Domingo, 1
A situação fiscal no Brasil
Os mercados não têm candidatos nas eleições. As suas decisões são tomadas com apenas dois objetivos: tentar ganhar dinheiro, e sobretudo não perder dinheiro. A baixa do índice brasileiro e a desvalorização do real não ocorreu porque os mercados não gostam do Lula. Aconteceu porque os mercados não acreditam na capacidade de Lula de baixar o défice e a dívida pública brasileiras. Acho que Flávio Bolsonaro também não conseguiria, e aí os mercados estavam errados (mas, no caso de uma vitória de FB, teriam corrigido rapidamente a sua avaliação).
Soube-se hoje que a dívida pública brasileira irá ultrapassar os 83% no fim do ano. Ainda não se sabe qual será o défice, sobretudo por causa do impacto das medidas eleitoralistas e despesistas tomadas por Lula durante a campanha.
Lula ganhou, mas as eleições começaram na primeira volta. A votação para o Congresso determinou uma viragem à direita, com maiorias na Câmara baixa e no Senado. As opiniões da maioria dos comentários na imprensa portuguesa são uma delícia. Nos Estados Unidos, a vitória democrata no Congresso ‘acabou’ com a presidência de Trump, mas no Brasil a vitória da direita no Congresso foi desvalorizada perante a vitória de Lula. Lula será um Presidente tão fraco como Trump. Mas, com uma diferença importante: Trump será fraco durante dois anos; Lula será fraco durante quatro anos. Para combater a sua fraqueza, terá que fazer acordos com o Congresso. No Brasil, esses acordos são caros e aumentam a despesa pública. Daqui a quatro anos, a situação fiscal no Brasil será muito mais difícil do que hoje.
Segunda, 2
As consequências políticas da decisão sobre as tendas
É difícil de entender a alegria das esquerdas com a decisão da juíza Ana de Campos (não vou entrar numa discussão sobre a sentença porque não sou jurista). Mas as consequências políticas são importantes.
A primeira explica-se imaginando um cenário. Algures em 2027, o movimento Reconquista (de extrema-direita) organiza acampamentos em Lisboa e no Porto contra a entrada de novos imigrantes em Portugal e a favor da expulsão dos ilegais. De acordo com a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, essas manifestações são legais, desde que os manifestantes não façam barulho depois da meia-noite e não afetem a ordem pública. Mais, a Polícia não poderá intervir. As esquerdas não pensam nesta consequência porque estão absolutamente convencidas que as ruas (e as praças) lhes pertencem. Mas podem estar enganadas. Os movimentos de extrema-direita podem também começar a tomar o gosto pelas manifestações de rua. Ora, a lei, os tribunais e a Constituição não distinguem a extrema-direita da extrema-esquerda.
A segunda consequência política foi que o Tribunal Administrativo de Lisboa deu uma data-limite para os protestos, 24 de Novembro. Isso impede os manifestantes de concretizarem o seu principal objetivo em matérias de política de habitação: forçar o Governo a deixar cair a lei do arrendamento. Pelo contrário, a discussão da lei passou para o Parlamento, como deve acontecer nas democracias representativas.
Terça, 3
A lei do arrendamento
A política portuguesa tem uma dose de cinismo assinalável. Os manifestantes do Rossio e da Praça D. João I foram as últimas vítimas do cinismo político nacional. Por obrigação presidencialista, António José Seguro chama ao cinismo «Espírito de diálogo» e fá-lo com um enorme profissionalismo, com um ar absolutamente sério e sem se rir. Enquanto o PR afirmou que «estava muito preocupado com o que viu» (violência da polícia e dos manifestantes), começava a preparar uma estratégia para esvaziar os protestos. José Luís Carneiro criticou as «cargas policiais» (até pediu a demissão do MAI) e defendeu os manifestantes, mas colaborou para acabar com os protestos.
Falaram todos ao telefone com o PM, incluindo André Ventura, e decidiram negociar a lei do arrendamento. Pressionado pelo PR, o líder do PS recuou e agora vai negociar com o Governo. O líder do Chega também quer o PS nas negociações. Depois dos telefonemas, o PM falou ao país e saiu reforçado (com a ajuda do PR). Agora, AD, Chega e PS vão negociar no Parlamento. Os protestos das ruas já não contam politicamente. Agora são apenas um pretexto para continuar a acampar até acabar o bom tempo, ou o mais tardar, até à data imposta pelo tribunal. Também me parece claro que a lei do arrendamento será aprovada pelo Chega e pelo PS, ou não será aprovada.
