quinta-feira, 14 mai. 2026

“O meu telemóvel ouviu isto?”. Perceba porque é que os seus dispositivos parecem ouvir as suas conversas

Já lhe aconteceu falar sobre um produto e, pouco depois, vê-lo aparecer em anúncios no telemóvel? Essa sensação de que o dispositivo “está a ouvir” as conversas é cada vez mais comum: e há uma explicação.
“O meu telemóvel ouviu isto?”. Perceba porque é que os seus dispositivos parecem ouvir as suas conversas

Parece cada vez mais normal dizer "de certeza que o meu telemóvel ouviu isto". Estamos a falar com amigos ou familiares e o próximo conteúdo que nos aparece no algoritmo é exatamente sobre o que surgiu na conversa. Mas será possível isso estar mesmo a acontecer debaixo dos nossos olhos?

A resposta não é um não claro. Segundo Ari Paparo, especialista na indústria publicitária, essa é uma das questões que lhe é mais feita. "A minha família acha toda que é verdade", afirma, em declarações à CBS News.

"Ouvir todas as conversas ao redor do mundo, intrepretá-las, procurar certas palavras e depois associá-las aos anúncios é impossível", garante.

Então o que é que acontece quando temos esta sensação?

Há de facto uma associação entre os anúncios que lhe aparecem e os seus gostos: a otimização é o primeiro objetivo dos anunciantes. No entanto, não é preciso ouvir as suas conversas para isso ser feito. "Eles podem inferir ou deduzir coisas sobre si, como onde mora, a sua idade e provavelmente o que lhe interessa, com base nos sites que visitou ou nas aplicações que já usou. E essa combinação toda pode ser bem precisa", explica Paparo.

Além disto, sabia que usar a mesma internet que outras pessoas pode fazer com que lhe apareça aquilo que outros já pesquisaram (e que talvez tenham comentado consigo)?

A lógica é simples: imagine que um familiar que mora consigo lhe disse que precisavam de comprar um kit de ferramentas para casa. E de repente, aparece-lhe um anúncio precisamente de um kit de ferramentas. Se aquela pessoa pesquisar primeiro na internet pelo kit, o anunciante e algoritmo não consegue distinguir entre si e a outra pessoa, uma vez que estão a usar a mesma rede, na mesma casa. "Isso acontece muito", afirma o especialista.

No entanto, há sim uma forma "audível" de partilha de dados

Chama-se "rastreamento cruzado ultrassónico de dispositivos" e é uma estratégia de marketing usada para definir o perfil de cada utilizador através das aplicações instaladas nos seus dispositivos. No fundo, é mesmo como se estas "ouvissem" o ruído à volta para recolher informação sobre preferências. "Estes dados são depois partilhados com outros dispositivos", explica Adrianus Warmenhoven, consultor de segurança cibernética da NordVPN.

De acordo com um estudo realizado pela multinacional, os dispositivos onde isso mais se verifica é nos smartphones.

Já lhe aconteceu uma aplicação não precisar do microfone, mas pedir permissão na mesma? Provavelmente é para este objetivo. Através de sinalizadores de áudio incorporados em frequências acima do nível ouvido por humanos nos dispositivos, o rastreamento acontece.

O exemplo que a especialista dá elucida-nos do que acontece na prática: "Imagine que está a ver televisão quando aparece um anúncio de uma pasta de dentes. Enquanto o anúncio passa, o microfone do seu telemóvel ouve os sinalizadores de áudio (se tiver permissão). Você agarra no telemóvel, vai às redes sociais, e vê o mesmo anúncio que acabou de ver na televisão. Coincidência? Não, apenas um marketing elaborado e altamente avançado".

“Embora seja impossível impedir que os sinalizadores ultrassónicos funcionem, pode reduzir-se a hipótese de o seu smartphone os ouvir simplesmente restringindo as permissões desnecessárias que concedeu às aplicações no seu dispositivo", afirma Warmenhoven.

Os especialistas alertam, no entanto, que há formas de minimizar a informação que os anunciantes sabem sobre si.

A primeira dica da Agência de Cibersegurança dos EUA consiste em desativar o ID dos anúncios dos seus dispositivos. Desta forma, a partilha de informações associadas a IDs de anúncios e a outros dados de rastreamento vai estar restrita.

Além disso, negue às aplicações o acesso a categorias de dados que não são necessários para o bom funcionamento das mesmas: por exemplo, se não fizer a diferença a partilha de localização numa aplicação, não a ative.

Pode ainda ajustar as configurações do seu navegador para melhor privacidade e segurança. Ari Paparo alerta que diferentes navegadores têm diferentes exigências de dados. "O navegador Safari não permite muito disso. Os anunciantes não são grandes fãs da Apple e do Safari", refere.

A acrescentar a tudo isso, lembre-se: é sempre possível pedir que removam os seus dados (e as empresas são legalmente obrigadas a cumpri-lo). Registos como endereços podem ser removidos do acesso online através de solicitações à autoridade competente.