regula a violência no desporto, já proibia aliás há dezassete anos que alguém entrasse num recinto desportivo com um objeto que lhe ocultasse, total ou parcialmente, o rosto. E proibia que lá permanecesse assim, dando às forças de segurança o poder de o afastar. O que é que se passa na prática? Nada. Bola como diria Jorge Jesus.A minha posição sobre a matéria é simples.Quem tapa a cara não está a esconder a cara. Está a esconder aquilo que tenciona fazer com ela destapada.Isto não é preconceito meu, está estudado há meio século. Em 1976, numa noite de Halloween em Seattle, Edward Diener fez uma experiência com mais de mil e trezentas crianças mascaradas. Uma senhora apontava para a taça de rebuçados, dizia que podiam levar um e saía da sala. Quando ninguém lhes perguntava o nome, e sobretudo em grupo, levavam muito mais. Bastava perguntar o nome à entrada para a honestidade disparar.Não eram crianças más. Eram crianças anónimas.

Na rua, o resultado dessa aritmética não é um rebuçado a mais. É uma montra partida e, no dia seguinte, uma causa inteira destruída por meia dúzia de energúmenos encapuçados que ninguém consegue identificar.Veja-se o que se passa nas ruas de França.Metade da Europa percebeu isto antes de nós. A Alemanha proíbe o rosto tapado em manifestações desde 1985, a Dinamarca desde 2000, a Áustria desde 2002, a Suécia desde 2005, a Espanha desde 2013.Portugal chegou atrasado, mas chegou.Falta a parte difícil, aplicá-la. E o desenho não ajuda, porque as forças de segurança levantam o auto mas a instrução do processo e a coima cabem à câmara municipal da área onde ocorreu a infração. Quem já lidou com repartição de competências em Portugal sabe o que isso costuma produzir.Uma lei que não se aplica é pior do que lei nenhuma. Ensina que há regras decorativas.

Uma lei destas tem que ter a mesma firmeza perante todo o tipo de situações. Seja nos estádios, na rua, por motivos religiosos ou qualquer outro. A razão da segurança, de podermos saber com quem estamos a lidar e a capacidade de poderem ser identificados e punidos os que provocam desacatos é suficiente para que a mesma seja levada de forma séria e não seja mais um bibelot. Quem não deve, não teme.Parece-me um principio elementar das regras de boa convivência numa sociedade, podermos saber com quem estamos a falar e não termos que ter receio. Os filmes ensinaram-nos que quem aparece de cara tapada vem pronto para armar sarilho, seja um antigo cowboy ou um assaltante de um banco.

A descobrir:

Este fim de semana festeja-se o Halloween, uma tradição recente que adotámos de fora. Se o motivo é festa então aqui ficam algumas sugestões que não irão desiludir. A começar pelo Brunch Electronik com a dupla de djs espanhola MESTIZA, que se realizará no Pavilhão Carlos Lopes sob o conceito SACRO. Na casa Capitão o Dengo Club apresenta DJ Patrick Mason e no Palácio do Chiado celebra-se um baile de disfarces de inspiração Dark Glamour com performances teatrais e atuação dos Venga Venga. No Pátio da Galé, no Terreiro do Paço o coletivo internacional Monkey Project com Parallelle e SHIA e no histórico Alcantara Café a festa X-Luna com destaque para a artista Miss Velvet. Opções mais do que suficientes para não ficar em casa.

Música para dançar no fim de semana:

Salam - Mestiza