quinta-feira, 05 nov. 2026

Nuno Melo diz que Europa está a viver uma «guerra híbrida» e alerta para ameaças crescentes

O ministro da Defesa Nacional considera que Portugal e os restantes países europeus enfrentam uma guerra híbrida, com ameaças crescentes à segurança e à estabilidade das democracias. Nuno Melo falou ainda do ataque informático ao seu telemóvel, garantindo que ninguém está imune a este tipo de intrusões
Nuno Melo diz que Europa está a viver uma «guerra híbrida» e alerta para ameaças crescentes

O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, considera que Portugal está a viver uma situação de «guerra híbrida», marcada por ameaças crescentes que podem colocar em causa a segurança e a estabilidade das democracias europeias. O governante defendeu que a União Europeia (UE) e a NATO têm de estar preparadas para responder a este novo cenário, que vai muito além dos conflitos militares convencionais.

«Estamos, neste momento, a viver uma guerra híbrida com expressões crescentes, relativamente à qual a União Europeia e a NATO têm de estar preparadas nas respostas», afirmou Nuno Melo, citado pela Renascença, à margem de uma reunião com Kaja Kallas, alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.

O ministro alertou para os impactos deste tipo de ameaças, que podem atingir não apenas as estruturas militares, mas também o funcionamento das instituições e a estabilidade política dos países.

«Obviamente que a guerra híbrida traz múltiplos impactos até para as nossas democracias, num âmbito que é político e em causa está a estabilidade de regimes que nós queremos defender, não apenas pela via militar clássica, mas através de todos os meios que devem ser empenhados nessa defesa», sublinhou.

Nuno Melo defendeu ainda que Portugal deve fazer «tudo o que pode, no limite das capacidades», para se afirmar como um aliado credível e garantir a sua defesa.

As declarações surgem numa altura em que vários países europeus enfrentam uma nova vaga de ameaças de bomba e aterragens de emergência em aviões, com mais de dez voos obrigados a alterar as respetivas rotas esta quinta-feira.

Ataque informático ao telemóvel: «Ninguém está imune»

O ministro da Defesa abordou também, na Assembleia da República, o ataque informático de que foi alvo o seu telemóvel pessoal, considerando que este tipo de intrusões pode atingir qualquer pessoa, incluindo membros do Governo.

«O senhor deputado pode achar-se ungido por Deus e inatacável do ponto de vista dos equipamentos que usa, mas garanto que não é», respondeu Nuno Melo ao deputado do Chega Nuno Simões de Melo, durante a audição parlamentar sobre o Orçamento do Estado para 2027.

O governante explicou que já tinha sido alvo de ataques semelhantes quando era eurodeputado, apesar das medidas de segurança adotadas, e recordou que também houve casos envolvendo governantes de Espanha, dos Países Baixos e dos Estados Unidos.

Nuno Melo justificou a divulgação do episódio com uma intenção «pedagógica», alertando para os riscos associados à falta de atualização dos equipamentos informáticos.

«Há muitos portugueses que não sabem que no caso dos iPhones», se não forem instaladas as atualizações de software, os equipamentos podem ficar vulneráveis a ataques, explicou.

O ataque foi revelado pelo próprio na segunda-feira, em declarações à agência Lusa, em Atenas, na Grécia. Segundo o ministro, terceiros conseguiram utilizar o seu número de telefone para enviar mensagens em seu nome e desviar comunicações.

A intrusão terá explorado vulnerabilidades do equipamento, que já não permitia instalar atualizações de software. O esquema envolveu ainda a duplicação de contactos e o envio de mensagens através do WhatsApp, fazendo-se passar pelo governante.

A situação acabou por ser resolvida com a substituição do telemóvel. O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) confirmou entretanto que foi notificado do incidente.

Nuno Melo defende que «a democracia joga-se no Parlamento, não na rua»

Durante a audição parlamentar, o ministro da Defesa abordou também as manifestações relacionadas com a habitação, afirmando que «a democracia se joga aqui, não se joga na rua».

«Não existe liberdade e democracia sem segurança e defesa. Essa é uma evidência para quem como nós democratas percebe que a democracia se joga aqui, não se joga na rua», afirmou, no discurso de abertura.

Nuno Melo defendeu que o Governo tem promovido uma valorização das Forças Armadas e das forças de segurança, através da melhoria das carreiras, das condições contributivas e dos meios disponibilizados para o cumprimento das respetivas missões.

O governante garantiu que o investimento na modernização das infraestruturas, dos equipamentos e da capacidade operacional das Forças Armadas vai prosseguir em 2027.

Defesa terá despesa de quase 3,8 mil milhões de euros em 2027

A proposta de Orçamento do Estado para 2027 prevê uma despesa total consolidada de 3.798,8 milhões de euros para a Defesa Nacional, o que representa um crescimento de 1,4% face à estimativa para 2026.

Nuno Melo considerou que Portugal está a realizar «o maior investimento em democracia», defendendo que o atual contexto internacional exige um reforço das capacidades militares.

O ministro comparou o esforço atual com os investimentos realizados no período imediatamente posterior ao 25 de Abril, embora tenha ressalvado que, nessa altura, uma parte significativa da despesa correspondia à amortização de capacidades militares adquiridas durante o Estado Novo.

À margem da reunião com Kaja Kallas, o governante revelou ainda que foram discutidas a modernização dos três ramos das Forças Armadas — Marinha, Exército e Força Aérea — e as missões internacionais em que Portugal participa ao abrigo da NATO, da ONU e da União Europeia.

Questionado sobre as possíveis consequências de uma eventual derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares norte-americanas para os conflitos em que os Estados Unidos estão envolvidos, Nuno Melo preferiu destacar a importância da relação transatlântica.

«Tenho os Estados Unidos como um aliado fundamental de Portugal», afirmou, acrescentando que o país não deve confundir a aliança com as diferentes administrações norte-americanas.

«A estabilidade nos Estados Unidos reflete-se no resto do mundo», concluiu.