Não gostei nada das imagens que vi...

Se há algo que não esperava ver seria jornalistas em pânico pelo facto de o Governo ter decidido proibir drones sobre a manifestação do Rossio marcada para o dia seguinte (medida entretanto revertida).

Domingo, 25 de outubro

Depois de uma noite intensa de confrontos entre manifestantes e a polícia no Rossio, depois de uma noite com violência desproporcional por parte das autoridades, depois de uma entrevista absolutamente surreal de Filipa Pereira a Fabian Figueiredo, o directo da matiné da CNN Portugal seguiu para a Praça do Rossio, onde o repórter José Gabriel Quaresma estava a acompanhar novo ajuntamento público e pacifico com «manifestantes e cidadãos comuns», pessoas que, «desculpem-me a expressão, são pessoas normais»...

O ingénuo dislate por parte do repórter não teria tido qualquer contraditório não fosse ter sido ouvido no local por um dos cidadãos “normais” que ali estava e que prontamente o corrigiu: «ontem também eram normais!». Quaresma assumiu o erro, pediu desculpa, mas voltou a tropeçar, explicando ao seu interlocutor que pretendia fazer a diferença entre as pessoas que estavam ali ontem à noite e as que estavam ali hoje à tarde, sendo que hoje supostamente só estavam «as normais». O triste diálogo terminou todo em off, porque o repórter saiu de cena para elucidar o manifestante. «Quer fazer o meu trabalho?», perguntou. «Não, só queria que o fizesse bem», retorquiu o cidadão “normal”...

Domingo, 25 de outubro

A cerimónia de confronto dos noivos com os especialistas na gala de Casados à Primeira Vista sofre um percalço quando uma das concorrentes, Maria de Fátima, à conversa com Teresa, confessa que o seu noivo António a terá ameaçado de violência. «Tu não sabes aquilo que eu sou capaz! Quando utilizar esta parte da mão, que é a coisa mais feia que eu tenho, vais ver». A conversa decorreu em off, afastada dos especialistas e da apresentadora Diana Chaves, e foi emitida na noite de domingo sem qualquer consequência por parte da produção. No entanto, segundo as notícias, o casal acabou por ser expulso pelos especialistas, aumentando o cadastro de relações fracassadas e casamentos falhados desta edição do reality. Nada bonito de se ver.

Segunda-feira, 26 de outubro

Lula da Silva acabara de ganhar as eleições presidenciais no Brasil, numa virada histórica que ecoou pelo mundo, mas o noticiário do almoço da TVI do dia seguinte empurrou a manchete para os confins do seu alinhamento, antes disso ainda tivemos notícias sobre as acampadas de Lisboa e Porto, o silêncio de Seguro, os lucros da Galp, o verão de São Martinho, a morte de um automobilista após colisão com javali, e a derrota do Sporting diante do “Académio” (ou seja, o Académico de Viseu).

Segunda-feira, 26 de outubro

No final de tarde da RTP Notícias, Natália Carvalho e António José Teixeira entram numa espécie de rota de colisão passivo-agressiva relativa aos apoios ideológicos por detrás da acampada. A editora de política da Antena 1 refere que é o Bloco de Esquerda quem tenta beneficiar da situação, alegando que já não se discute a habitação mas a legitimidade da intervenção policial; António José Teixeira, comentador da RTP, mais equilibrado, contrapõe afirmando que o descontentamento é dos jovens, seus pais e avós, portanto «atravessa a sociedade portuguesa», que é quem está a sofrer com a crise da habitação, não o BE. «Nunca houve um problema de ordem pública, houve um problema de ordem pública por ordens dadas à polícia no sentido de evitar que estes protestos pudessem continuar, e ter a ousadia de usar uma tenda no espaço público». Ao lado da serenata do Coro Social do Bairro das Caldas da Rainha exigindo a Seguro que «mostrasse a cara», não se viu nada mais lúcido ser proferido na semana em questão. O que se seguiu durante a semana veio confirmar que António José Teixeira tinha razão. Ou seja, imagens que Seguro não gostou de ver.

