Wagner Moura. O ator que está a fazer história

Há vários anos que tem uma carreira internacional. Já em pequeno sabia que estava destinado a sair do seu país, mesmo não percebendo o porquê. Estava certo e, apesar de ter estudado jornalismo, foi na representação que encontrou o seu lugar. Depois de ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator, Wagner Moura volta a fazer história ao tornar-se o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator nos Óscares 2026, pelo seu papel no filme ‘O Agente Secreto’

Sempre quis fazer coisas que o desafiam, que o fazem descobrir partes de si que não conhecia. Quando era pequeno, sempre houve qualquer coisa que lhe dizia que iria romper com as fronteiras, que estava destinado a grandes voos, apesar de se considerar um jovem «estranho». Não tinha amigos, não queria ser amigo de ninguém. Começou a fazer teatro aos 15 anos e, já nessa altura, sentia que era bom. Aliás, foi isso que o fez mudar a forma de ser e estar. Queria ser amigo dessas pessoas «fora da caixa». «Eu sou isso», pensou na altura. Depois de experimentar, não teve dúvidas: era isso que queria fazer para o resto da vida. E estava certo, já que o seu caminho tem sido brilhante. Segundo o mesmo, a sua força está «nas raízes», é isso que o faz ser um «artista interessante» no estrangeiro. Com os olhos postos nessa ideia, aquilo que mais quer é ser ele mesmo, o mais próximo daquilo que é, ou daquilo que imagina ser. «Ser menos uma criação social. Porque a gente quer que as pessoas gostem da gente, quer agradar... Todos nós somos um pouco um personagem social. Eu fico querendo não ser, embora seja», confidenciou em 2017, numa conversa com Michel Melamed, disponível no Youtube. «Quero ter menos a máscara. Quero chegar em qualquer lugar e ser sempre do mesmo jeito», acrescentou.



Um orgulho para o Brasil

No princípio do mês, o cinema brasileiro fez história ao vencer duas estatuetas nos Globos de Ouro, com o filme O Agente Secreto a ser considerado o Melhor em Língua Não Inglesa e Wagner Moura a ser distinguido como Melhor Ator. «O Agente Secreto é um filme sobre memória, a falta de memória e trauma geracional», disse ao aceitar o prémio. «Se o trauma pode ser passado de geração em geração, os valores também podem», continuou, dedicando o Globo de Ouro aos que continuam a «defender os seus valores em momentos difíceis». Recorde-se que esta foi a primeira vez que o Globo de Ouro de Melhor Ator foi entregue a um brasileiro. Antes disso, na estreia mundial no Festival de Cannes, o filme esteve selecionado para disputar a Palma de Ouro e, na cidade francesa, o ator ganhou o prémio de interpretação masculina, tornando-se o primeiro brasileiro a recebê-lo. Depois, foi eleito melhor ator do ano pelo Círculo de Críticos de Nova Iorque. Esta semana, Wagner Moura também se tornou no primeiro brasileiro nomeado para o Óscar de Melhor Ator, um feito conseguido pela sua interpretação no mesmo filme – realizado por Kleber Mendonça Filho –, que também está nomeado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Casting.

Foi o preparador de elenco da longa-metragem o responsável por informar Wagner Moura que este estava nomeado. O artista brasileiro estava num avião, com internet instável, no momento em que os nomes foram anunciados, na manhã de quinta-feira, 22 de janeiro. Numa imagem partilhada por Leonardo Lacca nas redes sociais, Moura aparece sorridente no print da videochamada. «O caba tava no avião, com internet ruim e gente dormindo do lado», escreveu na legenda. «Léo, você é sempre o arauto das notícias incríveis quando estou em situação de não poder comemorar e abraçar ninguém», afirmou o artista, conforme relato do próprio.

De Rodelas para Salvador

Wagner Moura nasceu em 27 de junho de 1976 em Salvador, na Bahia. Porém, não passou toda a infância nesse lugar. A família mudou-se para Rodelas, uma pequena cidade no sertão do norte da Bahia, a cerca de 540 km de Salvador, onde viveu grande parte dos seus primeiros anos. «Rodelas é uma cidade linda. Tenho uma memória de uma cidade idílica. Queria voltar lá para mostrar a cidade para os meus filhos, mas eu fico sem querer ir porque é outra cidade, e eu tenho medo de apagar aquela memória tão boa que eu tenho dali», comentou numa entrevista em 2011.

No podcast Podpah, o ator contou que, quando tinha 10, essa cidade foi inundada pela barragem do rio São Francisco, devido à construção de uma hidrelétrica, o que obrigou as pessoas a mudaram-se para um outro lugar chamado Nova Rodela. Facto que o deixou triste. Não queria sair dali. Aliás, existe um vídeo que viralizou nas redes sociais, que o mostra a ser entrevistado por um repórter de televisão e onde diz isso mesmo. «Tenho vontade de mudar não. Aqui é o lugar que a gente brinca, sempre se diverte, tem as coisas todas aqui. Lá é tudo estranho para a gente», lamenta.

Depois, o pai que era militar da aeronáutica e a mãe, doméstica, decidiram mudar-se de novo. Desta vez para Salvador, em busca de mais oportunidades. «O meu pai queria que nós estudássemos. As escolas que frequentávamos naquela época, eram bem precárias. Entrava uma cabra ou uma galinha na sala de aula. Então o meu pai falou: ‘Não. A gente tem de ir para Salvador que lá vai ter escolas melhores para você e para a sua irmã’», partilhou na mesma conversa. «Ele sofreu muito. Conseguiu uma bolsa e pagava a escola particular, minha e da minha irmã como se fosse um. Ele conseguiu isso se matando a trabalhar?», revelou ainda o ator. Wagner era um bom aluno do Colégio Mendel: «O meu pai fazia esse esforço. Eu não podia desiludir».

