sexta-feira, 06 nov. 2026

Habitação em Portugal: por que não basta construir mais…

O crédito fácil não deve substituir as políticas de habitação. A redução, em 2026, do limite recomendado para a taxa de esforço foi prudente, mas perde eficácia quando outras medidas dispensam poupança inicial ou prolongam maturidades.

Nos últimos dez anos os preços da habitação praticamente triplicaram em Portugal, subindo muito mais do que na generalidade dos países da União Europeia. A Comissão Europeia estima que, já em 2024, os preços refletiam uma sobrevalorização média de 35%. A situação agravou-se, entretanto, com os riscos que daí decorrem para a estabilidade financeira e para as famílias. A subida abrupta dos preços não resultou apenas de falta de casas. Foi alimentada por anos de juros excecionalmente baixos, crédito abundante, empréstimos longos com taxas variáveis e muito baixas, reduzidos requisitos de capital próprio e benefícios à aquisição. As facilidades geraram as dificuldades.

A estes fatores, juntaram-se a concentração da procura no Litoral, o licenciamento moroso e complexo, os custos de construção e as distorções provocadas pelos sistemas de mediação e avaliação. Também os apoios à compra – como a garantia pública que permite aos jovens financiar até 100% do preço – aumentam a procura, sem criar oferta, e contribuem para uma pressão adicional sobre os preços.

Construir mais não pode ser a principal resposta

A solução mais aventada tem sido a do aumento drástico da construção. Essa solução não é realista nem desejável. Aumentar a oferta é necessário, mas não significa construção massiva e indiferenciada, sobretudo em Lisboa e no Porto. Esse tipo de resposta ignora a natureza do problema, a localização e o estado do parque existente, os incentivos à procura e à oferta, os custos urbanos e ambientais e o tempo necessário para transformar projetos em habitações acessíveis.

Construir pode ser necessário, mas não é uma solução automática, nem única. Em Lisboa e no Porto, o solo é escasso e caro, as infraestruturas estão pressionadas e a promoção privada tende para os segmentos mais rentáveis, não para as famílias com maiores dificuldades. Uma vaga de construção sem critério pode agravar congestionamentos, consumir território, exigir investimento público elevado e continuar a produzir habitação inacessível. Reforçaria ainda a concentração de população, emprego e serviços nas duas áreas metropolitanas, que é uma causa estrutural do problema.

Reabilitar e reconverter

Antes de expandir a mancha urbana, é indispensável utilizar melhor o património existente. Há imóveis degradados, devolutos ou subutilizados, incluindo património do Estado, da Segurança Social e das autarquias. A prioridade deve ser identificá-los, reabilitá-los e colocá-los no arrendamento, com contratos estáveis e preços compatíveis com os rendimentos.

Muitos proprietários não dispõem dos meios necessários para recuperar imóveis degradados. O Estado e as autarquias deveriam comparticipar essas despesas, prevendo que uma parte do apoio fosse recuperada através de uma participação moderada e temporária nas rendas futuras. Cooperativas, municípios e investidores privados podem igualmente desenvolver projetos de habitação acessível, mediante parcerias com objetivos, critérios de acesso e contrapartidas transparentes.

É também possível reconverter escritórios e serviços em habitação, quando as condições técnicas e urbanísticas o permitam. Muitos serviços, incluindo os do Estado, não precisam de ocupar áreas centrais de elevado valor. A deslocalização, acompanhada por bons transportes e a reconversão dos imóveis libertados, aumenta a oferta residencial sem consumir solo. O mesmo princípio recomenda a regulação municipal do alojamento local: restritiva onde a concentração retire casas ao uso permanente, mais aberta onde esse efeito não exista, garantindo também o combate à informalidade e à evasão fiscal. Para decidir com rigor, é indispensável dispor de informação credível sobre o impacto efetivo desta atividade na oferta e nos preços da habitação.

Recuperar a confiança no arrendamento

O arrendamento de médio e longo prazo deve ser uma componente central da política de habitação. Alterações frequentes das regras, congelamentos e transferência para os senhorios de responsabilidades sociais que cabem ao Estado contribuíram para reduzir a confiança e a oferta.

As normas devem ser previsíveis e estáveis, os incentivos fiscais duradouros, a resolução de incumprimentos rápida e os apoios públicos aos inquilinos vulneráveis justos. O Estado deve proteger quem não consegue pagar uma renda de mercado, mas não impor esse custo aos proprietários.

