Sem palavras de ordem e com velas: Mães pela Acampada organizam vigília em Lisboa e no Porto

O grupo escolheu o silêncio como forma de contestar as intervenções policiais contra os manifestantes pela habitação. A vigília começa este sábado às 19h00, nos Restauradores em Lisboa, e na Praça Dom João I, no Porto.
Sem palavras de ordem e com velas: Mães pela Acampada organizam vigília em Lisboa e no Porto

Sem palavras de ordem, sem bandeiras e com pequenas luzes nas mãos. É assim que as Mães pela Acampada querem marcar presença no centro de Lisboa este sábado, numa iniciativa que pretende contestar a atuação policial durante as operações de dispersão dos protestos pela habitação.

A vigília está marcada para as 19h00, na Praça dos Restauradores, e deverá terminar às 21h00, no Rossio. O grupo apela à participação de mães, pais, avós e outros cuidadores, defendendo que a presença coletiva pode ser uma forma de expressar oposição à violência sem recorrer a confrontos ou palavras de ordem.

A organização explica que a iniciativa nasce da vontade de responder ao "muito ruído" em torno dos acontecimentos recentes. O silêncio será apenas interrompido por algumas canções curtas interpretadas por um coro.

"Tem havido muito ruído e há coisas que as palavras não conseguem carregar. Somos mães, pais, avós, cuidadores. Vamos estar presentes, sem palavras de ordem e sem bandeiras, com uma luz na mão e o rosto virado para aquilo que nos preocupa. O silêncio é uma forma de falar", indicaram em comunicado citado pela agência Lusa.

O movimento também se irá concentrar no Porto, este sábado, na Praça Dom João I.

Uma vigília num momento de tensão no Rossio

A mobilização acontece numa altura em que a permanência da Acampada de Lisboa na praça está novamente em causa. Esta sexta-feira, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, determinou, através de um despacho, que a manifestação deverá deslocar-se para outro local, apontando como alternativas o Largo de São Domingos, o Martim Moniz ou a Praça dos Restauradores.

A decisão foi tomada depois de a PSP ter considerado incompatível a realização simultânea da acampada e do mercado de Natal no Rossio. A responsável pelo movimento, Renata Cambra, contestou a determinação e denunciou a presença da Polícia Municipal no local para retirar as tendas.

É neste contexto que a vigília ganha um significado adicional: além da contestação à atuação das forças de segurança, surge numa fase decisiva para o futuro do protesto que ocupa a praça.

O que está previsto para este sábado

A primeira concentração começa às 19h00, nos Restauradores, do lado virado para o Rossio. Às 19h30, os participantes deverão sentar-se no chão para um momento de silêncio, levando velas a pilhas, lanternas ou utilizando a luz dos telemóveis.

Pelas 20h30, o grupo desloca-se até ao Rossio, em silêncio. Dez minutos depois, está prevista a formação de um cordão humano em redor da praça, com os participantes voltados para a estrada. A ação termina às 21h00.

As cargas policiais que deram origem ao movimento

As Mães pela Acampada surgiram na sequência das intervenções policiais contra os protestos pela habitação. O grupo reúne sobretudo familiares de pessoas envolvidas nas mobilizações e defende o direito à manifestação pacífica.

As acampadas começaram no Porto, a 10 de outubro, e chegaram posteriormente a Lisboa e a outras cidades. Na madrugada de 1 de novembro, operações da PSP no Rossio e na Praça D. João I, no Porto, terminaram com confrontos, detenções e feridos entre manifestantes e agentes policiais.

A polícia justificou a intervenção com a necessidade de fazer cumprir a lei e referiu a resistência de alguns participantes e o arremesso de objetos. Os manifestantes denunciaram o uso excessivo da força. O caso motivou pedidos de esclarecimento por parte do Presidente da República e a abertura de um processo de averiguações pela Inspeção-Geral da Administração Interna.

A crise na habitação continua a ser o motivo central das acampadas. Entre as reivindicações estão alterações à legislação do arrendamento, medidas contra a aquisição de casas por fundos imobiliários e limites às rendas que os movimentos consideram acessíveis.