Carlão, nome artístico de Carlos Nobre Neves, é considerado um dos artistas mais influentes da música portuguesa, movimentando-se com discreta sabedoria na área do hip hop e rap, mas também faz uma perninha em outros estilos. Como gosta de dizer: «Sou meio rapper, sou meio tudo na minha vida». E é verdade! Foi coautor, juntamente com Helena Costa, do livro Livres e Iguais, um projeto pedagógico de promoção da interculturalidade, que faz parte da lista de obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura, e foi mentor de sucesso do The Voice Kids, um programa de televisão para jovens cantores.
Começou a tocar baixo com apenas 13 anos e ensaiou os primeiros concertos em Cacilhas, ponto de encontro para quem gostava de música. Sob o pseudónimo Pacman, destacou-se como vocalista e letrista dos Da Weasel, uma das bandas urbanas mais influentes do hip hop português, que surgiu em 1993. Já com o nome de Carlão, esteve ligado a um grupo de punk hardcore e ingressou por uma sonoridade próxima do hip hop. Para comemorar os 40 anos lançou, em 2015, um álbum em nome próprio intitulado Quarenta. No ano em que completou 50 anos, terminou o projeto ‘Quinta-Essência 75/25’, escrito em vários momentos da sua carreira e gravado em 2025. O álbum está disponível nas principais plataformas de streaming e nos canais oficiais do músico desde março deste ano, e tem uma edição limitada em vinil.
Carlão recebeu-nos sorridente no seu estúdio, em Almada, o “quartel-general” onde desenvolve o seu processo criativo e onde foi produzido grande parte do Quinta-Essência 75/25. Um álbum com 18 faixas para ser escutado de forma contínua e não, apenas, como um conjunto de singles. É o revisitar de várias fases da sua carreira e onde estão presentes temas fraturantes da sociedade através de uma escrita densa, reflexiva e profundamente humana. No seu novo trabalho encontramos ambientes distintos e grande diversidade musical, que vai do rap ao hip hop de crítica social, passando pelo hardcore e, pela primeira vez, sons de África. É um ritmo contagiante, bem embrulhado pela palavra dita do músico.
Carlão é conhecido pelo talento musical, mas também pela sua autenticidade e sentido de humor, pelo que a entrevista só podia decorrer num ambiente descontraído e ter um conteúdo rico e variado. Está-se bem, por isso é deixá-lo falar.
Que Quinta-Essência é esta? O que representa em termos musicais?
É um apanhado de várias coisas que marcaram o meu percurso na música. Entre 2018 e 2025 lancei apenas singles, mas continuei a fazer música, só que estava compartimentada em três EP muito diferentes entre si. Comecei, então, a pensar em lançar um novo trabalho para coincidir com os meus 50 anos. Espremi ao máximo o que cada EP tinha, falei com o meu irmão, João Nobre, que foi a pessoa com quem comecei a fazer música, com o Branko, o Fred Ferreira, o Stereossauro e os BeatBombers para chegar à Quinta-Essência. Juntei uma coleção de cromos, dos bons, que foram importantes ao longo da minha carreira. Depois, coloquei alguns trechos de palavra dita e criei interlúdios.
Ao juntar no mesmo álbum diferentes estilos como rap, hardcore, sons africanos e palavra dita podemos falar numa nova sonoridade musical?
Não sei se é uma sonoridade nova, mas acontecem sempre coisas novas e também procurei algo de diferente para dar uma ‘pica’ extra. Pela primeira vez cantei em crioulo, mas tive algum pudor nisso porque não falo fluentemente e com frequência a língua. Gostei muito da experiência até porque o poema foi escrito por um primo meu [José Maria Neves, Presidente de Cabo Verde].
Fez um disco aos 40 anos e agora outro em cima dos 50. O que mudou neste período?
Espero fazer outro aos 60 anos (risos). Foi uma década bastante boa para mim, com um somar de experiências na música e na vida. Fui pai pela primeira vez aos 35 anos e, depois, aos 40, isso muda a vida de qualquer pessoa e reflete-se na música. Aquele cliché de sermos menos egoístas com a paternidade acontece mesmo e deixei de pensar em mim em primeiro lugar. Depois, a gestão do tempo é diferente, de repente o tempo ficou mais curto.