Terça-feira, 27 de outubro

A bem ver, a nova temporada da série de Bruno Nogueira na RTP, Ruído, ainda não chegou a fazer-se verdadeiramente ouvir. Os dois primeiros episódios prometiam muito, mas, não só essa promessa ficou por cumprir, como a qualidade do humor desceu nos episódios seguintes. No quarto capítulo, esta semana, o melhor sketch foi o das salas de machismo e xenofobia onde os funcionários de uma empresa poderiam livremente manifestar o seu preconceito, uma graçola bem esgalhada e atual, mas que, na verdade, não é absolutamente original, os Monty Python há mais de cinquenta anos fizeram algo igual.

O sketch de Bruno Nogueira, como chef trapalhão que corta os dedos a cortar enchidos, é puro Herman José anos 90, portanto é uma cópia, perdão, uma homenagem de trinta anos.

A entrevista de Fátima Lopes ao ator que define o seu métier como “transcendental” tem um problema de casting, uma vez que Fátima Lopes, que não faz parte do elenco do Ruído, está a ocupar o lugar de Rita Cabaço, que, na primeira temporada, tinha uma rábula semelhante em que perdia a compostura perante o tédio dos seus convidados. Não percebo como é que esse sketch fixo desaparece da primeira temporada para a segunda e depois é reciclado na segunda temporada com Fátima Lopes no lugar de Rita Cabaço.

Quarta-feira, 28 de outubro

Eurovisão 2027: Países Baixos, Islândia e Irlanda vão boicotar. Espanha e Eslovénia ainda não decidiram. Macedónia do Norte e Canadá serão novos convidados. A outra novidade é que Portugal vai participar, mas abandona o modelo de participação do Festival da Canção que lhe trouxe tão bons resultados na última década, abolindo o certamente oneroso convite feito a artistas e compositores específicos, para recuperar o sistema de livre submissão, sistema esse que, durante anos, atirou com o Festival da Canção para o esgoto. Portanto, em vez de controlar a linha editorial do concurso, a RTP elimina os constrangimentos e a sua responsabilidade, e permite a entrada livre a quem quiser propor a participação no Festival da Canção.

Outra novidade anunciada esta semana pela RTP: não haverá lugar a meias-finais do Festival da Canção, os dezasseis candidatos participarão todos numa final a realizar como sempre em março. Ou seja, é um ciclo que se fecha para um evento que, ano após ano, já vinha a perder algum fulgor.

Por mais que se diga que a política e a Eurovisão não se misturam, esta decisão política da RTP vem provar o contrário: depois do inesperado boicote à Eurovisão pela maioria dos artistas convidados ao Festival da Canção 2026, este convite à livre submissão para o Festival 2027 garante que os artistas concorrentes irão definitivamente participar na Eurovisão caso ganhem o Festival, uma vez que ninguém se inscreve para depois boicotar.

É uma decisão inteligente mas cobarde por parte da RTP, que é incapaz de se afirmar politicamente perante um evento internacional que já deu mostras de estar inquinado, como é a Eurovisão, ao mesmo tempo que elimina o critério de elite que determinou as escolhas de artistas nos últimos dez anos. Uma coisa é a RTP convidar os melhores artistas nacionais a participar no Festival da Canção, outra é achar que os melhores artistas nacionais se irão dar ao trabalho de concorrer a um festival para o qual não foram convidados. O que irá acontecer ao longo dos próximos anos será o Festival da Canção continuar a reunir apenas candidaturas medíocres de artistas que utilizarão o evento para se promoverem. Nada a opor, é legítimo que o façam, até porque foi a RTP que agora permitiu essa ramboia.

