Uma gigantesca barracada

A participação cívica cresce e isso é uma boa notícia para a nossa democracia que estava adormecida e onde os cidadãos julgavam não ter nenhuma forma de influenciar diretamente os decisores.

Os protestos nas acampadas eram uma ameaça à segurança. O ministro da Administração Interna fez voz grossa e nem mais uma tenda na rua. A resposta foi o que vimos e que não preciso aqui de qualificar.

O resultado desta ação, inusitada em Portugal, mostra agora o desastre de uma estratégia que partia de pressupostos completamente errados.

As tendas ficaram e a justiça está a deixar cair tudo o que pareciam crimes terríveis que justificavam tudo aquilo. Agora, numa comunicação desastrosa, admite-se que alguns agitadores estrangeiros foram afastados e que as tendas e os seus ocupantes não representam nenhum perigo.

A narrativa de que os manifestantes atacavam a polícia e que eram um grave problema de segurança deu numa permissão das acampadas. Lá ficaram as tendas nas últimas noites, sem nenhum problema, com apelos e iniciativas de diálogo para se colocar efetivamente o tema habitação na agenda.

O Governo moderou o discurso e recebe os partidos na busca de soluções e o Presidente ganhou uma centralidade feita em grande parte no silencia dos bastidores.

Cada bastonada, ou multa a quem buzinava em Lisboa, multiplicou o protesto e deu mais força aos manifestantes que alargaram a sua base de apoio e conquistaram a simpatia da opinião publica para a causa.

Mas são precisas soluções para responder aos jovens que estão na rua.

Miguel Pinto Luz resolveu não atalhar caminho e no Porto falou diretamente com os manifestantes e recebeu um documento com sugestões. Prometeu conversar e ter soluções. A conversa começou em gritaria, mas acabou tranquila e civilizada. Até cordial. Mas por que raio não se fez isto logo? Para o que serviram as noites de violência e aquele espetáculo terrível em Lisboa e no Porto?

Os manifestantes perceberam agora a força que têm e a ação do Governo deixou esta nova via de protesto como muito mais eficaz. Veremos o que virá a seguir. O custo de vida está a sentir-se de forma dramática e o começo do novo ano poderá ser complicado.

Luís Neves usou a PSP para esta ideia de repressão imediata de um movimento de rua.

A eficácia desta política foi nula e apenas se acendeu mais a chama destes protestos.

A imagem da Polícia sai manchada destes dias e o incómodo no interior da instituição é evidente e vai ter consequências. A Associação Socioprofissional da PSP já o disse e há que ter mesmo atenção a isto. As forças de segurança não podem ser fragilizadas pelas lideranças políticas. Isto não é bom para ninguém, muito menos para a democracia e para a necessidade de as polícias serem sempre respeitadas.

A nova liderança da PSP, conhecida como dialogante e competente foi arrastada para isto, numa ação política que acabou por se revelar completamente errada.

Vamos ver o que dizem as investigações a tudo isto e quem será verdadeiramente responsabilizado pelo que aconteceu em Lisboa e no Porto e se alguém tem a coragem de contar tudo sobre os bastidores destas decisões e quem as tomou verdadeiramente.

Ninguém sabe quando vão terminar as acampadas, mas ter o tema Habitação na agenda e não estar com cargas policiais todas as noites, vai ajudar a serenar os protestos, se forem mesmo encontradas mesmo soluções, nas autarquias e no poder central.

A chuva pode afastar as tendas, mas não vai afogar a ideia nem a utopia de poder popular que umas largas centenas de jovens experimentam nestes dias. A participação cívica cresce e isso é uma boa notícia para a nossa democracia que estava adormecida e onde os cidadãos julgavam não ter nenhuma forma de influenciar diretamente os decisores, nem viam consequências dos seus protestos e reivindicações.

As acampadas, muito pela forma desastrada como se tentou acabar com elas, ganharam essa força.

Os decisores vão aprender que nestes tempos, o melhor é mesmo resolver os problemas como deve ser, de preferência sem um bastão que seja.