quarta-feira, 22 jul. 2026

Um tsunami vai atingir o Mediterrâneo. A probabilidade é de 100% e Portugal está em risco

A UNESCO confirma que um tsunami com pelo menos um metro de altura vai atingir o Mediterrâneo nas próximas décadas. Portugal também está no mapa do risco e o IPMA sublinha que "não pode dizer que o risco é baixo".
Um tsunami vai atingir o Mediterrâneo. A probabilidade é de 100% e Portugal está em risco

Não é uma questão de se, mas de quando. Nas últimas semanas assistimos a vários lembretes de que a atividade sísmica do planeta não dorme e de que a ameaça de tsunamis é permanente. É neste contexto que vale a pena revisitar um alerta da UNESCO que, apesar de não ser novo, permanece por cumprir em muitos países costeiros, incluindo Portugal.

A agência das Nações Unidas declarou que as estatísticas mostram uma probabilidade de 100% de ocorrer um tsunami com pelo menos um metro de altura no Mar Mediterrâneo nos próximos 30 anos. O alerta foi lançado em 2022 e voltou a ganhar relevo à medida que os países costeiros intensificam os planos de prevenção.

Importa perceber o que esta percentagem significa na prática. Não significa que o fenómeno vá acontecer amanhã, mas confirma algo essencial: é inevitável. Um metro de altura não equivale necessariamente a uma catástrofe de grande escala, mas num mar densamente habitado e com infraestruturas críticas ao longo de toda a costa, o impacto pode ser considerável.

O Mediterrâneo é, depois do Pacífico, o segundo maior repositório de tsunamis históricos registados. Só na Costa Azul francesa foram documentados cerca de vinte incidentes desde o século XVI, com ondas que chegaram frequentemente a ultrapassar os dois metros de altura.

Por que razão o Mediterrâneo é tão vulnerável?

O Mediterrâneo é um mar fechado e de dimensões reduzidas, o que agrava a propagação das ondas. A UNESCO considera que o risco de tsunamis foi subestimado em algumas regiões do mundo, nomeadamente no Mediterrâneo, onde as comunidades não estão preparadas ou instruídas sobre como reagir a este tipo de desastre. O Mediterrâneo oriental, que inclui a Grécia, a Turquia e a Itália, é considerado a zona de maior risco, devido à intensa atividade tectónica da região.

O fator tempo é outro elemento crítico. Um deslizamento submarino ou um sismo no Mar da Ligúria poderia gerar ondas na Riviera Francesa em menos de dez minutos. Mesmo um sismo mais distante, como o de Boumerdès em 2003, ao largo da costa argelina, levou apenas cerca de 75 minutos a fazer sentir os seus efeitos em França.

E Portugal?

Embora virado para o Atlântico, Portugal não está fora do radar. O especialista Rachid Omira, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, foi direto ao assumir que "não pode dizer que o risco de tsunami é baixo", distinguindo a perigosidade reduzida da zona tectónica do risco real a que a costa portuguesa continua exposta.

Estudos citados pelo IPMA indicam que existe uma probabilidade de 100% de as costas de Portugal continental, dos Açores e da Madeira serem afetadas por um tsunami com pelo menos um metro de altura num período de exposição de 500 anos. Portugal, Espanha e Marrocos poderão ainda enfrentar um tsunami com pelo menos cinco metros de altura no mesmo período, com uma probabilidade de 50%.

Modelos do IPMA apontam o Algarve como o ponto mais exposto: cidades como Portimão, Lagos ou Faro podem ser atingidas em 20 a 30 minutos em caso de sismo de grande magnitude no Atlântico. O historial do país fala por si. O terramoto de 1755 gerou um dos tsunamis mais destrutivos da história europeia, com ondas que varreram a Baixa Pombalina e devastaram o litoral algarvio.

Desde 2017, o Centro de Alerta de Tsunamis de Portugal, reconhecido pela UNESCO em 2019, integra a rede NEAM (Atlântico Nordeste, Mediterrâneo e Mares Conectados) e colabora com países como Espanha, França, Marrocos, Itália e Reino Unido. Para reforçar a deteção precoce, o IPMA está a instalar um cabo submarino com sensores sísmicos que ligará o continente à Madeira e aos Açores.

O que os países têm de fazer

Para responder à ameaça, a UNESCO criou o programa Tsunami Ready, uma iniciativa internacional de base comunitária que certifica localidades com capacidade real de resposta. Os países participantes têm de cumprir 12 indicadores, entre os quais:

  • Cartografar e sinalizar as zonas de risco

  • Aprovar mapas de evacuação de fácil leitura

  • Realizar pelo menos três ações de sensibilização por ano

  • Efetuar simulacros comunitários de dois em dois anos

  • Garantir mecanismos de alerta redundantes disponíveis 24 horas por dia

Portugal integra o Centro de Vigilância para Tsunamis da Europa e Noroeste Atlântico, a par de França, Itália, Grécia e Turquia, com centros nacionais de alerta acreditados pela UNESCO. Os avisos são acionados cerca de dez minutos após a deteção de um sismo e podem ser transmitidos por diferentes canais, incluindo colunas de som e aplicações de comunicação.