A fiscalidade deve favorecer a entrada de casas no mercado de arrendamento estável. Um regime previsível, com incentivos proporcionais à duração dos contratos, torna o arrendamento de longo prazo mais atrativo. Em sentido inverso, é preciso remover os benefícios que favorecem a valorização especulativa ou a retenção de imóveis sem utilização habitacional com o objetivo de venda a prazo.

Conhecer a dimensão e a geografia das necessidades

Uma política eficaz exige que a Administração Pública assegure informação atualizada e rigorosa sobre os alojamentos disponíveis ou potencialmente utilizáveis, o número de agregados familiares e a distribuição territorial de ambos. O Censos de 2021 – último disponível – revelava um excedente significativo de alojamentos relativamente aos agregados familiares. Mesmo excluindo as segundas habitações, havia 4,9 milhões de alojamentos para 4,2 milhões de agregados, sendo a taxa média de ocupação (1,73 pessoas por alojamento) uma das mais baixas da UE.

Estes números têm, todavia, de ser qualificados. Por um lado, não há garantia de que a disponibilidade de alojamentos coincida geograficamente com as necessidades de mais habitação. Por outro lado, os números estão desatualizados, face aos movimentos de imigração e emigração entretanto ocorridos. Sem informação rigorosa e detalhada, não é possível definir os remédios para o problema habitacional e são precipitados os apelos a um surto massivo e indiscriminado de construção nova.

Coerência com a política económica e territorial

É preciso também não esquecer que Portugal precisa criticamente de investimento nos setores de bens e serviços transacionáveis, para aumentar a produtividade e atingir níveis de rendimento mais elevados. Ora, advogar ritmos de construção habitacional semelhantes aos da primeira década do milénio, a par dos anunciados grandes investimentos públicos concentrados na região de Lisboa, não tem em conta a restrição financeira com que qualquer país se confronta, nem o necessário equilíbrio na distribuição do investimento produtivo. Uma das condicionantes da produtividade e do crescimento é a composição do stock de capital: 87% diz respeito a Construções (a Habitação representa cerca de metade), enquanto as Máquinas e Equipamentos representam apenas 9%. Um surto massivo de novas construções – concentrado no tempo e no espaço – levaria a um ainda maior desequilíbrio na composição do stock de capital disponível, com reflexos negativos na produtividade e na desigualdade entre regiões. Sabemos os resultados de estratégia semelhante seguida antes de 2010, em que tudo parecia possível.

O crédito fácil não deve substituir as políticas de habitação. A redução, em 2026, do limite recomendado para a taxa de esforço foi prudente, mas perde eficácia quando outras medidas dispensam poupança inicial ou prolongam maturidades. A concessão de crédito deve avaliar a capacidade de pagamento em condições monetárias normais, privilegiar o regime de taxa fixa e limitar o endividamento excessivo. Facilitar o empréstimo não torna a casa mais barata; pode apenas alimentar a possibilidade de a adquirir a preços cada vez mais elevados.

Paralelamente, a política fiscal deveria incentivar a poupança dos jovens, com vista a constituir um capital próprio adequado. Isso seria preferível a outros benefícios fiscais dirigidos aos jovens.

A habitação também depende da política territorial. Melhores transportes metropolitanos reduzem o prémio associado à localização e alargam a área onde é possível viver. Serviços de saúde e educação, ligações digitais, emprego e incentivos à mobilidade podem tornar outras regiões alternativas reais às grandes cidades. A política fiscal deve incentivar fortemente a localização de pessoas e empresas de dimensão significativa nas áreas menos congestionadas. Descentralizar pessoas e atividades é uma política de habitação tão importante como construir.

Uma resposta global, realista e consistente

A política de habitação tem de ser norteada pela racionalidade e pelas leis da economia, que devem prevalecer sobre o combate partidário e a retórica política.

O problema habitacional não será resolvido por uma única medida, nem por uma corrida à construção nova. A resposta deve combinar reabilitação do parque existente, mobilização do património público, reconversão de edifícios, recuperação do arrendamento, licenciamento mais célere e uniforme, prudência na concessão de crédito, melhores transportes e desenvolvimento territorial.

A nova construção deve avançar onde exista uma necessidade demonstrada, com infraestruturas adequadas e uma orientação efetiva para custos comportáveis. Mas apresentá-la como solução dominante para Lisboa e Porto é insistir num modelo que acumulou procura, encareceu o solo e aprofundou desigualdades. O objetivo não pode ser erguer o maior número possível de edifícios; deve ser assegurar que o parque habitacional, novo e existente, serve melhor as pessoas, os seus rendimentos e a coesão do País.

Ex-ministro da Economia e Coordenador do Observatório de Políticas Económicas e Financeiras da SEDES