Filho de pais cabo-verdianos, canta em crioulo no ‘Quinta-Essência 75/25’. Só agora sentiu esse apelo pelos ritmos africanos ou foi a necessidade de fazer um reencontro com as raízes familiares?
Já tinha feito uma primeira abordagem à música de inspiração africana em 2015. Agora, foi um reaproximar das raízes cabo-verdianas, mas com muitos macaquinhos na cabeça porque sinto que não domino bem o crioulo. Há dez anos, não o teria feito, levo muito tempo a fazer as coisas.
Quando era jovem que músicas ouvia?
Na minha adolescência sempre fui muito influenciado pela música norte-americana, ouvia muito Michael Jackson, e não queria saber da música portuguesa, nem africana. Mais tarde, descobri que a música portuguesa tinha coisas muito boas e, mais tarde ainda, comecei a ouvir sons de África. É um som quente, é pulsação e batida.
Não desiste de mudar o mundo e a sua música continua a ter uma preocupação social. No tema ‘Passo a Passo’ diz que: «O mundo não tá feito para mim nem pra ninguém». Considera-se um ativista ou um idealista?
É evidente que tenho alguma coisa de idealista e também de ativista, mas não me posso assumir como tal. Não consigo contornar certas coisas e tenho necessidade de falar sobre alguns temas, de me associar a causas e de estar presente, mas daí a ser ativista vai uma grande distância. Conheço verdadeiros ativistas, que nunca desligam do tema, eu não sou essa pessoa. Contudo, fico satisfeito quando as pessoas dizem que gostam do meu trabalho e que as letras e a abordagem a uma série de temas fazem falta numa altura em que temos o Trump no poder, o crescimento da extrema direita e da xenofobia e vários conflitos a nível mundial. Esse retorno é muito importante.
Hoje em dia, é muito fácil assobiar para o lado?
Sem dúvida. As pessoas que têm algum tipo de exposição não se querem associar publicamente a causas porque têm medo do impacto negativo que isso possa ter na sua visibilidade.
Num mundo em completa desordem, deixou de haver uma inquietude social?
Vivemos numa sociedade muito polarizada e qualquer posição que tu tomes é sempre vista contra alguém ou contra alguma coisa e isso não me agrada nada. Não posso ser contra o genocídio na Palestina sem ser considerado antissemita, e é óbvio que não sou antissemita. Aliás, defendo todas as etnias e religiões.
Disse que tinha «saudades de não sentir nada». Era mais feliz quando não conhecia o lado errado da vida?
A expressão inglesa ‘the ignorance is bliss’ (a ignorância é felicidade) faz muito sentido nos dias de hoje. Com a quantidade de coisas negativas que aconteceram nos últimos 10 anos dá vontade de não sentir nada, e o não sentir nada tem a ver com o lado emocional e o mal que isso provoca em mim. Antes, estava muito ‘anestesiado’, é mais pacifico viver assim, só que, nesse registo, a vida passa-nos ao lado.
O que não suporta no mundo atual?
Uma das coisas que mais me incomoda é a facilidade com que se mente sobre coisas importantes da política e não só. Temos dirigentes políticos a afirmar coisas que sabem que são mentira com total impunidade. Essas pessoas deviam ser punidas por isso. Chegámos ao ponto do vale tudo e isso é muito perigoso. Antigamente, as pessoas acreditavam naquilo que lhes era contado porque não tinham possibilidade de confirmar, agora é diferente. A falta de empatia é outra coisa que me incomoda bastante, mas há muito que o ser humano é assim.
E na música, o que mais o aborrece?
Há uma coisa que me irrita: a vida muito curta do trabalho que fazemos. Existe uma urgência em lançar coisas novas e aquilo que sai num determinado momento, um mês depois passou à história. Há um lado descartável da música pela necessidade de lançar novos trabalhos, o que tornou tudo muito passageiro. Esta dinâmica deixa-me triste porque há músicas que são claramente chiclete, mas outras são bem feitas e deviam ter maior longevidade para podermos continuar a ouvir.
Estamos menos exigentes e escutamos qualquer coisa?
Não digo que está tudo mal, mas o modo como ouvimos música mudou. Há muitos jovens que gostam de música pelo Tik Tok, mas só conhecem a parte que está disponível para ouvirem.
