A atribuição de um prémio magnífico a quem criar uma flor de negro absoluto constitui um elemento central do romance A Túlipa Negra, de Alexandre Dumas. Longe de se limitar à ficção, esta ambição de criar uma túlipa inexistente na natureza era real e perdura até hoje. Movidos pelo sentido estético, curiosidade, ou simples vontade de criar algo, continuamos a procurar flores e outras formas de vida com características invulgares. Esta aspiração está mais próxima de se concretizar graças aos avanços da engenharia genética, que permitem conceber organismos com características dificilmente alcançáveis por métodos convencionais. Petúnias luminosas, peixes ornamentais fluorescentes e até um coelho brilhante concebido como obra de arte conduzem-nos a uma nova realidade. Hoje, modificamos organismos não apenas para resolver problemas, mas para criar beleza, proporcionar entretenimento ou despertar surpresa. Esta alteração de propósito do conhecimento científico convida inevitavelmente à reflexão: haverá mesmo lugar para uma biotecnologia ornamental ou estaremos antes perante uma biotecnologia supérflua?
Muitas gerações de horticultores procuraram criar a túlipa negra do romance de Dumas recorrendo a cruzamentos e seleção artificial. Mas, apesar dos progressos alcançados com variedades comerciais como a “Queen of Night” que exibem flores de um púrpura tão escuro que parecem negras, o mito da túlipa negra permanece por concretizar. A engenharia genética surge neste contexto como uma alternativa que pode suplantar os métodos tradicionais. Intervindo ao nível dos genes responsáveis pela produção de pigmentos, os mecanismos biológicos que determinam a cor podem ser manipulados de modo a gerar combinações inéditas. Os resultados desta abordagem começaram já a materializar-se em flores que parecem pertencer ao domínio da ficção. Nos Estados Unidos, os consumidores podem comprar à empresa LigthBio petúnias que exibem flores que são brancas durante o dia, mas que brilham no escuro com uma cor verde. Este efeito surpreendente é conseguido graças a um conjunto de genes oriundos de um cogumelo bioluminiscente [1]. No Japão, investigadores conseguiram também desenvolver crisântemos de um azul inédito através da introdução de genes de outras espécies de plantas [2]. Também esta nova planta transgénica foi transformada numa realidade comercial sob a marca BluOcean. Outras novidades do mercado de flores ornamentais geneticamente modificadas incluem rosas de tonalidades azuladas e cravos em tons de malva, violeta e púrpura.
A chamada “biotecnologia ornamental” não se limita ao sector das plantas. Por exemplo, os entusiastas da aquariofilia podem hoje adquirir diversos peixes fluorescentes criados por engenharia genética. A investigação original surgiu no final da década de 1990, quando investigadores de Singapura modificaram peixes-zebra transgénicos para produzir proteínas fluorescentes nos seus músculos. O objetivo era que os peixes funcionassem como sensores biológicos, brilhando sob luz ultravioleta na presença de determinados contaminantes. O potencial comercial daqueles peixes em aquariofilia foi rapidamente compreendido e em 2003 surgiram nos Estados Unidos os primeiros exemplares sob a marca GloFish. Entre as espécies disponíveis encontram-se variedades de peixes-zebra, tetras-viúva-negra e barbos-tigre, disponíveis em cores vivas como vermelho, verde, azul e laranja [3]. A expansão desta atividade levantou desde logo questões éticas, uma das quais se materializou em 2022. Nesse ano foi documentada a presença de peixes-zebra fluorescentes em ribeiros do sudeste do Brasil. Após escaparem de instalações de criação, os peixes estabeleceram-se no novo habitat, suscitando preocupações reais quanto aos possíveis impactos na biodiversidade local [4].
Para lá da criação de organismos com objetivos ornamentais, a engenharia genética pode também ser utilizada para fins artísticos. No projeto GFP Bunny de 2000, o artista Eduardo Kac apresentou Alba, uma coelha albina transgénica portadora de um gene de uma medusa que produz uma proteína fluorescente. Sob iluminação adequada, Alba emitia uma luz verde fantasmagórica que surpreendeu o público e suscitou um debate sobre o papel da engenharia genética na arte [5]. Criador de referência na chamada BioArte, Kac desenvolveu outros projetos marcantes, incluindo a criação de Edunia, uma petúnia geneticamente modificada para produzir uma proteína do próprio artista, visível nas nervuras das pétalas. Kac descreveu-a como um «plantimal», uma nova forma de vida concebida como um híbrido simbólico entre si próprio e a petúnia.
A modificação genética de organismos suscitou desde sempre preocupações éticas relacionadas com a segurança ambiental, o bem-estar animal e a possibilidade de consequências imprevistas. Estas preocupações têm condicionado, e em alguns casos limitado, o desenvolvimento de aplicações com benefícios sociais evidentes, como o desenvolvimento de culturas agrícolas mais produtivas e resistentes a pragas, a criação de terapias médicas inovadoras para doenças incuráveis ou a utilização de bactérias modificadas para despoluir solos e águas contaminadas. Mas, os exemplos anteriores mostram que a engenharia genética pode também satisfazer aspirações estéticas, proporcionar experiências lúdicas e servir como meio de expressão artística. A nova questão ética e cultural que agora se coloca é a de saber se estes objetivos constituem razões legítimas para criar formas de vida. Para muitos, intervenções deste tipo exigem um escrutínio ético ainda mais rigoroso, precisamente porque não constituem uma resposta a qualquer necessidade social premente. Outros argumentarão, porém, que a beleza, o prazer, a criatividade e a liberdade de expressão são também dimensões importantes da experiência humana que merecem ser valorizadas. Face a esta dissonância de opiniões, torna-se inevitável discutir se os benefícios destas aplicações justificam os riscos e os custos envolvidos e em que condições será legítimo desenvolvê-las.
A túlipa negra de Alexandre Dumas simboliza o desejo de ultrapassar os limites da natureza. Hoje, a engenharia genética permite concretizar ambições semelhantes, criando flores invulgares, peixes luminosos e até obras de arte. Estas aplicações demonstram que, para lá de resolver problemas, a biotecnologia pode também despertar emoções e alimentar a imaginação. Mas será esta biotecnologia ornamental ou artística uma expressão legítima da criatividade humana ou uma aplicação supérflua do conhecimento científico? Afinal, a possibilidade técnica de criar algo não significa, por si só, que devamos fazê-lo.
[1] Bourzac, K. (2024). Bioluminiscent houseplant hits US market for first time. Nature. 626: 701.
[2] Lallensack, R. (2017). ‘True blue’ chrysanthemum flowers produced with genetic engineering Scientists added two genes to the plant's genome to get the new hue. Nature. doi:10.1038/nature.2017.22365
[3] Gong, Z., Wan, H, Tay, T.L., Wang, H., Chen, M., Yan, T. (2003) Development of transgenic fish for ornamental and bioreactor by strong expression of fluorescent proteins in the skeletal muscle. Biochem. Biophys. Res. Comm. 308: 58–63.
[4] Moutinho, S. (2022). Transgenic fish invades Brazilian streams. Science. 375: 704-705.
[5] Kac, Eduardo. "GFP Bunny." Leonardo, vol. 36 no. 2, 2003, p. 97-102.
Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa