O terreno onde hoje se pratica golfe, na cidade belga de Ypres, foi em tempos uma zona de combate. Essa ligação ao passado tornou-se evidente durante os trabalhos de expansão do clube De Palingbeek, quando as máquinas e as equipas de arqueologia começaram a encontrar vestígios de uma realidade muito diferente daquela que o espaço apresenta atualmente.
A investigação permitiu contabilizar pelo menos 141 soldados mortos durante a Primeira Guerra Mundial. A descoberta foi acompanhada pela identificação de mais de dois mil vestígios arqueológicos e 720 peças de munição, num trabalho que se prolongou por aproximadamente 18 meses.
O terreno intervencionado, com cerca de 2,1 hectares, situa-se numa área que esteve próxima da linha da frente. A quantidade e a diversidade dos materiais encontrados mostram como a paisagem foi profundamente marcada pelos combates travados naquela região.
Um cenário de guerra preservado debaixo da terra
As escavações trouxeram à superfície estruturas que ajudam a perceber como as tropas se movimentavam e se protegiam. Entre elas encontra-se uma trincheira francesa de 1914, cuja conservação surpreendeu os investigadores.
Foram igualmente identificados túneis construídos pelas forças alemãs. Um deles tinha aproximadamente 30 metros de comprimento e terminava a cerca de 55 metros da posição britânica.
Nas estruturas de madeira que revestiam o túnel foram encontrados desenhos e inscrições deixados pelos soldados. São pequenos testemunhos da presença humana num espaço que, durante a guerra, serviu de abrigo e apoio às operações militares.
A lista de objetos recuperados inclui ainda uma corneta britânica, um sabre de um oficial francês, uma arma Lebel e equipamento militar. Cada peça acrescenta informação sobre as unidades e os soldados que passaram pela zona.
Restos mortais de militares franceses e alemães
A análise dos vestígios humanos permitiu identificar militares de nacionalidade francesa e alemã. A recuperação dos restos mortais decorreu em diferentes etapas, tendo sido encontrados indivíduos em várias campanhas de escavação.
O trabalho contou com a colaboração de especialistas de diferentes países, incluindo antropólogos franceses e alemães. A identificação dos soldados continua a ser uma das tarefas em curso, uma vez que nem todos os restos mortais permitem determinar imediatamente a identidade de quem morreu.
As autoridades e as equipas envolvidas terão agora de assegurar os procedimentos necessários para dar sepultura aos militares recuperados. Alguns dos objetos encontrados poderão vir a integrar o acervo do museu In Flanders Fields, em Ypres.
Ypres continua a revelar marcas da Primeira Guerra Mundial
A cidade de Ypres ocupa um lugar central na história da Primeira Guerra Mundial. A região da Flandres foi palco de combates particularmente intensos entre 1914 e 1918, envolvendo sobretudo tropas alemãs, francesas e britânicas.
Mais de cem anos depois do fim do conflito, a paisagem continua a guardar provas dessa violência.