A indústria da música mudou muito. Hoje em dia, é mais fácil ou difícil vingar neste meio?
É verdade que está tudo muito diferente. Quando comecei era muito difícil e caro gravar, hoje em dia, com os meios que existem, podemos gravar em casa e com grande som. Além disso, a divulgação e o consumo da música foram democratizados, o que faz com que haja mais gente a fazer todo o tipo de música. Por outro lado, há uma mistura e complementaridade entre géneros e artistas, o que é uma coisa boa. Quando comecei estava tudo muito dividido, quase que não havia essa ligação, e isso é bastante interessante porque permite evoluir.
O que gostaria de ver acontecer na música portuguesa?
Considero que fazemos música de forma muito inteligente para todos os gostos. O público gosta da música que se faz em Portugal, penso que é a área da cultura com maior ligação às pessoas, o problema é que somos um mercado muito pequeno. Gostava que o setor tivesse maior estabilidade e permitisse a mais gente viver de forma digna da música, mas isso não acontece na música, nem nas outras formas de arte. Há pessoas que têm outras atividades para poder sobreviver. Os músicos com maior notoriedade pelos concertos que dão ou porque passam mais na rádio, se estivessem, por exemplo, nos Estados Unidos tinham uma vida muito mais confortável e não precisavam de fazer outras coisas além da música, em Portugal não têm nada garantido. Isso significa que aqueles que têm menor projeção têm uma vida ainda mais dura.
O rap é um movimento que nasceu de um mal-estar social na década de 70. Ainda hoje é assim?
Este género de música surgiu como uma urgência social para falar de algumas situações vividas em guetos, e era feito por malta que não sabia tocar instrumentos e que colocava a voz por cima da música. Esteticamente, sofreu muitas alterações ao longo dos anos, mas a partir do momento em que a indústria entrou no processo, o rap ficou, de alguma forma, despojado da sua essência primária e o conceito original desvirtuou-se um bocado, mas aconteceu isso com todos os géneros musicais. Quando as músicas atingem um patamar de sucesso, mais cedo ou mais tarde, são absorvidas por um meio muito superior a elas, e perde-se identidade e qualidade.
Um rapper é um músico biográfico?
Na maioria dos casos sim. O facto de se tornar uma coisa de massas levou a que alguns músicos peçam a outras pessoas para escreverem realidades que não são as suas, o que é uma coisa meio falsa. Aquilo que um rapper diz que sente e o relato da sua vida não tem necessariamente de ser verdade. Mas acredito que na maioria dos casos um rapper reporta, com o coração na boca, a realidade crua e difícil que existe à sua volta.
Ao longo de três décadas lançou músicas que são relevantes no património musical, como ‘Assobia Para o Lado, ‘Os Tais’, ‘Viver Pra Sempre’ e ‘Via Láctea’. Sente-se uma inspiração para a geração mais nova?
Gosto de pensar nisso quando me associo e dou a voz a uma causa ou tento alertar alguém para algo. Ganhei consciência de muita coisa na minha vida através de pessoas que eu via como modelos e que escreviam coisas interessantes. Agora, acho que muitas vezes se confunde a pessoa com a arte e não tem como. Por vezes, colocamos as pessoas num patamar muito superior e depois dececionamo-nos. Essa parte de ser um modelo ou uma referência assusta-me um bocado, porque sei que também tenho os meus defeitos. Mas, olhando para a coisa desse lado, agrada-me aproveitar a minha exposição para passar algumas mensagens que não são necessariamente minhas, mas de um bem maior.
Criou uma persona artística e tem grande facilidade para se ligar a públicos de todas as idades. É frequente os mais novos falarem consigo ou pedirem conselhos?
Quando há miúdos mais novos a pedirem dicas eu, regra geral, não digo muito coisa e esquivo-me um bocado. Quando alguém que está a começar na música me mostra um trabalho e pede a minha opinião fico muito desconfortável. Quem sou eu para dizer o que devem fazer do ponto de vista criativo e estético? O síndrome do impostor aplica-se muito a mim nesses casos.
