Como avalia a atividade turística em Portugal?
Há quem aponte para um abrandamento do crescimento, mas tudo indica que poderemos fechar o ano com novos recordes. Os números que hoje temos registados traduzem um crescimento relativamente a 2025, sendo certo que 2025 tinha sido o melhor ano de sempre. Se os dados se mantiverem e se as nossas projeções se verificarem, 2026 será mais um ano recorde, quer ao nível das dormidas, quer ao nível do número de turistas e quer ao nível das receitas. Quanto ao valor das receitas, que é um dos grandes indicadores de medida do sucesso do setor, já tínhamos crescido 5% no ano passado face a 2024 e este ano estamos numa trajetória que nos vai situar provavelmente entre os 3,5% e os 4% no final do ano. Este crescimento das receitas ocorre sobre um volume que, em 2025, foi de 29 mil milhões de euros.
Daí o peso que o setor tem na economia.
As receitas do turismo são o acréscimo de poder de compra que entra em Portugal por força da atividade turística, não são proveitos do turismo. Só para ter uma ideia, os proveitos da hotelaria representam entre 20% a 25% do total. As receitas do turismo são aquilo que os turistas gastam em qualquer atividade, seja na hotelaria, na restauração, no comércio, no transporte, no supermercado ou nos museus. Quando as receitas do turismo entram em Portugal beneficiam todo o país. O setor tem esta capacidade de alavancar um conjunto de atividades económicas e de ser um fator de desenvolvimento económico e social do país. Aliás, a grande ambição, que a própria Estratégia de Turismo 2035 irá consagrar, é esta visão de que o turismo deve ser um motor de desenvolvimento económico do país, um contribuinte líquido para que haja um crescimento inteligente da economia portuguesa, que seja um motor da coesão económica e territorial do país, que seja um fator de projeção de Portugal no mundo, assente numa forte componente de competitividade internacional. Ainda há bem pouco tempo, o setor do turismo recebeu uma boa notícia que foi o de termos subido um lugar no ranking da competitividade internacional. Hoje, o turismo é o 11.º destino turístico mais competitivo do mundo. Um dos grandes objetivos definidos pelo Governo e que também está na Estratégia de Turismo 2035 é que Portugal possa ascender ao top 10 do ranking mundial.
O que isso significa?
Como costuma dizer o secretário de Estado de Turismo, neste momento, já estamos na equipa titular, onde estão países como os Estados Unidos, Japão, Austrália, Alemanha, França, Espanha, Itália. Isto é, obviamente, um orgulho para todos os que trabalham no setor, mas é, sobretudo, um motivo de orgulho para Portugal e para os portugueses. Agora, temos é de definir aquilo que são os padrões de sucesso do setor do turismo que não estão tão assentes no número de dormidas e de turistas.
Estão assentes em valor?
Na criação de valor, sobretudo, em detrimento da dimensão do volume. É bom dar nota ao seguinte: não há turismo sem turistas, mas o que temos de conseguir é um crescimento em valor acrescentado. Isso significa que, enquanto país, temos de conseguir converter cada vez melhor aquilo que são os fluxos turísticos em valor e em receita.
É uma das apostas do setor. Isto tem sido conseguido?
Tem sido conseguido gradualmente, mas temos de acentuar aquilo que é o valor gerado por cada visita que nos fazem, porque é uma das exportações que fazemos a partir de Portugal e é muito importante até para o equilíbrio das contas públicas. Por outro lado, é um tema que também ao nível de produtividade das empresas e aí estamos a entrar na dimensão concreta da criação de riqueza. Obviamente que temos sempre um cenário de crescimento moderado do ponto de vista de turistas e de dormidas.
Não pode crescer ad aeternum.
Quando estamos a falar em receitas e em valor, esse crescimento há de ser constante e queremos que acelere cada vez mais. A capacidade de criar valor a partir dos fluxos turísticos é algo que depende também da nossa capacidade de construirmos um país que seja melhor. Se tivermos melhor mobilidade, um território mais qualificado e infraestruturado, se tivermos empresas cada vez mais fortes, com maior escala e se tivermos um território mais resistente, nomeadamente até ao nível das alterações climáticas, é possível converter os fluxos em receita e em valor e o crescimento que daqui pode acontecer é muitíssimo substancial. Vou dar um exemplo de contas muito simples: temos 30 milhões de pessoas que entram em Portugal por ano, se por cada entrada houver um gasto de 100 euros adicional ao que já acontece estamos a falar de um valor ao final do ano de três mil milhões de euros que é quase 1% do PIB nacional.
Isso implica mudar a atual oferta?
