sexta-feira, 06 nov. 2026

O abraço de urso do Bloco Central

O Bloco Central não é solução. Não só institui o Chega como única alternativa como pode significar para o PSD e para o PS o mesmo que a ‘geringonça’ para o PCP, o BE e para o... PS.

Leio António Barreto há muitos anos. Sempre com consideração – ou melhor, admiração –, mesmo quando nem sempre concordo com ele. Porque António Barreto pensa naquilo que diz e escreve, escolhe e mede cada palavra, tem um pensamento convictamente estruturado e diz e escreve exatamente o que pensa. É livre, intelectualmente superior e dispensa os meus elogios.

António Barreto deu uma entrevista imperdível a Ana Maria Simões, na última edição do SOL. Mais uma vez, interpelando os leitores, obrigando-nos a refletir sobre cada afirmação, cada sentença, cada palavra – todas e cada uma delas pesadas ao caractere.

É mesmo um privilégio lê-lo. Repito: mesmo quando não estamos de acordo.

Na minha modesta opinião, António Barreto está muito enganado quando defende o Bloco Central como única forma de evitar a ascensão do Chega ao poder.

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Não deixa de ser curioso, aliás, que todos os que recentemente têm vindo defender publicamente um entendimento alargado entre o PSD e o PS – a começar pelo próprio Presidente da República (foi esse, de resto, o sentido subjacente ao apelo de António José Seguro no seu primeiro discurso de 5 de Outubro) – tenham, no mínimo, 60 anos de idade.

Que eu saiba, não há um único jovem que defenda o Bloco Central. Digam-me um!

Pode ter-me escapado ou, por qualquer motivo, não ter dado por ele. Embora não me pareça, uma vez que quem defende o Bloco Central são, sobretudo, antigos governantes do PSD e do PS – como, aliás, o próprio António Barreto.

O Chega tem crescido exponencialmente como alternativa aos chamados partidos do sistema, enquanto forma de voto de protesto, contrapeso ou reequilíbrio face ao pensamento único, ao politicamente correto ou ao wokismo acéfalo.

O Bloco Central justificou-se naqueles anos 80 como uma espécie de Governo de Salvação Nacional, perante a bancarrota em que o país se encontrava.

E como culminou? Com Cavaco Silva a conquistar a liderança do PSD precisamente por apontar baterias contra o Bloco Central e a falta de rumo para o país. Chegou ao poder e conquistou, pouco tempo depois, a primeira maioria absoluta do regime democrático pós-25 de Abril.

Portugal tinha acabado de aderir à Comunidade Económica Europeia, juntamente com a Espanha, e havia que fazer escolhas e definir um rumo para o futuro. Estava tudo por fazer.

Cavaco Silva conquistou primeiro o PSD e, depois, o país, por bater o pé àquele status quo, àquela comunhão de interesses entre PSD e PS.

O PRD, partido eanista que se colocou no centro do espetro político, desapareceu tão depressa como irrompeu. Desbaratou os 18% conquistados nas primeiras eleições legislativas a que concorreu, acabando por protagonizar uma moção de censura que Cavaco Silva muito agradeceu.

O Chega nada tem a ver com esse epifenómeno que foi o PRD – este, sim, mais próximo daquilo que agora propõe o presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, numa lógica de combate ao populismo de direita através de um populismo de centro.

O partido de André Ventura vem crescendo de eleição legislativa para eleição legislativa há sete anos, e as sondagens continuam a revelar uma tendência de crescimento sustentado.

Daí também que os defensores do Bloco Central como única forma de evitar que o Chega chegue ao poder – como o próprio António Barreto – sejam cada vez mais.

Num cenário de tripartidarismo, que se consolidou nas últimas eleições, e na eventualidade de o Governo da AD não conseguir corresponder às expectativas do seu eleitorado, é verdade que a única forma de impedir o Chega de chegar ao Governo será, muito provavelmente, esse entendimento – formal ou informal – entre PSD e PS.

Mas será sempre e apenas um mero intervalo.

Com a esquerda moribunda, mercê de um wokismo suicidário, da orfandade de liderança e da ausência de soluções, quer para os velhos problemas, quer para os novos desafios, a única alternativa ao Bloco Central passa a ser mesmo o Chega. Que lá chegará por aglutinação dos falhanços alheios e dos descontentamentos crescentes.

Com uma consequência adicional: tal como a ‘geringonça’ serviu para o PS dar um abraço de urso ao PCP e ao BE, acabando por deixar o próprio PS numa profunda crise de identidade, o Bloco Central pode acabar por dar uma machadada fatal nos dois partidos, mas sobretudo no que não o liderar – a confirmar-se a tendência revelada pelas sondagens, o PSD. E, com isso, criar condições para uma radicalização e polarização, à esquerda e à direita, à imagem do que está a acontecer noutros países europeus, em particular em França.

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