segunda-feira, 07 set. 2026

A nova febre do vinil na era do streaming

Em resposta à imaterialidade digital dos dias de hoje, renasce em Portugal o fascínio pelo analógico, à boleia de uma série de lojas de música independente espalhadas por Lisboa e Porto
A nova febre do vinil na era do streaming

É hora de almoço numa tarde quente de agosto. No interior da Flur, loja de discos localizada ao lado do mercado de Arroios, em Lisboa, várias pessoas acotovelam-se no espaço exíguo. Algumas em busca das últimas novidades, outras com o objetivo específico de comprar um clássico em vinil. Estes discos analógicos que foram lançados na década de 40 do século passado, chegaram a ser vistos como relíquias reservadas a poucos apreciadores, mas voltaram a estar na moda nos últimos anos.

Mas para percebermos a “febre” do vinil dos dias de hoje, é necessário um contexto histórico. Desenvolvido pela Columbia Records na década de 1940, o disco de vinil “Long Play” foi uma pedrada no charco no mundo da música. Ao substituir os frágeis discos de goma-laca, ofereceu maior durabilidade, superior qualidade sonora e capacidade de armazenamento. Pouco depois, a mesma editora lançou o formato “Extended Play”, o suporte ideal para singles, enquanto os “Long Play” ficaram reservados aos álbuns completos.

O reinado do vinil começou a ser desafiado nos anos 60 com o surgimento das cassetes e, na década seguinte, pelos Compact Discs (CDs), formato originalmente desenvolvido pela Philips e que acabaria por dizimar quase por completo o mercado do vinil, com exceção de um pequeno nicho que se manteve ativo. No entanto, nos últimos anos, um pouco por todo o mundo, assistiu-se a um renascimento deste formato analógico: impulsionado pela abertura de novas lojas especializadas e pelo interesse em feiras de antiguidades, o vinil regressou com crescimento sustentado.

Em Portugal não foi exceção e muitas lojas de discos, espalhadas pelo país, têm registado vendas impressionantes em vinil.

Paixão por influência do pai

Frederico Batista, 46 anos, que em 2005 fundou o Altamont, site e magazine português dedicado à música, possui cerca de 600 discos de vinil. «Quando comecei a gostar de música, no final dos anos 80, estávamos na transição para o CD, que era algo mais moderno. No entanto, lembro-me que já em criança ouvia vinil, por influência do meu pai. Eu até tinha o que ainda hoje recordo como o ‘meu vinil’, do Fausto, adorava a capa, que tinha uns monstros», conta à VERSA.

No final dos anos 90, decidiu investir no seu primeiro vinil, “Abbey Road”, dos Beatles. Aos 26 anos, comprou o seu próprio vira-discos e desde então, não tem parado de adquirir vinis. «Também vou comprando CD’s, essencialmente de bandas novas, enquanto os discos originais tenho o hábito de comprar em vinil. E não há dúvida que o vinil tem uma magia própria, o som é mais quente e a experiência fica completa com uma boa aparelhagem, colunas e cabos», refere, acrescentando: «A capa grande e o facto de ser necessário trocar de um lado para o outro, faz com que tenha de se estar com atenção à música. Desse modo, passo 40 minutos a uma hora completamente absorvido e concentrado».

Frederico Batista costuma passar música em alguns lugares emblemáticos da noite lisboeta e já o fez transportando discos de vinil. «A última vez, no ‘O Bom, O Mau e o Vilão’ [bar no Bairro Alto] tive de levar quatro sacos gigantes de supermercado. Levar uma simples pen é muito mais fácil, mas a experiência com vinil é muito melhor. Não falo na qualidade da música, pois com o barulho, não se nota a diferença, refiro-me, sim, à sensação de que tudo é mais real e analógico. Por outro lado, enquanto com um CD a transição de uma música para a outra é feita automaticamente, no vinil temos de conhecer a música e perceber quando ela vai chegar ao fim e trocar pela próxima».

