As rendas dos novos contratos em Barcelona caíram 4,4% desde que a Generalitat fixou tectos máximos, em Março de 2024: de 1.193 para 1.141 euros mensais, segundo dados recentemente divulgados. “A lei está a funcionar”, declarou o presidente catalão, Salvador Illa. Segundo o executivo, os inquilinos poupam 129 euros por mês, valor que compara as rendas com um cenário hipotético sem lei (o cálculo não foi divulgado pelo governo). Já a descida observada foi de 52 euros.
O ponto de partida escolhido pela Generalitat é, porém, um trimestre de pico. Comparando 2025 com 2023, o último ano completo sem limites, a renda média ficou praticamente igual: 1.134 euros contra 1.136.
Os dados do Instituto Catalão do Solo mostram ainda que o preço por metro quadrado atingiu um recorde de 17,13 euros, comparativamente a 16,73 no início de 2024, e que o tamanho das casas arrendadas caiu 5.2%, de 75 para 71 m2. Paga-se menos pela renda, mas em parte isso decorre das casas serem mais pequenas.
Apesar da descida, os dados sugerem que há agora menos casas disponíveis para quem procura arrendar. Em Barcelona assinaram-se 38.683 novos contratos em 2023 (quando a medida foi anunciada) e 30.789 em 2025, menos 20%. O saldo entre contratos novos e terminados caiu de 6.500 para cerca de 500. Segundo a Fedea, os anúncios de arrendamento na província de Barcelona caíram 22.2% em dois anos, enquanto que em Madrid subiram 3.9%.
O Governo respondeu que os contratos ativos ultrapassam os 850 mil e que os inquilinos mudam menos de casa, mas ambos os efeitos podem co-existir: o total pode crescer porque menos gente sai, enquanto diminui o número de casas que chegam ao mercado.
Os dados indicam também que parte da oferta fugiu para o arrendamento temporário, isento dos tectos até janeiro deste ano: os contratos temporários subiram de menos de 6.000, em 2023, para quase 8.800, em 2025. E se as rendas subiram 0.7% nas zonas reguladas, subiram 11% nos municípios não abrangidos. Ou seja, o mesmo número admite outra leitura: parte da procura que não encontrou casa nas zonas reguladas pode ter-se deslocado para os municípios vizinhos, pressionando aí os preços. Nesse caso, parte da subida das rendas não teria desaparecido: ter-se-ia simplesmente deslocado para os municípios vizinhos.
A investigação académica já tinha identificado efeitos semelhantes. Um estudo de Joan Monràs e José García-Montalvo, publicado em 2025, sobre a anterior lei catalã de 2020, estimou uma descida de cerca de 5% nas rendas, acompanhada de uma redução de 10% nos novos contratos. Os investigadores concluíram ainda que as habitações inicialmente mais baratas chegaram a encarecer ao aproximarem-se do tecto de referência.
Este era, em suma, o artigo que o PÚBLICO poderia ter publicado quando noticiou a descida de 4.4% das rendas em Barcelona. Bastava consultar os restantes números da própria Generalitat e fazer o contraditório, em vez de tratar uma conferência de imprensa política como verdade absoluta. Dá mais trabalho, é certo, e tem outro inconveniente: os factos podem estragar uma boa narrativa. Mas para isso era preciso fazer jornalismo, não traduzir comunicados de catalão para português.