Por vezes, o cinismo político é necessário para defender a democracia representativa e para expor o espírito revolucionário das extremas-esquerdas. Até um PR socialista e o líder do PS participam na estratégia. Desconfio que o Bloco, o Livre e Pedro Nuno Santos já tenham percebido que caíram numa armadilha. Mas não é de excluir que ainda não tenham entendido e que continuem a sonhar com novas ‘geringonças.’
Quarta, 4
A democracia na América
Trump e os republicanos tiveram uma enorme derrota nas eleições intercalares. Não é possível identificar as causas da derrota. Mas a mistura de várias coisas explicará a derrota. Desde logo, os Estados Unidos são um país decente e a maioria dos americanos não gostam de assistir a comportamentos indecentes e ordinários por parte do seu Presidente. Também não devem gostar dos abusos de poder, da corrupção e da arrogância da família Trump. Os Estados Unidos são uma República. Por fim, o aumento do custo de vida contribuiu certamente para o ‘tsunami azul’.
Convém, no entanto, não exagerar o ‘fator Trump’ na derrota dos republicanos. É comum nos Estados Unidos os partidos do Presidente sofrerem grandes derrotas nas eleições intercalares. Por exemplo, nas duas eleições sob as presidências de Obama, os democratas sofreram pesadas derrotas, em 2010 (o que não impediu Obama de ser reeleito Presidente em 2012) e em 2014, quando perderam as duas maiorias nos Representantes e no Senado. Nos dois últimos anos do seu segundo mandato, Obama enfrentou um Congresso de maioria republicana, uma situação semelhante à que Trump tem pela frente.
Quase todos os que celebraram a derrota de Trump, passaram dois anos a garantir que a democracia americana estava em perigo, por causa da ameaça Trump, um ditador em potência. Talvez devessem ter um pouco de humildade para reconhecer que estavam enganados. A democracia americana continua bem viva. Não se pode atacar a democracia americana quando Trump ganha, e defendê-la quando Trump perde. Parece uma análise política própria de adolescentes e, pior, pouco democrática.
Quinta, 5
As presidenciais de 2028
As campanhas para as presidenciais americanas já começaram. E em 2028, haverá primárias nos dois partidos, o que aumenta a imprevisibilidade do resultado final.
Nos republicanos, a derrota eleitoral precipitou o início da campanha. A crítica de Vance à intervenção militar no Irão, atribuindo a derrota eleitoral aos efeitos da guerra, marcou o início da campanha republicana para 2028. Vance sabe que perde com o fim da coligação MAGA. Por isso, quer mantê-la, falando para os seus instintos isolacionistas. Quer ainda evitar novos ataques americanos ao Irão, os quais poderiam ser fatais para a sua candidatura.
Marco Rubio será o maior rival de Vance. O fim da coligação eleitoral MAG não penaliza tanto Rubio como Vance. Rubio tem ainda uma vantagem sobre Vance. Para o candidato republicano vencer em 2028, será obrigado a recuperar os votos dos latinos, perdidos nesta eleição. Com Rubio, será possível; com Vance, será muito complicado.
Nos democratas, as primárias serão mais abertas. Há vários candidatos potenciais, e não seria de admirar que as primárias começassem com cerca de 8 a 10 candidatos. Apesar do número elevado de candidatos, a grande luta será entre os democratas centristas e os da ala socialista. As vitórias eleitorais de membros da ala socialista vão expô-los a um maior escrutínio, o que é sempre saudável. Daqui a dois anos, poderão estar desacreditados ou ter aumentado o seu apoio. Mas o partido ainda está escaldado com a experiência Kamala Harris e o mais provável é escolher um candidato centrista, de um estado do interior ou do sul. Se o fizer os democratas têm mais hipóteses de recuperar a Casa Branca. Mas falta muito tempo, muita coisa irá acontecer, e a eleição presidencial está em aberto. A derrota nas intercalares não impede o candidato republicano de vencer as presidenciais de 2028.