O facto de ser chefe de cabine da TAP também contribuiu para que a sua coleção fosse aumentando. «Apesar de ser uma profissão desgastante, permite-me ter algum tempo livre e visitar algumas lojas de discos no estrangeiro, onde costumo comprar edições originais em vinil, nomeadamente nos Estados Unidos e em Inglaterra».

Frederico Batista queixa-se no entanto dos preços elevados dos discos de vinil. «É triste, é unicamente para extorquir dinheiro às pessoas. Há uns 15 anos, os discos não passavam os 20 e poucos euros, mas hoje em dia não se consegue nenhum disco por menos de 30 e tal, 40 euros, havendo, claro, muitos que ainda são bastante mais caros. Isto vai levar a que muita gente vá virar-se de novo para os CD’s, que são muito mais baratos», antevê.

‘Cada música é para ouvir do início ao fim’

Se Frederico Batista é quase um “dinossauro” na arte de colecionar vinil, Diogo Graça, de 45 anos, é um adepto mais recente, mas fá-lo com o mesmo fervor. Encontrámo-lo na Flur, enquanto observava as novidades. «Sempre adorei música, mas costumava ouvi-la de outra forma quando era mais novo, como quase todas as pessoas da minha geração. Segui aquele percurso habitual que começou na cassete, passou para o CD e desembocou na música online», conta, revelando que costuma passar por algumas lojas de discos lisboetas com regularidade «em busca de novos autores e discos em segunda mão». E elege a Tubitek, na Baixa de Lisboa como a sua preferida. «Tem um serviço ótimo, mandam vir as edições mais difíceis de encontrar e está muito focada no soul e no jazz, que são mais a minha onda», diz.

«O vinil é algo que descobri nos últimos anos, mais pelo objeto em si, e um pouco como os livros, compro também por causa da capa. Herdei alguns vinis dos meus pais e amigos e fui aumentando a minha coleção, mas é algo que vou fazendo pouco a pouco», confessa, acrescentando que tem tentado passar este gosto aos seus filhos: «Muitas vezes ponho o vinil a tocar durante o jantar e sinto recetividade da parte deles. Claro que eles ouvem música essencialmente no telemóvel, mas mesmo quando o fazem dessa forma, digo-lhes sempre que é proibido saltar músicas, cada música é sempre para ouvir do início ao fim».

O caráter ininterrupto é um dos fatores que mais alimenta a sua paixão pelo vinil. «Temos oportunidade de ouvir com calma, sem pressas. Depois, ver também se a agulha está bem limpa, se o vinil está limpo… é uma paixão que também se alimenta através destes pormenores», revela, dizendo não saber ao certo quantos discos de vinil tem, mas garantindo que «não são muitos».

Já Guilherme Costa, 33 anos, que também encontrámos no nosso percurso pelas lojas de discos lisboetas, tem 115 vinis. «Todos comprados desde o último mês de outubro, depois de me terem oferecido um gira-discos no meu aniversário», confessa, só lamentando que «seja um hobby caro, pois qualquer disco novo não custa menos de 30 euros, podendo facilmente chegar aos 60 e 70 euros nas novas edições e aos 200 euros nas edições mais antigas».

A visão de quem vende

Em 1993, João Moreira fundou a Carbono, considerada a primeira loja para compra de discos usados em Portugal. Atualmente, fica na Rua do Telhal, em Lisboa, depois de 11 anos numa pequena cave no extinto Centro Comercial Portugália, na Avenida Almirante Reis. Abriu mais três lojas, no Porto, Braga e Almada, que acabaram por fechar, mas subsiste uma outra, na Amadora.

João Moreira abre a Carbono de Lisboa entre terça-feira a sábado, religiosamente às 13h30, hora a que chegámos à loja. Depois de pequenas arrumações para colocar tudo a postos para mais um dia de trabalho, disponibilizou-se para falar à nossa publicação. «Se há uma febre do vinil? Sim, é verdade, temos tido muita procura. Sendo que há dois tipos de consumidores de vinil, aqueles que são verdadeiros ‘amantes’ da música e devoram-na do início ao fim e aqueles que compram os discos só para dizer que têm e depois deixam-nos na prateleira, sem lhes darem uso», atira.

