quinta-feira, 05 nov. 2026

Tereza Arriaga. Pintar como uma criança salta à corda

Neta do primeiro Presidente da República eleito, teve uma vida que começou no Palácio de Belém, passou pelas Belas Artes e pela Prisão de Caxias, e agora pode ser descoberta no Palácio do Egipto. A exposição Tereza Arriaga: Percursos de Arte e Vida junta dezenas de pinturas, fotografias e alguns dos seus escritos.
Tereza Arriaga. Pintar como uma criança salta à corda

Artista, pedagoga e ativista política – combateu a ditadura e esteve presa por isso –, Tereza Arriaga pintou até perto dos 90 anos. A sua última pintura a óleo data de 2002. Depois disso, ainda fez aguarelas, mas dedicou-se sobretudo a rememorar o passado.

«Na última década, escreve, escreve, escreve. Escreve freneticamente», sublinha Raquel Henriques da Silva, uma das três comissárias da exposição Tereza Arriaga: Percursos de Arte e Vida, patente até 12 de dezembro no Palácio do Egipto, em Oeiras. Os outros dois elementos do trio são a antropóloga Emília Margarida Marques, que tratou o espólio documental, e a arquiteta e artista plástica Iria Arriaga, neta de Tereza. «Parecia-me às vezes que ela tinha medo de estar a perder a memória, mas a neta diz que não. É uma obsessão», continua a comissária.

E havia, de facto, muito para recordar.

Neta de Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da República eleito, Tereza Arriaga nasceu no palácio de Belém no dia 5 de Fevereiro de 1915, a terceira de quatro filhos. O pai, Roque de Arriaga, era secretário pessoal (e filho) do Presidente e, nessa condição, a família podia residir num apartamento arrendado no palácio. A mãe, Maria Izabel, provinha de um meio abastado e dedicava-se à pintura. «O avô materno era engenheiro, tinha sido um dos fundadores das linhas de comboio do Douro, e depois veio montar a linha do Estoril», refere Raquel Henriques da Silva.

Não passou muito tempo até que a família, com a renúncia de Manuel de Arriaga a três meses do fim do mandato, tivesse de trocar o palácio de Belém por uma vila no Estoril, oferecida pelos pais de Maria Izabel à filha e ao genro como presente de casamento. Entre Belém e o Estoril, Tereza cresceu no conforto da alta burguesia.

Até surgir, quando tinha três anos, aquilo a que chamou «o buraco negro». «A mãe morre com 27 anos, na pneumónica, como tanta gente. Deixa quatro filhos. O pai nunca volta a casar. A Tereza teve uma infância feliz, apesar do buraco negro, e absolutamente livre», explica Raquel Henriques da Silva.

«Lembro-me ter visto a minha mãe três vezes e por isso julgo que não tive mãe», escreveria Tereza, que dizia ter crescido «introvertida e solitária, embora tivesse afeto à minha volta».

Das Belas Artes à Marinha Grande

Por volta dos 20 anos, decidiu romper com a existência burguesa: «Isto não é vida para mim. Nem francês nem piano sei bem, tenho que fazer qualquer coisa». Possuindo apenas o diploma da instrução primária, foi literalmente buscar a paleta da mãe (que pode ser vista na exposição) e inscreveu-se num curso noturno intensivo de pintura na Sociedade Nacional de Belas-Artes, para em 1940, após um exame exigente, ingressar na Escola de Belas-Artes, então dominada por figuras como Veloso Salgado e Leopoldo de Almeida.

No convento de São Francisco, além dos professores, havia os alunos – e foi entre eles que Tereza encontrou aquilo que descreveria como «o companheirismo filosófico e solidário». O seu testemunho prossegue: «Foram os bons tempos de quando éramos todos resistentes. De certo modo antifascistas. Comunhão que hoje faz muita falta nestas épocas de umbigomanias e mafias».

«Até ao terceiro ano», continua Raquel Henriques da Silva, «vai fazendo a Escola [de Belas Artes], umas vezes com boas notas, outras vezes menos. No terceiro ano – o ano letivo 44-45 – resolve interromper o curso. Há uma carta para a irmã em que diz: ‘Está na altura de me autonomizar’. Porque é que ela foi parar à Marinha Grande? Não sabemos. Suspeitamos que haja qualquer ligação política».

