quarta-feira, 04 nov. 2026

De tendas a cantina, posto médico e até jornal. Acampada no Porto ganha vida própria

A poucos dias de completar um mês, o protesto pela habitação na Praça D. João I já vai muito além das manifestações. Há refeições gratuitas, atividades para crianças, assistência médica e até uma página dedicada a encontros amorosos.

A Acampada do Porto está prestes a completar um mês e, entre tendas e palavras de ordem, o protesto pela habitação transformou a Praça D. João I num espaço com serviços e atividades que vão muito além da mobilização política.

O movimento conta já com uma cantina popular, um posto médico, um espaço dedicado às crianças, um jornal próprio e um site onde são divulgadas informações sobre a organização do protesto.

Um espaço para crianças onde basta aparecer e brincar

Uma das iniciativas é o "Resistir a Brincar", criado a 17 de outubro para proporcionar atividades gratuitas aos mais novos.

Adriana Ferreira, de 47 anos, animadora sociocultural e técnica psicossocial, é uma das voluntárias do projeto. À Lusa, explica que a iniciativa surgiu também da necessidade de incluir as crianças num protesto habitualmente marcado por atividades dirigidas aos adultos.

Com a colaboração de uma atriz, uma artista plástica e uma empresária, o espaço promove desenhos, cartazes, trabalhos manuais e outras brincadeiras. Já houve sessões de ioga para crianças e horas do conto.

Segundo Adriana Ferreira, aos fins de semana chegam a participar entre 30 e 35 crianças por dia. Durante a semana, ao final da tarde, o número varia entre uma e duas dezenas.

A participação é gratuita, não exige inscrição e está aberta a todos. Basta, nas palavras da voluntária, "aparecer e querer brincar".

Cantina serve até 300 refeições por dia e posto médico presta assistência gratuita

A Acampada dispõe também de uma cantina popular que distribui gratuitamente refeições a cerca de 200 a 300 pessoas por dia, a partir do final da tarde.

O funcionamento tem sido afetado pelas intervenções policiais, que deixaram a estrutura sem recursos em várias ocasiões. Ainda assim, a cantina tem conseguido retomar a atividade através de donativos.

Outro dos serviços disponíveis é um posto médico com profissionais credenciados em medicina geral, psicologia e psiquiatria, além de socorristas e outros profissionais de saúde, incluindo osteopatas.

A assistência é gratuita e destina-se tanto a pessoas que alegam ter sido agredidas durante as intervenções policiais como a quem necessita de outros cuidados de saúde.

Protesto já tem jornal e site próprios

No último fim de semana, surgiu o "Tendão", o jornal da Acampada do Porto.

A edição inaugural, identificada como número zero, reúne textos políticos, fotografias, desenhos, cartoons, poemas e até uma sopa de letras.

"Somos o Tendão que dá força ao corpo que são estas tendas", lê-se num dos textos publicados.

O movimento lançou também o site acampadaporto.eu, que complementa a comunicação feita através do Instagram.

Na plataforma estão disponíveis ordens de trabalhos, atas das assembleias populares, materiais de primeiros socorros e defesa, contactos e informações sobre a participação nos diferentes grupos de trabalho.

Concertos, cinema e até encontros amorosos

A programação cultural tornou-se outra das características da Acampada, com concertos de artistas como os Clã, Manuel Cruz e João Não & Lil Noon, além de sessões de cinema e conversas.

O protesto, que reúne centenas de pessoas durante a semana e chega a atrair milhares aos fins de semana, deu ainda origem a uma página de Instagram dedicada a encontros e mensagens de interesse romântico.

Chama-se "Vi-te na Acampada", é partilhada com a mobilização de Lisboa e mistura humor com declarações anónimas.

"Há um gato que de cada vez que aparece as minhas pernas tremem, eu juro que caio, certamente é da equipa de segurança, porque eu preciso que ele me segure", lê-se numa das publicações.

Entre as tendas, as atividades culturais e os serviços gratuitos, a Acampada continua a ocupar a Praça D. João I, apesar do frio, do desgaste provocado pela passagem dos dias e de três intervenções policiais.

Um espaço que alguns participantes já descrevem, em declarações à Lusa, como um "centro social não oficial".