Quando digo que temos de contribuir para que Portugal possa converter melhor os fluxos turísticos em receita estou a falar de todos os setores de atividade. Estou a falar, por exemplo, da dimensão do comércio. Se tivermos um comércio mais preparado, mais focado e se tivermos a capacidade de incrementar e melhorar cada vez mais as competências de gestão das empresas então temos essa capacidade de conversão. E ao convertermos os fluxos turísticos em valor, estamos a acrescentar receita e ajudamos Portugal a crescer globalmente. Não é só o setor do turismo, é Portugal inteiro.
Em relação ao comércio, a própria Câmara de Lisboa já chamou a atenção que é necessário rever a oferta e que não faz sentido ter uma série de lojas a vender pins, ímanes, galos de Barcelos, etc.
Temos de continuar a fazer um esforço grande, no sentido de que o comércio possa cada vez mais modernizar-se, que as empresas sejam mais robustas e possam apresentar a quem visita Portugal uma proposta de valor cada vez mais autêntica e diferenciadora. É certo que isso também passa pela regeneração comercial dos centros históricos. Isso significa que não temos aproveitado? Obviamente que temos. 30 mil milhões de euros de receitas turísticas por ano é muito significativo. Muitas vezes falamos deste número e parece que é coisa pequena. Não, é muito grande e representa muitas indústrias. Agora, temos de continuar a crescer e que o valor gerado seja cada vez maior. Isso implica também outras dimensões. Por um lado, evoluirmos na cadeia de valor, conseguirmos aumentar a qualidade da nossa proposta de valor que é o trajeto que temos vindo a fazer e vamos continuar a fazê-lo. E é continuar a fazer com que esse trajeto ocorra ao longo de todo o território. Temos de ter capacidade nos territórios de baixa densidade de criar condições, do ponto de vista infraestrutural e do ponto de vista de empresas para que esses territórios captem cada vez mais valor, porque só assim vamos conseguir criar mais empresas sustentáveis, robustas, criar mais emprego, melhor emprego, pagar melhor às pessoas e fazer um desenvolvimento económico e social do país de forma coesa.
E para não correr o risco de assistirmos a uma saturação em determinadas zonas?
O país é muito diverso relativamente à oferta e ao que pode oferecer. Esta diversidade é vista com apreço e com gosto por quem nos visita, porque permite conhecer várias realidades. Ao longo dos últimos dez anos, os territórios de baixa densidade cresceram, do ponto de vista de fluxo, o dobro do que cresceram os destinos do litoral. Ainda assim, grande parte do turismo acontece no litoral. Em 2025, 88% do turismo está fora dos territórios de baixa densidade e 12% está nos territórios de baixa densidade, o que significa que Portugal tem ainda muito para crescer nos territórios de baixa densidade. Essa é uma dimensão que estava pressuposta na estratégia anterior, mas vai estar com maior assertividade na Estratégia de Turismo de 2035 que enuncia claramente o turismo como um fator de desenvolvimento dos territórios de baixa densidade. No entanto, temos de criar melhor mobilidade, melhor conectividade, melhores infraestruturas, qualificar melhor, criar melhores condições para que as empresas se instalem, criem emprego e que criem propostas de valor diferenciadoras.
Na última entrevista disse que temos de ser líderes na defesa da autenticidade das cidades. Tem sido possível?
Não se trata de um equilíbrio. É uma aspiração. Há dimensões que são essenciais para que o turismo possa desenvolver uma proposta de valor que tenha cada vez maior qualidade e maior excelência. Uma das dimensões é a autenticidade e não há setor que defenda mais e que esteja tão dependente da autenticidade dos destinos das cidades e do território como o setor do turismo. Se queremos crescer em qualidade e sobretudo em valor acrescentado não há outra forma que não seja a defendermos a autenticidade. O reforço deste compromisso entre o turismo e os portugueses é uma matéria absolutamente fundamental. O turismo só é bom na exata medida em que for bom para as pessoas e o que nos interessa é que o turismo possa ser um motor que leve a que as pessoas vivam cada vez melhor.
Esse caminho será mais fácil à medida que o destino se vai tornando mais maduro?
Claro que agora temos uma preocupação cada vez maior do ponto de vista de gestão mais inteligente dos destinos, das cidades, dos mercados. Estamos numa posição que já nos permite olhar e planear de uma forma cada vez mais inteligente aquilo que é o desenvolvimento do setor. Há três dimensões que são críticas do ponto de vista do desenvolvimento do setor e têm a ver com o conhecimento, com a dimensão da tecnologia e da inteligência artificial e com a cooperação. Tudo isso vai dar-nos cada vez maior inteligência para gerir os territórios, assim como o tema da mobilidade, da conectividade, da resiliência dos territórios, da ação climática mas também uma gestão cada vez mais inteligente daquilo que é a nossa marca, a marca Portugal. Só assim é possível compreender melhor como é que os mercados, do ponto de vista de tendências vão evoluindo, onde faz sentido fazer investimento promocional, que tipo de investimento e qual o montante. Isto não se faz por decreto, implica sermos capazes, além de qualificar de forma contínua e permanente os profissionais do setor do turismo, mas também melhorar as competências de liderança das organizações e das empresas.