Colocada na Escola Industrial anexa à antiga fábrica da Stephens, inicia uma carreira de professora, em que proporciona aos seus alunos algo nunca antes visto: aulas de desenho livre. «Consegui que os meus alunos fizessem desenho livre, que tanta alegria lhes dava. E nem era do programa», lê-se num dos seus textos memorialistas.

Na Marinha Grande, Tereza encontra também uma realidade para a qual a sua infância burguesa não a tinha preparado. Uma fotografia de grupo tirada naqueles anos mostra, na primeira fila, os meninos-operários que trabalhavam na fábrica do vidro. «Entravam normalmente aos 10 anos, às vezes antes. Há um testemunho de uma mãe que diz que no inverno levava o miúdo ao colo – portanto devia ter sete anos», comenta a comissária.

Impressionada, Tereza retratou alguns desses meninos. «A Escola Industrial era anexa à fábrica. Tereza consegue que o diretor da escola lhe ceda o ateliê e faz mais de 30 desenhos. É um conjunto extraordinário. A par disso, andou pela fábrica a fazer desenho rápido, à mão levantada». Tratava-se provavelmente de esboços preparatórios para um mural que teria em mente. Em 1952, apresentaria como prova final de licenciatura justamente a pintura Vidreiros da Marinha Grande, que tem afinidades com o realismo socialista soviético. Mas não nos adiantemos.

Uma casa a dois passos da prisão

Passada a Segunda Guerra Mundial, e após um período de relativa tolerância do regime – Salazar prometera eleições «tão livres como na livre Inglaterra» –, em 1947 dá-se uma forte repressão do Partido Comunista. Tereza é presa – Álvaro Cunhal e Mário Soares sê-lo-ão um pouco mais tarde, em 1949. «Está 110 dias aqui em Caxias, sem culpa formada», refere Raquel Henriques da Silva.

Em causa estava uma angariação de dinheiro. «Ela disse à PIDE que tinha ficado com o dinheiro. Era estudante, queria ir a Paris e ficou com o dinheiro». Mais tarde assumiria que não, que tinha entregado o dinheiro ao partido, provavelmente para financiar os camaradas que se encontravam na clandestinidade.

Ela, que vivera uma infância privilegiada e ultra-protegida, tornava-se quase uma proscrita – podendo, ainda assim, contar sempre com o apoio do pai. A passagem por Caxias significava também que ficava impedida de dar aulas no ensino oficial. Nos seus escritos, revelaria que chegou a passar dificuldades: «Houve um período da minha vida em que fui muito pobre, pois é assim quando os dias estão ainda antes do estômago».

No regresso à liberdade, Tereza descobria também, para sua consternação, que tinha morrido Carlota, que servira na casa de seus pais e se tinha tornado uma espécie de segunda mãe para ela. «Não sabia ler nem escrever e foi uma educadora só por existir, por saber amar. […] Quando a minha mãe morreu ela foi o coração da nossa infância. Com Carlota das serranias e das neves de Trás-os-Montes aprendi a humildade, o despojamento da filosofia natural e o amor dedicado, o tesouro. Quando saí da cadeia de Caxias em setembro de 47, eu quis vê-la nesse mesmo dia. Carlota tinha morrido».

Também nesse ano, Tereza casou-se com Jorge Oliveira, estudante de Belas Artes e pintor como ela, que transitará do neorrealismo para o surrealismo e depois para a abstração. Curiosamente, o casal mandou construir a sua casa, projetada por Jorge, num terreno a dois passos da Prisão de Caxias de má memória, no Alto do Lagoal. A zona era assim descrita por José Marreiros, diretor do jornal A Voz de Paço d’Arcos: «Ali só vivia gente esquisita que tinha feito as suas casas na montanha ventosa, sem árvores, sem qualquer atividade comercial, cultural ou social prevista». Hoje é uma zona exclusiva e muito procurada pela tranquilidade, proximidade de Lisboa e vistas soberbas para a Barra.

‘Tudo quanto eu faço sou eu’

Feitas as apresentações, falemos agora da pintura.

«Da pintura a óleo temos aqui na exposição mais de metade; das aguarelas, temos uma ínfima parte», começa Raquel Henriques da Silva. «A Tereza é uma pintora muito irregular. Só no final dos anos 60 inicia a sua peculiar pintura que designa por Bioburgos. Pinta bastante em 70, em 80 tem pouca pintura a óleo, mas muita aguarela; e dois terços do que aqui está é feito depois de se reformar. Reforma-se em 85, com 70 anos, e de 85 até 2000 tem 15 anos de produção muitíssimo intensa».