Mas foi durante quatro temporadas mentor de um concurso para jovens cantores, o The Voice Kids…
O que tentei fazer não foi moldar os miúdos, foi perceber aquilo de que eles gostavam, a identidade da voz e, de certa forma, apresentar caminhos e soluções para essa voz. Não estava ali para dizer o que deviam fazer, mas sim como deviam fazer. Nunca conseguiria dar sugestões sobre aquilo que eles já eram numa ótica de os moldar e, eventualmente, inventar um cantor que não existia naquele miúdo. As pessoas mais interessantes com quem trabalhei na produção musical foram aquelas que olharam para mim e deram-me as ferramentas para desenvolver a minha música.
Via-se que havia muita emoção e dedicação enquanto mentor. Foi marcante no seu percurso?
Correu bem, foi uma experiência muito intensa e absorvente para mim. A minha abordagem era diferente, alguns dos miúdos que vieram para a minha equipa também sentiam que eu era o mentor que eles precisavam. Houve momentos que bateram forte em termos emocionais e não estava à espera. Quando dizes a uma criança que o caminho dela terminou naquele momento é uma coisa horrível. É incrível, mas a maioria dos miúdos portou-se muito bem nesse aspeto, eu ficava pior. Aquilo mexe muito.
Saindo do conforto do estúdio, gosta de andar na estrada em tournée?
Gosto, mas os tempos são diferentes. Romantiza-se muito a estrada, mas quando tens filhos, essa estrada fica mais longe e já queres vir dormir a casa. Se tivesse de voltar à estrada como aconteceu há 20 anos, porque o sucesso obrigava a isso, acho que não iria gostar muito.
Vamos ter novidades este ano?
Sim, vou fazer concertos muito diferentes, desde auditórios a festivais. Vai ser um ano meio maluco nesse aspeto, mas gosto dessas experiências.
Percorreu o país, esgotou salas e encheu festivais a solo e com os Da Weasel. A afinidade que cria com o público dá algum conforto?
Seguramente. A música dá-me uma liberdade que de outra forma não conseguiria ter na minha vida. Se um concerto corre bem, há umas festinhas no ego e ficas porreiro. Quando as coisas correm bem, a malta está a tocar bem e o público a responder há uma liberdade e um despojamento que é algo de muito especial, seja enquanto músico, seja enquanto fã de música. Sinto isso de uma forma muito intensa, é quase tão bom como o sexo. Sei que é um sentimento um bocado egoísta, mas se estiveres a fazer tudo bem as pessoas também vão gostar. Agora, se fizeres isso todos os dias, da mesma forma, perde-se esse encanto. Dou graças por não estar num país como os Estados Unidos, onde é tudo muito intenso, é de loucos. Se calhar não tinha chegado a onde cheguei, já tinha parado.
O look é muito importante num músico?
Depende muito da pessoa e da música. Há pessoas que oiço com muita atenção e isso torna-se secundário, há outras que não. Se o look for genuíno está tudo certo, pode ser o que quiser, tem é de ser genuíno. Numa pessoa espampanante como a Lady Gaga vemos que bate tudo certo, pode ser também um tipo com calças de ganga e t-shirt surrada, mas se for a cena dele está bem. Também consigo desmontar facilmente uma coisa que não cola. Quando vejo muito exagero não acho piada nenhuma.
O importante é estar bem na fotografia no final do dia?
O importante é ter uma identidade que nos defina e diferencie das outras pessoas. Eu consigo ir contra muita coisa, contra aquilo que é genuíno não consigo ir. Posso não gostar da chamada música pimba, mas quando olho para uma pessoa se ela for aquilo que representa está tudo certo e merece todo o meu respeito porque é a sua verdade.
Depois de 30 anos da carreira, o que vem a seguir?
Gostava de não me cansar de fazer música e de tocar. Houve uma altura em que pensei deixar a música, mas não consegui. Gostava de fazer algo de diferente. Era giro que a vida me trouxesse alguma coisa nova nesse departamento.
E qual seria o departamento?
Gostava de ter disponibilidade e método para trabalhar na escrita. Não seria um romance, mas sim contos, que é um formato de que gosto bastante e tenho algumas coisas na gaveta, mas que não estão suficientemente trabalhadas. Com uma vida menos intensa, é possível que me dedique mais à escrita a ver se funciona.