segunda-feira, 02 nov. 2026

Não há amor como o primeiro

José Gil defende que a violência em política pertence à constituição ontológica da extrema-direita e só da extrema-direita. Que importam os factos? Que importam a teoria e a prática revolucionárias?

O timing é por vezes ingrato. No diário Público do passado dia 17 de outubro, José Gil, que merece a nossa admiração como um dos mais importantes pensadores com intervenção pública no país, alertava contra a liquidação criminosa em curso das liberdades por parte do neoliberalismo. 

Para além de uma referência isolada aos gulags, que aparece no seu artigo como um ponto do avesso perdido num tecido de padrão e cor muito diferentes, defende José Gil que a violência em política pertence à constituição ontológica da extrema-direita e só da extrema-direita. A mais ninguém. Toda a violência com outra orientação política não é mais do que o despertar de uma ‘energia adormecida’ nos ‘corpos atingidos’ pela violência única da extrema-direita. 

José Gil, com provas dadas como filósofo de primeira água, em política pretende apenas conhecer os dois lados de uma alternativa: de um lado a ‘tolerância’, a ‘argumentação’, o ‘diálogo’ e o ‘respeito’ pelos adversários; do outro, a violência da extrema-direita, exemplificada, entre outros, por Meloni ou Milei, que abrem caminho aos ‘futuros fascismos’. Mais uma vez, confirma-se que a boa filosofia não conduz à boa política. Pelo contrário.

Se o timing é muitas vezes ingrato, o tempo gosta de troçar das construções metafísicas tão distantes da realidade como esta, de que a violência é pertença exclusiva da extrema-direita. 

Assim, no mesmíssimo dia em que Gil publica o seu libelo contra o neoliberalismo, em França militantes dos mais diversos sabores de extrema-esquerda, anarquistas, vândalos, ativistas profissionais da destruição, criminosos de delito comum, islamistas, islâmicos aparentemente inorgânicos, adolescentes mimados, em suma, toda a cultura da pulsão de morte da democracia europeia, com o apoio da França Insubmissa de Mélenchon e outros revolucionários de variada penugem, saqueavam, incendiavam câmaras municipais e outros edifícios públicos, e atacavam barbaramente quem quer que se lhes atravessasse no caminho.

Que importam os factos? Nada disto existe ou é relevante. É apenas a ‘energia’ desperta de ‘corpos atingidos’ pela extrema-direita. Que importam a teoria e a prática revolucionárias? Que importa o Terror de Robespierre, a justiça popular, os massacres da Vendeia ou a Ditadura do Proletariado? Que Benjamin advogue a transcendente violência divina da revolução? Que o Che pregue o ódio aos inimigos como a forma revolucionária do amor? 

O fascínio pela violência, e a ostentação do mal existem hoje, de facto, na direita radical, projetadas em figuras como Trump, universalmente reconhecidas como patéticas e senis. Mas existem em muito maior grau, universalmente reconhecidas como virtuosas e beneméritas, entre os omnipresentes defensores da Gaza do Hamas que, ainda mais do que qualquer extrema-direita alguma vez o fez, escancara orgulhoso nas redes sociais os seus inomináveis crimes. Parece estranho que o fascínio pela violência revolucionária e islamista, que hoje supura, por exemplo, o antissemitismo como imperativo moral, escape à perceção sempre tão aguda dos intelectuais de esquerda acerca do poder e das suas patologias. Como se explica?

As e os intelectuais de esquerda, soixante-huitards e herdeiros, após abrirem falência ideológica, decidiram assentar, e hoje juram-se recauchutados na democracia formal burguesa que antes tanto desprezaram. Porém, como diz Deleuze, toda a nostalgia é erótica. Ou seja, não há amor como o primeiro. E basta que a violência revolucionária, por mais envelhecida e cheia de rugas que esteja, se lhes atravesse à frente para cegarem de nostalgia. Por mais que jurem pela respeitabilidade burguesa do amor tardio pelo diálogo e a tolerância, não abandonarão o fascínio pelo primeiro amor, a Revolução, cuja violência jamais aceitarão abjurar. Por mais que cheguem até mesmo a condenar os excessos em Paris, Milão ou Barcelona, os seus olhos brilham nos estúdios de tv com as cenas de violência anticapitalista, a imaginarem-se também a passar uma noite de paixão escaldante com o primeiro amor numa tenda no Rossio.

De facto, são cúmplices da possível ascensão ao poder de Marine Le Pen, com as desgraças históricas que daí previsivelmente se seguirão.

Professor Universitário na Universidade de Coimbra