Como vê as acusações de que o turismo é um dos responsáveis pela crise da habitação?
O problema da habitação está claramente identificado e resulta de anos onde a construção de casas para habitação esteve claramente abaixo do que seria aceitável e exigível. Isso significa que, hoje temos um lote de fogos para habitação bastante inferior àquilo que deveríamos ter se tivéssemos mantido, durante muitos anos, uma construção ao nível médio da União Europeia. Só para ter uma ideia, a União Europeia construiu, em média, 43 fogos por mil habitantes e Portugal construiu 17 fogos por mil habitantes. Esta diferença, ao longo dos vários anos, provocou uma grande falha do ponto de vista da habitação que não resultou do turismo. O turismo contribuiu para valorizar e modernizar as cidades, para criar condições para que empresas que não tinham condições de desenvolver a sua atividade na cidade o fizessem, para que criassem emprego e para que os ordenados aumentassem. Quando o turismo valoriza a marca Portugal enquanto destino turístico não está a valorizar só o setor está a valorizar para Portugal. Agora, as cidades têm de evoluir, têm de crescer e têm de garantir que planeiam com muitos anos de antecedência, percebendo o que é que a cidade será daqui a 10, 20, 30 anos. Lisboa, hoje, não é igual à Lisboa de há 20 anos.
É fácil explicar aos portugueses que vão surgir 44 hotéis em Lisboa e 46 para o Porto quando há falta de casas?
Para já, são projetos em pipeline, não significa que sejam concretizados. Também é preciso ver que a dimensão de cada hotel em Portugal é claramente inferior à média da dimensão do que acontece na Europa. Se queremos continuar a ter um setor que traga valor para Portugal, que seja capaz de se reinventar, de aumentar a qualidade da sua proposta de valor tem de continuar a haver investimento. E a cidade tem de evoluir desta forma, por um lado, garantir que haja condições essenciais para que a habitação seja uma realidade e que vá ao encontro das legítimas expectativas de quem vive em Portugal, por outro lado, temos de continuar a garantir que Portugal tenha condições para continuar a crescer do ponto de vista económico.
Estes movimentos como as acampadas podem ter impacto do ponto de vista turístico?
Não penso que os turistas fiquem com má perceção sobre Portugal, antes pelo contrário. Quem nos visita tem claramente a noção que Portugal é um país hospitaleiro. Aliás, a hospitalidade é um dos nossos ativos centrais.
Em relação ao aeroporto, apesar de a Portela ser alvo de investimentos, o esgotamento de slots poderá impactar a atração de mais turistas?
Tivemos muitos anos sem saber a localização e a solução do novo aeroporto, a decisão foi tomada e, agora, há aqui um tempo de criação de condições para que essa solução se operacionalize. Neste contexto, vamos continuar a trabalhar com todos os aeroportos nacionais, seja no continente, seja nas regiões autónomas para que possamos incrementar a conectividade aérea principalmente com os mercados de maior valor acrescentado. No caso do aeroporto de Lisboa, é fazer o que está previsto. Por um lado, investimentos que permitam alargar a capacidade aeroportuária, permitindo que possa passar de 38 movimentos por hora para 40 numa 1.ª fase e para 42 numa 2.ª. Por outro, tornando cada vez mais eficiente o aeroporto e as suas infraestruturas. Aliás, está previsto no final de 2027, início de 2028 a criação de mais 10 mangas, o que irá permitir que o aeroporto possa respirar um pouco melhor, dadas as suas limitações. É claro que há outras medidas, como a substituição de aeronaves mais pequenas por maiores para que haja uma maior capacidade de transporte de passageiros e também aumentar a taxa de ocupação dos aviões. Há sempre capacidade de crescimento e o aeroporto de Lisboa, ano após ano, tem crescido em relação ao número de passageiros que recebe.
Como vê o desfecho em torno da privatização da TAP?
Estamos confiantes que este ganho de escala que a TAP vai ter, através da integração neste grande grupo, seja uma boa notícia para Portugal, seja uma boa notícia para o turismo e nos dê a capacidade de gerir, de forma cada vez mais inteligente, a conectividade aérea para Portugal.