Já há muito, cantava Sérgio Godinho uma canção premonitória, que dizia: «Cuidado Casimiro / Cuidado com as imitações / Cuidado minha gente/ Cuidado justamente com as imitações / Lá na aldeia havia um homem que mandava / […] E prometeu que construía um hospital / Uma escola e prédios de habitação…».
Sérgio Godinho alertava-nos para os que usam o discurso político, não para resolver este tipo de problemas, mas para se servir deles.
Há mais de uma década que, nos artigos que escrevi - primeiro no jornal i e, depois, neste semanário - antecipei muito do que agora se está a passar.
Falei, por exemplo, das dificuldades de autonomização das novas gerações, resultantes da conjugação de salários muito baixos com preços exorbitantes da habitação.
As rendas elevadas não resultam, como muitos pretendem, apenas da situação atual dos preços dos combustíveis e da guerra entre a Rússia e a NATO na Ucrânia.
Ainda assim, enquanto para essa guerra se propõem gastos orçamentais de 3% do PIB, mantêm-se - quando não se reduzem - os valores destinados às políticas públicas de habitação social, saúde e educação.
Os jovens portugueses mais qualificados emigram, hoje, devido à quase impossibilidade de conciliar os baixos salários com as rendas praticadas no mercado da habitação em Portugal.
O problema reside, pois, na inconcebível gestão política que os governos têm feito deste e de outros problemas associados.
Isto, porque o valor das novas rendas não está, por exemplo, suficientemente condicionado por uma política fiscal mais rigorosa.
Não se cuida, igualmente, do elevado número de casas desocupadas, nem se propõe aumentar, de forma quantificada e calendarizada, a construção de casas do Estado e das autarquias para arrendar a preços acessíveis.
E não se diga, portanto, que o que acontece é o resultado de uma política estatizante.
Portugal é, porventura, um dos países da União Europeia que menos habitação social detém e constrói: apenas 1%, quando a média da OCDE é de 7% e a dos Países Baixos é de 34%.
O que se passa é precisamente o contrário: o Estado desinvestiu na criação de um parque habitacional público, suficientemente grande para responder à emergência das necessidades das novas gerações, e que, pela sua simples existência, poderia levar à diminuição dos preços no mercado privado de arrendamento.
Não se trata aqui de promover uma guerra entre uma alegada política estatizante e uma política liberal, como os nossos jovens liberais, no plano da sua imparável doutrinação mediática, querem fazer crer.
O que se constata, precisamente, é que foi a introdução acrítica de políticas ultraliberais na gestão do mercado de habitação que levou, há já bastante tempo, a uma dessincronização assumida entre a realidade económica do país e as necessidades do povo português.
O resultado está à vista, e o mais recente projeto legislativo sobre a matéria só agravará o problema, pelo menos para as famílias economicamente mais vulneráveis e necessitadas de casa.
De caminho, ficam esquecidos os direitos fundamentais que a Constituição consagra nesta matéria e cujo respeito deveria, desde logo, ter invertido as prioridades políticas e orçamentais que todos os governos seguiram.
As recentes e grandiosas manifestações em torno do problema da habitação revelam que, entretanto, os cidadãos começam, por fim, a contestar a deriva liberal que tomou conta do pensamento político dos que nos governam.