Lições da Ucrânia

A Ucrânia não nos pede piedade. Oferece o que lhe custou sangue a aprender. Resta saber se a Europa sabe finalmente calar-se e escutar.

Há qualquer coisa de crepuscular na maneira como a Europa descobre, tarde e a custo, que tem de aprender com quem sofre. Durante décadas julgámo-nos os professores do mundo, guardiões de valores e de uma civilização que bastava evocar em discursos. Agora, passados mais de quatro anos e meio de guerra, vemo-nos sentados na última fila da sala, a ouvir um país que deixámos sozinho em 2014.

Zelensky di-lo sem rancor, o que torna tudo mais pungente. Na entrevista à L’Express, afirma: «Se, no início do conflito, os nossos militares eram treinados na Europa, hoje somos nós que conduzimos os treinos». E acrescenta que a Europa aproveita o saber ucraniano em matéria de energia «sem estar envolvida nesta guerra». Sem estar envolvida. Que frase para epitáfio de um continente.

Mais de quatro anos e meio após o início da invasão russa, os intercâmbios entre Kiev e as capitais europeias já não são, de facto, unidirecionais. E as lições da Ucrânia são numerosas: na arte da guerra, sem dúvida, mas também na capacidade de manter a sua rede energética, de lutar contra as ingerências ou de garantir a continuidade dos serviços do Estado por vezes graças a um simples smartphone.

Os drones, quase ausentes das forças ucranianas antes da invasão, são hoje doutrina. Mais de três em cada quatro baixas russas na linha da frente devem-se a eles, e existe mesmo um drone ‘ambulância’ , o StarGate, equipado com uma maca e seis hélices largas para evacuar rapidamente feridos em locais de difícil acesso. A tecnologia muda de três em três meses. Aprende-se depressa quando o erro se paga com vidas jovens.

«As nossas tecnologias podem ser facilmente reproduzidas, mas o mesmo não se passa com o nosso know-how: as nossas táticas de utilização dos drones são mais importantes do que os próprios aparelhos», explica Viktor Androussiv, analista militar.

Mas a lição não vem só das armas. Em fevereiro de 2022, com um terço do país em fuga, sem tempo para levar os documentos, havia a Diia: o Estado dentro de um telemóvel, o passaporte, a empresa, o casamento por videochamada para os que a guerra separou. Também é possível pagar impostos ou multas em poucos minutos, registar o nascimento de uma criança ou comunicar a presença de drones inimigos nas proximidades. E bastam quinze a quarenta minutos para criar uma microempresa a partir de um telemóvel. Na Diia, um dos futuros cônjuges clica em ‘Pedir em casamento’, o outro recebe a mensagem ‘Queres casar comigo?’ e tem catorze dias para responder. Em caso de acordo, as duas pessoas podem dar o ‘sim’ durante uma videochamada com um oficial do registo civil.

Herdeira de uma administração soviética pesada e propícia a abusos, a Ucrânia fez da digitalização, após a revolução de Maidan em 2014, uma alavanca contra a corrupção. A vasta reserva nacional de engenheiros e programadores qualificados acelerou esta transformação, que começa a inspirar a União Europeia. A Estónia disponibiliza, assim, desde 2023, uma aplicação semelhante à Diia. Quando será a vez de Portugal?

Numa altura em que a Ucrânia se prepara para enfrentar o seu quinto inverno sob os bombardeamentos, os ataques russos reduziram em mais de metade as capacidades de produção do país. Consequentemente, os ucranianos não tiveram outra escolha senão repensar o seu modelo energético, com pequenas centrais locais que dão luz e calor, e um ministro que resume o ofício de resistir: um sistema mais difícil de destruir e mais fácil de restabelecer. Nós, que fizemos da eficiência uma religião, esquecemos que a eficiência sem reserva é apenas fragilidade bem-educada.

Há o que não se vê, e talvez seja o mais triste. A sociedade ucraniana mantém-se unida na independência, na democracia, no horizonte europeu.

Em Lviv, Kiev, Kharkiv, Odessa ou Kherson, todos conhecem alguém que foi ferido, morto, deslocado ou que vive sob os bombardeamentos. O sofrimento partilhado reforça os laços sociais. No entanto, embora as divisões regionais e linguísticas se tenham atenuado, surgiu outra clivagem, entre os cidadãos e as elites. Alimentada pela corrupção, pelas desigualdades e pela sensação de que alguns beneficiam enquanto outros sofrem, esta rejeição das elites faz lembrar as dinâmicas ‘anti-establishment’ observadas em França, na Alemanha, no Reino Unido ou nos Estados Unidos .Ainda não fragiliza a unidade nacional, mas poderá, no entanto, tornar-se politicamente explosivo após a guerra.

E há o inimigo que fala baixinho. Contra a propaganda, a Ucrânia juntou Estado, jornalistas e voluntários. Contra os ‘agentes descartáveis’, recrutados pelo Telegram para sabotar, foi às escolas explicar a rapazes e raparigas que quem os procura serve um país inimigo. O Kremlin usa o método noutros sítios, como no atentado frustrado com um drone no aeroporto de Leipzig. A primeira trincheira, descobriram eles, é o telemóvel de um miúdo que precisa de dinheiro.

A Ucrânia não nos pede piedade. Oferece o que lhe custou sangue a aprender, como quem entrega uma lanterna a quem ainda não percebeu que escureceu. Resta saber se a Europa, tão habituada a lecionar, sabe finalmente calar-se e escutar.

Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer