sexta-feira, 06 nov. 2026

Inquérito crime faz cair braço-direito de Luís Neves na PJ

Álvaro Pires foi afastado esta semana da PJ depois de começar a ser investigado pelo Ministério Público num inquérito a obras da Construbarcelos em sua casa.

O diretor financeiro da Polícia Judiciária, Álvaro Pires, braço direito de Luís Neves quando este era diretor nacional da PJ, foi afastado de funções esta semana por estar sob investigação do Ministério Público num inquérito crime sobre obras de remodelação na sua casa da Charneca da Caparica feitas pela Construbarcelos e reveladas em agosto pela investigação SOL/TVI/CNN Portugal.

Dois elementos da Unidade Nacional de Combate à Corrupção, da PJ, estiveram há duas semanas em casa de um vizinho de Álvaro Pires, Pedro Rosa, para recolherem cópia das imagens que este gravou e que comprovam a presença de uma carrinha da Construbarcelos à porta de Álvaro Pires, o que desmente as alegações do diretor financeiro de que tais obras nunca tiveram lugar.

Os dois inspetores questionaram o vizinho de Pires, que lhes disse o mesmo que tinha declarado à nossa reportagem durante o verão: não viu a realização de obras da Construbarcelos na casa de Pires, até porque a empreitada decorreu no interior da habitação, mas viu a carrinha da empresa de Barcelos estacionada durante cinco meses. E viu material de construção a entrar para a casa do diretor financeiro. Além disso, tem o contacto de outras testemunhas que podem corroborar a sua versão.

Pedro Rosa será chamado em breve para uma inquirição formal no âmbito destes autos, transmitiram-lhe os elementos da Unidade Nacional de Combate à Corrupção.

Quarta-feira de manhã, quando se soube que a Direção Nacional da Polícia Judiciária tinha decidido prescindir do diretor financeiro, este declarou ao Observador: «Tive conhecimento, mas não me foram transmitidos os motivos. Disseram que não era oportuna a renovação da comissão de serviço».

O enigma foi alimentado durante horas e nem a PJ nem a ministra da Justiça explicaram os motivos do afastamento de Pires. Rita Alarcão Júdice passou uma imagem de normalidade: «Parece-me muito bem que haja uma certa renovação em cargos de direção». Ninguém quis admitir, mas o inquérito crime foi determinante para a queda de Pires.

AUTORIDADES EM SILÊNCIO

As obras foram executadas em 2025 pela Construbarcelos, empresa de João dos Santos Carvalho, que também fez remodelações em pelo menos dois montes de Luís Neves em Odemira e que, ao mesmo tempo, durante o consulado de Pires e Neves, assinou contratos com a PJ no valor de cerca de 2,2 milhões de euros.

Ao que apurámos, as obras da Construbarcelos na casa Álvaro Pires não tiveram contrato nem emissão de faturas e muito menos pagamentos com registo fiscal, o que estará na mira dos procuradores.

A Procuradoria-Geral da República não confirmou até à hora de fecho desta edição a existência do inquérito crime a Álvaro Pires.

A PJ e o Ministério da Justiça não se mostraram disponíveis para comentários ao SOL.

O próprio dirigente não respondeu ao nosso contacto. Ecoa ainda o seu desmentido escrito, no verão, de que as provas do SOL sobre a realização das obras eram forjadas: «Acha que a manipulação de imagens são provas? Tenho as provas dessas manipulações e até têm áudio».

PJ APOIOU PIRES NO INÍCIO

O agora ex-diretor dos Serviços de Gestão Financeira e Patrimonial da PJ, que ali exercia funções desde setembro de 2018, foi protegido pela atual direção nacional de Carlos Cabreiro assim que foram publicadas as primeiras notícias sobre as obras na sua casa.

Num primeiro momento, Cabreiro «não ordenou a abertura de qualquer processo disciplinar relativamente a este dirigente» por « não ter qualquer elemento que indicie a realização das referidas obras», como informou a direção nacional em agosto,

Mas o problema cresceu e revelações posteriores do SOL/TVI/CNN Portugal abalaram os desmentidos.

Pedro Rosa, profissional de reboques e morador na mesma rua de Álvaro Pires, veio mostrar imagens que câmaras de vídeo do seu automóvel, um Tesla, tinham gravado inadvertidamente, na quais se via com nitidez uma carrinha Fiat propriedade da Construbarcelos estacionada à porta de Álvaro Pires em novembro de 2025. (na foto abaixo).

AUDITORIAS ESTÃO QUASE

O mesmo Pedro Rosa será ouvido pela comissão parlamentar de inquérito a Luís Neves pedida pelo Chega, cujos trabalhos podem ser retomados depois do próximo dia 24, quando a Assembleia da República concluir a votação final global do Orçamento do Estado para 2027.

No princípio da próxima semana ,os deputados reúnem-se para acertos na lista de nomes a chamar e de documentos a solicitar, após uma primeira decisão na semana passada.

O Chega, como requerente da comissão, tem o direito potestativo (não sujeito a votação), de incluir mais nomes do que os já aprovados. Álvaro Pires é um deles. E Pedro Rosa também, segundo fonte do partido de André Ventura.

Algumas destas irregularidades estão a ser alvo de duas auditorias ordenadas em agosto pela ministra da Justiça. Uma delas, descrita como «avaliação interna da PJ», deverá estar concluída nos próximos dias.

«Mantém-se a expectativa de conclusão do exercício de avaliação até ao final de novembro», disse-nos o gabinete de Rita Alarcão Júdice.

Tem sido entendido, e nunca desmentido pelo Ministério da Justiça, que nesta «avaliação interna» se inclui Álvaro Pires.

Quanto à segunda auditoria, realizada pela Inspeção-Geral dos Serviços de Justiça, diz respeito a contratos e obras públicas no período entre 01 de janeiro de 2018 e 31 de julho de 2026, ou seja, o período final do diretor nacional Almeida Rodrigues, todo o consulado de Luís Neves e os primeiros meses de Carlos Cabreiro.

Sobre o prazo desta segunda auditoria, a ministra transmitiu-nos que se «mantém a expectativa de envio do relatório de auditoria até ao final do ano». Adiantou ainda que há uma «equipa de quatro inspetores a trabalhar na auditoria».