Quinta-feira, 29 de outubro

André Ventura está acampado nas nossas televisões desde 2023 e até agora não vi ninguém chamar a polícia. De qualquer forma, depois de mais de uma centena de “entrevistas exclusivas” em menos de três anos, a CNN Portugal foi o primeiro canal a assumir que o modelo de entrevista se encontra esgotado. Vai daí, esta semana testou um modelo de entrevista múltiplo diferente, atribuiu-lhe o título de “redação em direto”, e deixou Ventura peripatético na redação da CNN a ser entrevistado por mais de uma dezena de profissionais da estação.

Apesar da excelente coordenação do pivot André Neto de Oliveira, creio que faltou uma contextualização ao novo conceito da CNN, não foi explicado se cada profissional foi livre de fazer as suas perguntas sem supervisão da direção de informação, nem o espectador percebeu se Ventura recebeu antecipadamente as perguntas, parece-me que a situação exigia esse disclaimer.

Como formato televisivo, gostei do conceito de redação em direto, acredito que também Ventura tenha gostado, porque, em vez de uma previsível entrevista de meia-hora, o convidado teve mais de noventa minutos de tempo de antena para dizer ao que ia.

Também gostei muito das intervenções de José Alberto Carvalho sobre Bolsonaro, de Pedro Benevides sobre o assalto ao gabinete do Chega, e de Ana Sofia Cardoso sobre as acampadas. A resposta de Ventura a Ana Sofia Cardoso foi paradigmática: «As manifestações têm de cumprir a lei, não podem ocupar assim espaço público, não pode haver uma manifestação a vir agora ocupar os espaços da TVI». Bom, para que conste, a TVI é um espaço privado, espaço esse que não deveria realmente ser invadido por nenhum cidadão, instituição ou partido político. Mas, ainda assim, ninguém impediu as deputadas do Chega de invadirem o espaço privado da Rádio Universidade de Coimbra, há duas semanas. Aliás, no que toca a invasões, já não há nada a impedir ao Chega, que há muito está assentado dentro do sistema, já não precisa de se dar ao trabalho de invadir, só precisa de impedir que o tirem de lá.

Quinta-feira, 29 de outubro

Um dos filmes de terror da semana do Halloween foi o invulgar anúncio público de Christine Lagarde a anunciar a sua saída do BCE no próximo ano, um enquadramento bizarro de uma das figuras públicas mais poderosas do planeta, aqui retratada num estado de vulnerabilidade a roçar o abuso, destacando-se as feridas no rosto, o microfone conspícuo sobre a camisa, uma estranha estátua de coruja lá atrás, e uma surreal captação de imagem em zoom, como se estivesse num filme do David Lynch.

Quinta-feira, 29 de outubro

Outra das revelações mais assustadoras da semana foi a de Miguel Sousa Tavares, na sua crónica semanal do noticiário da TVI, a acusar a EMEL de ser uma associação de malfeitores, por o “perseguirem” e terem bloqueado e multado o seu automóvel, que ficou estacionado numa zona de cargas e descargas, enquanto o cronista foi tomar o pequeno-almoço a Campo de Ourique, Lisboa.

Miguel Sousa Tavares é o espelho deste país ordeiro, que exige o rigoroso cumprimento da ordem pública, desde que não interfira com a sua liberdade individual de conduzir a duzentos à hora na A2 a caminho do Algarve ou de estacionar em segunda fila durante cinco minutos à porta do café do bairro onde habitualmente toma a sua meia de leite, croissant misto e uma raspadinha.

No meio deste desabafo, salvou-se a conduta de José Alberto Carvalho, que imediatamente fez ver a Sousa Tavares que a EMEL não é efetivamente um bando de malfeitores.

Sexta-feira, 30 de outubro

Se há algo que não esperava ver seria jornalistas em pânico pelo facto de o Governo ter decidido proibir drones sobre a manifestação do Rossio marcada para o dia seguinte (medida entretanto revertida). Portanto, os mesmos jornalistas que andam há semanas a questionar o direito de um cidadão se manifestar num espaço público agora questionam a interferência no seu direito à informação. Eles primeiro vieram buscar os manifestantes, depois vieram buscar os jornalistas.