No entanto, apesar deste bom momento, o fundador da Carbono deixa um aviso sério à indústria: «Se os preços absurdos dos discos não baixarem, o futuro não será brilhante, pois isto pesa mesmo muito na carteira das pessoas», afiança, explicando que «a produção de um disco de vinil custa apenas 4 euros», mas depois «é vendido a nunca menos de 30 euros, e isto os mais baratos, sendo muito mais caros os clássicos antigos».

«O vinil é um nicho de mercado muito ativo, apesar de qualquer pessoa hoje em dia conseguir ouvir música no telemóvel ou no computador», prossegue. No entanto, confessa que «apesar do grande interesse das pessoas, a situação não é fácil para a Carbono, pois existe muita concorrência neste mercado. Hoje em dia até a FNAC nas Amoreiras tem uma secção de vinil usado». E acrescenta que «muitos colecionadores gostam de ter as primeiras edições, feitas na altura do lançamento, é algo que valorizam imenso».

João Moreira não está esperançado num futuro muito risonho para a sua loja física. «Estou a pensar em dedicar-me apenas ao online. Apesar de ter muita gente que procura o espaço, a renda é muito alta, esta deve ser a maior loja de discos em Lisboa», diz.

10 LOJAS DE DISCOS PARA VISITAR

Flur Discos (Lisboa)  
Instalada no Mercado de Arroios, em Lisboa, a Flur é uma referência internacional no circuito independente, tendo sido recentemente destacada pelo Financial Times como uma das melhores lojas de discos do mundo. Dedica foco especial à eletrónica, experimental, pós-punk e sonoridades das antigas colónias lusófonas.  
 
Louie Louie (Porto e Lisboa)  
Com presença histórica na Rua do Almada, no Porto, e no coração do Chiado, em Lisboa, o seu catálogo equilibra novidades e uma vasta oferta em segunda mão, cobrindo géneros que vão do rock clássico ao jazz e ao pop alternativo.  
 
Carbono (Lisboa)  
Aberta em 1993, no centro comercial Portugália, na Almirante Reis (Lisboa), foi pioneira no mercado de discos em segunda mão no país. Loja de grandes dimensões, as suas prateleiras estão repletas de edições usadas e raridades, ideal para quem procura clássicos esquecidos. Agora fica na Rua do Telhal.

Matéria-Prima (Porto)  
Sediada no Bairro das Artes, na Rua Miguel Bombarda, funciona também como livraria. Foca-se em editoras independentes, eletrónica e edições de artista.
 
Porto Calling (Porto)
O nome presta homenagem aos The Clash e dedica-se exclusivamente ao vinil, novo e em segunda mão, com forte incidência no rock, punk, indie e garage. Fica na Rua da Conceição.
 
Tubitek (Porto e Lisboa)  
Aqui, o fascínio do vinil cruza-se com o dinamismo de um espaço moderno, reunindo um vasto catálogo de novidades e reedições de grandes clássicos. A loja na Invicta está na Praça de D. João I e na capital fica na Rua do Crucifixo.
 
Groovie Records (Lisboa)

Funciona como loja física na Penha de França e editora independente, centrando-se no garage rock, música psicadélica, funk, soul e punk dos anos 60 e 70.
 
Discolecção (Lisboa)  
Na Avenida Elias Garcia, é um destino de eleição para os colecionadores mais exigentes, o seu catálogo é essencialmente de raridades, primeiras edições, rock progressivo e música portuguesa.  
 
Amor Records (Lisboa)  
Mais uma loja de discos na zona de Arroios, funciona também como café e bar. Tem um catálogo virado para o house, techno, disco, sonoridades africanas e música brasileira.  
 
Lucky Lux (Coimbra)
Esta loja no centro de Coimbra destaca-se pela seleção cuidada de vinil em segunda mão, bem como equipamentos áudio e material de coleção para entusiastas da música.