sexta-feira, 06 nov. 2026

Enfermeiros denunciam: médico recusou observar doente que acabou por morrer após 24 horas nas urgências de Portimão

A denúncia acontece no seguimento da morte de um homem de 87 anos, que terá esperado 12 horas na sala de espera das urgências de Portimão sem receber assistência.
Enfermeiros denunciam: médico recusou observar doente que acabou por morrer após 24 horas nas urgências de Portimão

Um homem morreu nas urgências do Hospital de Portimão depois de ter permanecido cerca de 24 horas sem ser observado por um médico. O episódio aconteceu a 7 de outubro e é um dos casos relatados pela equipa de enfermagem, que aponta para uma sucessão de recusas de atendimento e para a falta de responsáveis que pudessem intervir.

Segundo a denúncia, citada pela SIC Notícias, o doente regressou ao serviço de urgência no início da tarde, depois de ter sido observado pela Urologia, em Faro. Apresentava os mesmos sintomas que o tinham levado ao hospital no dia anterior, mas não conseguiu obter uma avaliação médica.

Os enfermeiros terão recomendado que fosse observado, mas o médico responsável pelo atendimento recusou fazê-lo. A equipa tentou então recorrer à Cirurgia Geral, sem sucesso. Perante as respostas negativas, os profissionais de enfermagem mantiveram o homem sob vigilância e prestaram-lhe cuidados básicos durante a tarde, a noite e a madrugada.

A situação agravou-se na manhã seguinte, quando foi emitida uma notificação de risco de óbito. Ainda assim, de acordo com o relato dos enfermeiros, não houve alterações na resposta clínica. Sem médico disponível e sem um chefe de equipa a quem recorrer para encontrar uma solução, o doente sofreu uma paragem cardiorrespiratória e acabou por morrer.

A equipa de enfermagem pede escusa de responsabilidade e denuncia aquilo que descreve como um cenário de desorganização no serviço de urgência médico-cirúrgica. Entre os problemas identificados estão a ausência frequente de um chefe de equipa e o afastamento prolongado do diretor do serviço, circunstâncias que, segundo os profissionais, terão contribuído para um vazio de responsabilidades e para recusas de observação por parte de médicos escalados.

A denúncia inclui ainda outros episódios. Dois doentes estarão internados nas urgências há mais de duas semanas, sem medicação prescrita ou encaminhamento para instituições sociais. É também referido o caso de um paciente transferido do Hospital de Santa Maria com indicação para ser operado, mas cuja intervenção terá sido recusada pela Cirurgia.

Entretanto, o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) do Algarve formalizou, esta quinta-feira, a exoneração do diretor do serviço de urgência. A decisão foi anunciada na sequência da divulgação de outro caso: a morte de um homem de 87 anos, que terá esperado 12 horas na sala de espera das urgências de Portimão sem receber assistência.

João Coucelo, o diretor exonerado, rejeita responsabilidades pelos problemas denunciados e afirma que esteve de licença parental durante os últimos meses. Num comunicado, recorda que, ao longo do cerca de ano e meio em que esteve à frente do serviço, conseguiu reduzir os tempos de espera.

O antigo responsável afirma, contudo, que foram tomadas decisões contrárias às orientações que transmitia e garante ter alertado a administração para as dificuldades existentes. Segundo explica, desde o início do ano que formalizou vários avisos, mas não obteve a resposta nem o apoio que considerava necessários.

A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) já abriu um processo de inquérito à morte do homem de 87 anos. O Ministério da Saúde pediu também esclarecimentos à ULS do Algarve sobre os restantes episódios denunciados pelos enfermeiros, mas diz que vai aguardar os resultados da análise.