EUA: Mudança de Maré

Após uma vitória em toda a linha em 2024, o Partido Republicano e o presidente Donald Trump sofreram um duro golpe nas eleições intercalares. Os democratas terão agora maioria nas duas câmaras do Congresso e os dois últimos anos da presidência Trump serão marcados pela complexidade de governar numa conjuntura deste tipo
EUA: Mudança de Maré

Sempre que se levantam suspeitas sobre o estado da democracia e da independência das instituições dos Estados Unidos, o sistema pensado pelos pais fundadores há 250 anos e explicado por Tocqueville há 191 dá um passo em frente e demostra-nos o contrário. Os resultados das eleições intercalares - nas quais o partido que não está no governo vence tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes - não são uma novidade, e a tendência deste tipo de eleições ao longo dos anos deixa claro que a intuição de James Madison, influenciado principalmente por Montesquieu, estava certa. A rivalidade entre os poderes - legislativo, executivo e judicial - será a principal responsável por manter os Estados Unidos afastados de qualquer ameaça a um regime orientado para a liberdade. E os eleitores americanos, mesmo admitindo que não tenham esta máxima em mente quando colocam o voto na urna, têm-na seguido.

Agora, é importante notar que estas eleições foram decididas maioritariamente por aspetos circunstanciais. A economia - como sempre - é um fator decisivo, e o descontentamento dos norte-americanos neste reduto tem-se feito notar. A política externa, principalmente quando os Estados Unidos estão a braços, desde o passado mês de fevereiro, numa guerra com o Irão cujas ramificações para a economia não são de somenos, também não é negligenciável. Mas independentemente do conjuntural, também o estrutural desempenhou um papel de relevo. De acordo com uma sondagem (a Voter Poll conduzida pela SSRS para a AP e outros grandes canais noticiosos dos Estados Unidos) realizada no dia das eleições, a maioria dos inquiridos (39%) colocou a economia como o fator com mais peso na sua decisão. E logo atrás, com 32%, vem o «estado da democracia», o que revela que, de facto, existe uma consciência mais ou menos generalizada de que é importante haver um equilíbrio de poder. A imigração, que tem sido um ponto favorável ao Presidente Donald Trump e ao Partido Republicano, continua a ter a sua relevância (14%), ainda que numa escala inferior quando comparada a eleições anteriores, a saúde menos (8%) e, por surpreendente que nos possa parecer - principalmente a nós, europeus -, a política externa ainda menos (4%), ainda que, como referido acima, as ramificações internas sejam cruciais.

Tensões à vista

Para Donald Trump, em particular, e para o Partido Republicano (GOP), no geral, os resultados revelam-se muito duros. Até porque Trump adotou uma estratégia pessoal, apelando aos eleitores em várias ocasiões para que supusessem que era o nome do Presidente que estava no boletim de voto. Vários analistas acreditam que foi precisamente por isto que a derrota foi tão contundente, mas o Presidente, naturalmente, vê a situação de outro ângulo. Numa publicação na rede social Truth Social, Donald Trump escreveu, pouco após serem conhecidos os resultados, o seguinte: «Eu não estava no boletim de voto e, se estivesse, teríamos ganho POR MAIORIA ESMAGADORA». Além disto, liderar um executivo com um legislativo do partido oposto não é tarefa fácil. Nunca foi. Mas será ainda mais difícil dada a hostilidade existente num ambiente político consideravelmente polarizado.

Ao seu estilo, Trump já vinha alertando que, em caso de derrota, iria fazer valer um dos poderes dos quais está revestido: o poder de veto. Chegou a dizer até que passaria a ser o «Mr. Veto». A confirmar-se, esta abordagem só poderia levar os Estados Unidos a um destino, o da paralisia governamental. Um braço de ferro entre o legislativo e o executivo que bloquearia o país pelo menos até às próximas eleições presidenciais, agendadas para 2028. Porém, após reconhecer a derrota pesada e, provavelmente, de dar conta dos resultados negativos que tal confronto traria para o país e até para o GOP nas próximas eleições, Trump já se mostrou mais aberto a um entendimento com o Partido Democrata. «Vamos trabalhar com os democratas», disse o Presidente ao The New York Times logo na terça-feira. «Provavelmente conseguiremos chegar a algum entendimento», concluiu. Ao Politico, nunca deixando de lado a utilização do poder de veto, o líder da Casa Branca confessou que, para o bem do país, não quer «estar simplesmente sentado durante dois anos a vetar tudo».

Até tu, Texas

Quando se pensa num ‘estado vermelho’, isto é, um estado profundamente republicano, é difícil não pensar no Texas. A sua maioria conservadora tem sido uma constante nas eleições norte-americanas, com Trump a vencer neste estado em 2024 com uma vantagem de cerca de 14 pontos percentuais sobre Kamala Harris. A última vitória azul neste estado do Sul do país tinha sido há trinta e dois anos, em 1994. A partir daí, o estado deu derrotas atrás de derrotas aos azuis. Este ano foi diferente. James Talarico bateu Ken Paxton na corrida ao Senado e Gina Hinojosa destronou o governador Greg Abbott. Para melhor compreender a importância destas duas eleições, note-se que o último senador democrata eleito pelo Texas havia sido Lloyd Bentsen em 1988 e o último governador deste partido foi Ann Richards, eleita em 1990 e destronada por George W. Bush em 1994. Resta saber se, em 2028 e pela primeira vez desde a eleição de 1976, o Partido Democrata consegue vencer a disputa neste estado numas eleições presidenciais.

Além do Texas, os Democratas ‘viraram’, nas eleições para o Senado, outros estados como o Iowa, o Kansas (onde venceram pela primeira vez em cerca de cem anos), o Ohio, o Maine, a Carolina do Norte e a Carolina do Sul. Quanto aos governadores, ‘viraram’, além do The Lone Star State, a Georgia, o Nevada, o Ohio e o Iowa. Assim, o Senado e a Câmara dos Representantes passarão a ter uma maioria democrata (54 assentos no Senado, o que representa um ganho de 7 mandatos, e 228 na Câmara dos Representantes, um ganho de 25 mandatos).

Para Henrique Burnay, especialista em assuntos europeus e senior partner da consultora Eupportunity, os resultados destas eleições deixam claro «quem perdeu», mas «não é possível dizer quem ganhou». «Quem perdeu foi Trump, o trumpismo e o partido MAGA», explica ao Nascer do SOL o analista, que assinala a «dimensão tsunâmica da derrota». E sugere que as eleições não se decidiram por uma causa só: «É claro que os eleitores sabiam, e mostraram que sabiam, que a culpa pela subida da inflação é de Trump e da guerra no Irão (afinal a política externa faz mexer as eleições por causa das consequências internas). A inflação está em alta e a causa é evidente, as tarifas também pesam na economia e afinal os eleitores são menos iliteratos economicamente do que se pensa». Mais, «o ICE a perseguir gente vagamente latina, imigrante ou não, ilegal ou não, penalizou o partido MAGA todo. Tal como dizerem-se católicos e andarem à bulha com o Papa». E é esta multiplicidade de fatores que, para Henrique Burnay, faz com que não seja possível identificar um vencedor: «Quase só os democratas que não podiam ganhar é que não ganharam. O que significa que não é evidente que o sucesso foi mais dos que concorreram à esquerda, dos progressistas, dos centristas, dos moderados, dos pragmáticos, dos candidatos mais novos. Todos tiveram sucesso». Isto significa que «os democratas têm um ano (depois já estaremos em modo pré-presidenciais) para mostrar que partido são, quem mais ordena no partido. E é a isso, não à noite de terça-feira, que os eleitores americanos irão responder».