Agora, com os calores de Junho a chegarem em força e com todo um longo Verão pela frente, o grande terror que se apodera das populações do Interior Rural é a ameaça permanente dos incêndios.
Depois dos sucessivos anos fatídicos de 2003, 2005, 2007 e 2011, veio o ano da trágica carnificina de 2017 com a morte de 120 dos nossos concidadãos, ocorridas em circunstâncias dramáticas.
Apesar do sobressalto mediático então ocorrido, e do importante gesto simbólico do então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de celebrar em 2024 o Dia de Portugal nos três concelhos mártires de 2017 – Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera – nenhuma alteração estrutural de políticas públicas se concretizou no terreno de forma a evitar que estes trágicos incêndios se repetissem lamentavelmente ano após ano.
Porquê tanta incapacidade de concretização por parte dos mais altos dirigentes do Estado Português?
Esta pergunta dramática é também um desafio a todos os portugueses que lutam pelo desenvolvimento económico e pela coesão social da nossa Nação.
Por isso aqui avanço com duas ações concretas absolutamente prioritárias para que este ano de 2026 não seja mais um ano trágico:
1. Instalar Parques de Recolha de Biomassa em todos os concelhos de elevada densidade florestal.
Os pequenos proprietários do minifúndio têm de ter locais para colocarem os seus excedentes de biomassa, e aí serem recompensados pelos respetivos custos de corte e transporte.
Depois das tempestades de Janeiro deste ano, com milhões de toneladas de biomassa perigosamente espalhados pelos terrenos rurais do interior Norte e Centro, sem esses Parques de Recolha de Biomassa indicados pelas autarquias, onde é que os pequenos proprietários vão colocar os seus excedentes de biomassa?
Daqui surge a tentação das queimadas, que é um risco terrível, mas que, por vezes, é fruto do desespero das populações que se querem ‘ver livres’ da biomassa.
Os Parques de Recolha de Biomassa são o primeiro, e indispensável, elo duma cadeia logística que permitirá, de forma estruturada, transformar esta ameaça de destruição numa oportunidade de desenvolvimento económico e de coesão social:
• Porque viabiliza economicamente a limpeza das florestas;
• Porque permite fazer a triagem entre os diferentes tipos de biomassa, que poderá ir para indústrias a jusante ou ser uma importante fonte de energia renovável;
• Porque retira dos terrenos o material combustível que promove a propagação dos incêndios rurais.
Os Parques de Recolha de Biomassa, a financiar pelo Fundo Ambiental nos Concelhos de elevada densidade florestal, são a mais urgente prioridade para se combater eficazmente a propagação dos incêndios rurais.
2. O Reforço da Vigilância e da Repressão nos Dias de maior Risco de Incêndio.
O elevado risco de incêndio é definido pelos ‘três trintas’: mais de 30º C, mais de 30 Km/h de vento, menos de 30% de humidade.
Mas a norma até agora seguida pelos poderes públicos de anunciar em altas parangonas na comunicação social esse elevado risco de incêndio, sem nada fazer de concreto para evitar as ignições criminosas, é não só inútil, como é mesmo contraproducente!
É contraproducente porque é um incentivo para que mentes criminosas considerem que esses são os dias mais eficazes para atuarem.
Não nos podemos esquecer que, em apenas três dias de Setembro de 2024 em que tinha sido anunciado «muito elevado risco de incêndio», houve mais de três mil ignições.
Mil das quais foram registadas durante a noite!
Nesses períodos críticos é absolutamente indispensável aumentar a vigilância no terreno, recorrendo para isso às forças de segurança, às forças armadas e aos drones, agora já tão eficazes.
Para que não haja circulação de pessoas não autorizadas nas zonas de elevada concentração de material combustível.
Qualquer comportamento criminoso, ou de grosseira negligência, nas regiões de maior risco tem que ser severamente reprimido.
Portugal tem um número de ignições absurdamente elevado, superior ao que se verifica em países com muito maior área, como Espanha, França ou Itália, e a vigilância e a repressão são indispensáveis para inverter esta calamidade.
Não basta fazer discursos sobre ‘o reforço da coesão territorial’ e ‘a solidariedade com as populações rurais do interio’ quando as tragédias já destruíram a vida e o património das pessoas.
É preciso é agir, e o momento é agora.
Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico,Membro do Conselho de Indústria e Energia da SEDES