quarta-feira, 04 nov. 2026

Apagar o Natal institucional em prol da inclusão social? Ridícula contradição

Quando a obsessão pela neutralidade começa a ameaçar a identidade cultural, importa perguntar: estamos a construir uma sociedade mais inclusiva ou estamos simplesmente a aprender a apagar aquilo que incomoda alguns?

Há decisões que, pela sua aparente simplicidade, escondem questões muito mais profundas. A intenção de abolir ou descaracterizar as celebrações institucionais do Natal, alegadamente em nome da inclusão social, é uma delas.

Estamos perante mais um daqueles fenómenos da modernidade em que uma ideia nobre, a inclusão, parece estar a ser utilizada para justificar decisões que, paradoxalmente, podem produzir exatamente o contrário daquilo que anunciam: exclusão, apagamento cultural e desvalorização das tradições.

A pergunta impõe-se: desde quando é que incluir significa retirar? Desde quando é que respeitar a diversidade exige apagar a identidade de uma comunidade?

Parece que entrámos numa época em que qualquer tradição, símbolo ou manifestação cultural pode tornar-se suspeita, desde que não seja universalmente partilhada. Em vez de aprendermos a conviver com as diferenças, parece que estamos a desenvolver uma estranha tendência para eliminar tudo aquilo que possa, eventualmente, não agradar a todos.

E o Natal tornou-se um dos alvos desta nova sensibilidade institucional.

Mas que sociedade é esta que, em nome do respeito por quem não celebra o Natal, começa a questionar o direito de quem o celebra? Que conceito de inclusão é este que parece funcionar numa única direção? E, sobretudo, que instituições são estas que confundem a defesa da diversidade com a obrigação de abdicar das suas referências culturais?

Ninguém deve ser discriminado por professar outra religião, por não ter religião ou por não atribuir qualquer significado especial a esta época. A liberdade religiosa e de consciência são direitos fundamentais e devem ser respeitados em qualquer organização, pública ou privada.

Mas há uma diferença enorme entre não impor uma celebração e impedir que ela exista.

Uma coisa é garantir que todos têm liberdade para participar ou não participar. Outra, completamente diferente, é eliminar uma tradição porque se considera que a sua existência pode não representar todos.

Se seguirmos esta lógica até às últimas consequências, onde iremos parar?

Deveremos abolir todas as manifestações culturais que não sejam partilhadas por toda a população? Deveremos deixar de assinalar datas históricas porque nem todos lhes atribuem o mesmo significado? Deveremos retirar dos espaços públicos todas as referências culturais que não representem integralmente cada indivíduo?

Se a resposta for sim, então não estamos a promover diversidade. Estamos a caminhar para uma sociedade artificialmente neutralizada, sem memória, sem referências e sem capacidade de reconhecer a sua própria história.

A diversidade não se constrói pela eliminação das diferenças. Constrói-se precisamente pela sua coexistência.

Há uma tentativa recorrente de reduzir o Natal à sua dimensão religiosa, como se a sua presença numa instituição representasse necessariamente uma imposição de fé.

É uma visão redutora.

O Natal faz parte da história, da cultura e da identidade de muitos povos. É uma tradição profundamente enraizada na sociedade portuguesa e europeia. Para milhões de pessoas, representa a família, a solidariedade, a generosidade, a partilha, a memória dos que já partiram e o reencontro com aqueles que estão longe.

Para outros, é simplesmente uma época de convívio, de aproximação humana e de celebração de valores que não pertencem, exclusivamente, a qualquer religião.

Há pessoas que não frequentam igrejas, que não são praticantes e até que não acreditam em Deus, mas que continuam a viver o Natal como uma tradição familiar e cultural.

Será que também lhes vamos explicar que devem abandonar essa tradição para não comprometerem a inclusão?

Uma instituição que organiza um almoço de Natal, uma confraternização entre trabalhadores ou uma iniciativa solidária não está necessariamente a promover uma doutrina religiosa. Está, muitas vezes, a proporcionar um momento de humanidade num contexto profissional onde, durante o resto do ano, predominam responsabilidades, hierarquias, metas e exigências.

E isso não deveria ser visto como um problema. Deveria ser valorizado.

Defendemos, e bem, que todas as culturas devem ser respeitadas. Consideramos essencial que as instituições sejam espaços onde pessoas de diferentes origens, convicções e crenças possam conviver em igualdade.

Mas será que esse respeito deve ser conseguido através da retirada das manifestações culturais maioritárias?

Será que a inclusão só é legítima quando obriga a maioria a recuar?

Se uma instituição assinalar uma tradição de outra comunidade, devemos aplaudir a iniciativa como um sinal de diversidade. Mas, quando chega o Natal, devemos começar a discutir se a sua celebração poderá ofender alguém?

Não faz sentido.

O respeito pelas minorias não exige a desvalorização das maiorias. A proteção da diversidade não pressupõe a destruição das tradições. E a neutralidade institucional não significa que uma organização tenha de viver numa espécie de vazio cultural.

O verdadeiro teste à tolerância não é saber se conseguimos eliminar aquilo de que discordamos. É saber se conseguimos conviver com aquilo que não partilhamos.

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não pede às pessoas que escondam as suas tradições. Pede-lhes que respeitem as tradições dos outros.

