quinta-feira, 05 nov. 2026

O retrato fora do baralho

Por baixo daquela superfície, construída com óleo e pinceladas, há um ser que pensa e sente

Ao longo da sua vida, Rembrandt van Rijn (1606-1669) fez por junto cerca de 80 auto-retratos, entre pinturas, desenhos e gravuras.É difícil encontrar uma explicação convincente para um comportamento tão invulgar, mas provavelmente não terá sido por vaidade. Segundo o biógrafo Filippo Baldinucci, «o rosto feio e plebeu com que foi brindado era acompanhado por roupas sujas e desleixadas, uma vez que tinha o hábito, enquanto trabalhava, de limpar os pincéis a si próprio, e de fazer outras coisas de natureza semelhante».

Um rosto «feio», talvez, e «plebeu» (era filho de um moleiro) – mas que deu origem a algumas das mais belas e intensas pinturas que conhecemos. No irresistível Rembrandt Self-Portraits (Taschen), Volker Manuth e Marieke de Winkel avançam uma hipótese: ao representar-se a si próprio, o artista de Leiden estava a pôr em prática a recomendação de Karel van Mander, um teórico «que aconselhava os artistas a praticar antes de tudo o retrato de diferentes estados emocionais através do seu próprio rosto em frente ao espelho».

Os primeiros auto-retratos, de 1628, mostram-no atrevido e confiante, como convinha a um principiante que queria afirmar-se entre os seus pares. Vemo-lo com o cabelo comprido; com um ar espantado; sorridente; com metade do rosto na luz e outra metade na sombra; sereno; desgrenhado; agitado; façanhudo; altivo; composto; com os dentes à mostra; franzido – um leque de expressões que parece confirmar a hipótese dos autores do livro.

Mas aos poucos os auto-retratos vão-se afastando desse caráter de catálogo para ganharem em densidade. A pele vai perdendo a frescura, surgem as rugas inevitáveis debaixo dos olhos e as comissuras nos cantos da boca. O mais espantoso, porém, é por que artes mágicas Rembrandt consegue fazer com que debaixo daquela superfície, toda construída com óleo e pinceladas, exista um ser que pensa, respira e sente.

Certamente já foram feitos estudos que analisam estes auto-retratos em paralelo com os acontecimentos da vida do pintor. Em 1639 Rembrandt e a mulher, Saskia, mudam-se para um casarão numa rua elegante, onde viviam banqueiros e mercadores, em 1640 está provavelmente no auge da sua fama. Em 1642 Saskia morre e, uma década volvida, o famoso pintor está com dificuldades financeiras. Em 1656 declara insolvência. O inventário dos seus bens é um documento espantoso:elenca conchas, bustos de imperadores romanos, instrumentos musicais, obras de arte, têxteis de luxo, adereços exóticos, armas e armaduras, entre as quais um capacete de samurai.

Os últimos anos são duros, mas muito produtivos. O homem que nos olha destas páginas tem a pele cada vez mais amassada e um olhar com cada vez menos ilusões. Atingiu um domínio inultrapassável da sua arte, ao mesmo tempo que se percebe que no plano pessoal vive uma espécie de naufrágio, com a perda da casa e da coleção, primeiro, e da segunda mulher e do filho, depois, ambos vítimas da peste.

Existe no livro, porém, um retrato que destoa do conjunto. Trata-se de uma gravura de 1634 que mostra um homem com o cabelo solto, e um penacho no barrete. Os autores colocaram um ponto de interrogação a seguir à designação de auto-retrato, ou seja, têm dúvidas. Eu não. O nariz é mais fino e comprido, a própria estrutura do rosto parece diferente. Mas há outro aspeto ainda mais decisivo: é o único destes retratos em que o retratado não olha para nós. A conclusão parece clara: ao fazê-lo, o artista não estava a guiar-se pelo espelho. Seria um caso único de um auto-retrato feito enquanto o autor olhava para outro lado qualquer.