Um dos retratos exibidos, ainda do período inicial, é o de uma empregada doméstica, Gertrudes, que terá sido contrabandista de volfrâmio. «É um retrato excelente, muito expressionista».

Na maioria das vezes, porém, as formas não são imediatamente reconhecíveis. Há manchas de cor que podem ser elementos orgânicos, ou fluidos a escorrer. «Como ela diz algumas vezes, a preocupação dela é a pessoa no mundo. Há formas arredondadas em cima que podem ser uma lua ou um sol, e depois há sempre canais – ela fala em seiva – que parecem retortas, faz lembrar um laboratório», elabora a comissária. «São belíssimos. Eu tinha um desgosto enorme que isto não fosse conhecido».

Já a própria pintora explicava assim o seu trabalho: «Tudo quanto eu faço sou eu, são os meus retratos, peças desmontadas, são o que sinto, o que fui sabendo, o que penso, o afloramento inconsciente agindo na magia da descoberta involuntária e logo aproveitada». Não parece, pois, abusivo ver nestas pinturas paisagens da vida interior. E ainda, num registo mais lírico: «Eu pinto com tanto prazer como quando era criança saltava à corda».

Outro aspeto que caracteriza esta pintura são as suas dimensões sempre contidas, bem como o trabalho lento e minucioso. «As dimensões e a rapidez com que o marido pinta incomodam-na. O ateliê dela é um espaço muito pequeno e muito atulhado. Diz que só pinta quadros que caibam num Renault 5, que era o carro dela».

Dois terroristas e duas malas cheias de pedras

A presente exposição suscitou revelações. Detalhes que até aqui tinham escapado aos familiares e admiradores da obra de Tereza de Arriaga viram a luz do dia. Os quadros finais, talvez antecipando a dedicação à escrita – pouco antes de morrer, ainda registou na Sociedade Portuguesa de Autores um livro de poemas que continua inédito – eram acompanhados por textos. «Já que ninguém percebe nada da minha pintura, eu vou explicá-la», justificava a artista.

Em dois deles, lê-se em letras discretas: ‘Para ti, Francis Hughes’ e ‘Para ti, Bobby Sands’. «Quem são estes? São terroristas do IRA que morreram na sequência de greves de fome, um tinha 25, outro tinha 27 anos», explica a comissária. Entre os papéis da artista foram encontrados vários recortes relativos a estes acontecimentos. As memórias da prisão de Caxias não seriam alheias à empatia com os terroristas irlandeses.

Noutra pintura, ‘Montanhas-Vulcões do Chile de Pinochet’, de 85, vemos cinco vulcões que representam claramente cinco pessoas – quatro intelectuais e um artista – que foram degolados pelo regime de Pinochet. E há um ‘Massacre ao sol’, de 1992, com uma legenda onde se lê: «Democracias hipócritas estão feitas com governos terroristas». «Em 92, o que é que pode ser?», decifra Raquel Henriques da Silva. «A guerra na Jugoslávia». Mais uma vez, os recortes de jornais sustentam esta leitura.

A par da política, existe uma forte dimensão ecológica na obra de Tereza Arriaga, como naquele quadro em que escreve: ‘Quero rios de água potável’. Essa ligação à natureza fazia parte da sua vida, através de atividades como o campismo ou a observação de astros com um casal amigo «que construiu», explica Raquel Henriques da Silva, «um telescópio com o motor de uma máquina de lavar que a Tereza e o Jorge lhe arranjaram».

Tereza tinha como lema ‘Ser, não ter’. Ainda assim, prezava muito a sua extensa coleção de pedras. Nas visitas que fez com o marido à Argélia, onde o filho Jorge exerceu durante anos como médico, reuniu uma quantidade considerável de rosas do deserto. E quando, já com 95 anos, visitou os Açores por ocasião de uma homenagem ao avô Presidente, que era natural do Pico, também aproveitou para enriquecer a sua coleção com espécimes vulcânicos. «A Iria diz que teve que comprar duas malas extra quando se foram embora para a avó pôr as pedras todas que entretanto tinha acumulado».

Algumas dessas pedras podem ser vistas à entrada da exposição no Palácio do Egipto. E lembram-nos que, mesmo quando se inclina para a abstração, a pintura pode ir buscar os seus referentes à realidade palpável.