Também importa questionar o papel das empresas e das instituições nesta matéria.

Uma organização deve ser capaz de criar ambientes de trabalho respeitadores, onde ninguém seja discriminado em função da sua religião, cultura ou ausência de crença.

Mas não deve transformar essa responsabilidade numa corrida à neutralização de todas as referências culturais.

Uma festa de Natal não tem de ser obrigatória. Um trabalhador que não queira participar deve ter essa liberdade. Mas os trabalhadores que desejam celebrar também devem poder fazê-lo sem que a sua tradição seja tratada como uma inconveniência.

Há soluções perfeitamente razoáveis: organizar momentos de convívio voluntários, privilegiar a dimensão solidária e humana da celebração, respeitar quem não participa e, simultaneamente, acolher outras manifestações culturais e religiosas.

O que não é razoável é escolher a solução mais fácil: eliminar tudo e chamar-lhe inclusão.

É preciso dizê-lo sem receio: uma instituição que tem medo de celebrar uma tradição cultural profundamente enraizada na sociedade onde está inserida não está necessariamente a ser mais inclusiva. Pode simplesmente estar a revelar uma enorme incapacidade de gerir a diversidade.

A inclusão é um princípio demasiado importante para ser banalizado ou utilizado como justificação automática para qualquer decisão.

Quando uma causa justa deixa de admitir discussão, reflexão ou contraditório, corre o risco de se transformar numa imposição.

E é precisamente isso que devemos evitar.

Não podemos aceitar que a preocupação legítima de não ferir suscetibilidades se transforme numa obrigação permanente de eliminar referências, tradições ou costumes.

A liberdade não consiste em nunca sermos confrontados com aquilo em que não acreditamos. Consiste em podermos viver as nossas convicções sem sermos obrigados a aceitar as dos outros.

Quem não celebra o Natal não tem de o fazer. Quem não acredita no seu significado religioso não tem de partilhar essa dimensão. Quem prefere não participar numa confraternização deve ser respeitado.

Mas ninguém deveria ser levado a sentir que celebrar o Natal é um comportamento socialmente inconveniente, culturalmente ultrapassado ou institucionalmente inadequado.

Não podemos confundir respeito com submissão a uma sensibilidade única.

E muito menos podemos transformar a inclusão numa ferramenta de censura das tradições.

Porque existe uma diferença entre construir uma sociedade inclusiva e tentar construir uma sociedade onde ninguém possa sentir qualquer desconforto perante as manifestações culturais dos outros.

A primeira é uma ambição democrática e saudável. A segunda é uma impossibilidade.

Numa sociedade plural, haverá sempre tradições, símbolos, celebrações e convicções que não serão partilhados por todos. E ainda bem. Essa é precisamente a riqueza da diversidade humana.

O que devemos exigir às instituições não é que eliminem essas diferenças, mas que garantam que ninguém é discriminado por causa delas.

Não é necessário abolir o Natal para acolher outras culturas. Não é necessário retirar símbolos, palavras ou conceitos para demonstrar respeito. Não é necessário silenciar uma tradição para dar voz a outras.

Podemos celebrar o Natal e respeitar o Ramadão. Podemos reconhecer a Páscoa e acolher outras festividades. Podemos preservar as nossas raízes e aprender com as tradições dos outros.

Uma coisa não tem de anular a outra.

Aliás, se não formos capazes de conviver com esta realidade, talvez devêssemos questionar a qualidade da inclusão que estamos a construir.

O Natal não precisa de ser imposto, mas também não precisa de pedir desculpa por existir.

As nossas tradições não são um obstáculo à diversidade. Fazem parte da diversidade cultural que devemos preservar.

A inclusão deve acrescentar, nunca retirar. Deve aproximar, nunca dividir. Deve abrir portas, nunca fechar as que já estavam abertas.

E, sobretudo, deve ser coerente.

Porque uma sociedade que, para não excluir ninguém, decide apagar as suas próprias tradições está a confundir igualdade com uniformidade e respeito com silêncio.

Não quero um Natal imposto a ninguém. Mas também não aceito um Natal proibido, escondido ou eliminado para satisfazer uma interpretação distorcida da inclusão.

Quero instituições onde todos tenham lugar, onde ninguém seja obrigado a celebrar aquilo em que não acredita e onde ninguém tenha de abdicar daquilo em que acredita para ser aceite.

Quero diversidade sem complexos, respeito sem hipocrisia e liberdade sem dois pesos e duas medidas.

E deixo uma última pergunta a quem defende a abolição das celebrações institucionais do Natal em nome da inclusão:

Se a vossa ideia de inclusão exige que alguém deixe de celebrar para que outro se sinta respeitado, não estarão, afinal, a fazer exatamente aquilo que dizem combater: excluir?

Porque o verdadeiro espírito de uma sociedade plural não está em apagar as diferenças para que todos pareçam iguais.

Está em permitir que continuem a ser diferentes, sem que ninguém tenha de pedir licença para existir.

O Natal não é o problema. O problema é uma sociedade que começa a ter vergonha das suas próprias tradições e que, em nome da tolerância, parece estar a esquecer-se de tolerar.

Escritora, Docente e Educadora Social