A mudança de Rodelas para Salvador foi difícil. «Eu sentia que não tinha nada a ver com aquele menino da escola particular (...) O meu apelido era óvni. Eu era estranho, andava meio sozinho, não tinha amigo e ficava na minha», admitiu. A rotina era escola/casa/casa/escola. Até que entrou para o grupo de teatro da escola e tudo mudou. Foi através de uma colega que conheceu o Grupo Pasmem e sentiu que se encaixava no meio. Mais tarde começou a atuar em peças e acabou por construir uma amizade com os também atores Lázaro Ramos e Vladimir Brichta. «Sou resultado do lugar de onde vim, da minha infância, do contexto cultural onde fui forjado, tanto do sertão da Bahia quanto de Salvador. Do que vi, do que vivi, do que vi de produção cultural, de produção artística em Salvador, de estar ali naquela cidade com aquelas pessoas», disse numa entrevista ao Papo e Segunda, mostrando que apesar do princípio na cidade ter sido difícil, as coisas acabaram por melhorar.

O jovem não deixou a interpretação de lado, mas optou por seguir para a Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde estudou jornalismo na Faculdade de Comunicação (Facom). Acreditava que precisava de uma formação «séria» e estável e descreveu esses tempos como determinantes para a sua carreira no cinema.

Concluiu a licenciatura em 1999 e chegou a trabalhar como repórter e colunista social num programa da TV Bahia (afiliada da Globo) chamado Michelle Marie Entrevista. No entanto, a sua paixão pelas artes falou mais alto e, aos 21 anos, acabou por chamar a atenção com a sua interpretação na peça Abismo de Rosas, pela qual ganhou a estatueta de Ator Revelação no Prémio Braskem, em 1997. Em 2000, após o sucesso da peça A Máquina – em que contracenava com Vladimir Brichta e Lázaro Ramos –, Wagner Moura decidiu dedicar-se totalmente à representação. Mudou-se então para o Rio de Janeiro com a sua namorada, a jornalista e fotógrafa Sandra Delgado, e acabou por se casar com ela um ano depois. O casal tem três filhos: Bem, Salvador e José.

Sucesso atrás de sucesso

No mesmo ano em que triunfou nos palcos e depois de participar em duas curtas-metragens, estreou-se no grande ecrã com um papel pequeno no filme Sabor da Paixão, que também contou com Penélope Cruz e Murilo Benício no elenco. Em 2001, teve ainda uma participação em Abril Despedaçado, filme realizado por Walter Salles (o mesmo que realizou Ainda Estou Aqui), que esteve nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Filme Internacional. Na mesma altura, começou a aparecer na televisão. Um dos seus primeiros papéis foi no episódio Os Safados da segunda temporada de A Grande Família, em 2002, interpretando o personagem Chicão. O artista chegou a dizer em entrevistas que estava «louco para aparecer na televisão». Queria que a sua mãe o visse. Fez ainda séries e novelas como Sexo Frágil, em 2003; A Lua me Disse, dois anos depois; e Paraíso Tropical, em 2007. Seguiram-se participações em filmes como As Três Marias, O Caminho das Nuvens, O Homem do Ano, Deus é Brasileiro e Carandiru, realizado por Hector Babenco, onde interpretou o preso Zico, um dos seus grandes papéis.

Foi em 2007, com o filme Tropa de Elite, onde interpretou o Capitão Nascimento, que Moura ficou realmente conhecido como um ator extraordinário, destinado a grandes feitos. O papel valeu-lhe um grande reconhecimento do público, tanto no Brasil como além fronteiras já que o filme foi premiado com o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim. Em Tropa de Elite 2, lançado em 2010, Nascimento foi promovido a coronel e o filme teve ainda mais sucesso do que o primeiro, tornando-se uma das longas-metragens brasileiras com maior receita de bilheteira.

A sua estreia internacional aconteceu três anos depois, no filme Elysium, onde atuou ao lado de nomes como Matt Damon e Jodie Foster. Já em 2015, o ator protagonizou a série Narcos, da Netflix. Ao longo de três temporadas, interpretou o papel de Pablo Escobar e chegou a ser nomeado para um Globo de Ouro de melhor ator em série dramática. Para o artista, fazer a série foi um momento muito marcante, tanto na sua carreira como na sua vida. «’Narcos’ foi uma experiência muito forte, não só artisticamente e politicamente, mas como ser humano», já disse várias vezes.

Além de ator, Wagner Moura é realizador e cantor. Marighella foi o primeiro filme que realizou, estrelado por Seu Jorge. A longa metragem é baseada na vida de Carlos Marighella, político, escritor e guerrilheiro comunista brasileiro. «Eu não queria fazer um panfleto político… Eu me interesso pelas pessoas. Todos os personagens, todos os guerrilheiros, estão vivos na tela, são pessoas com conflitos. Se não, viraria vetor de um panfleto político. E quem quer ver isso? Eu não quero», explicou numa entrevista ao JC, em 2021. Mesmo assim, o filme não foi bem recebido no Brasil e o artista acredita que foi censurado, tendo criticado várias vezes a decisão da Ancine (Agência Nacional do Cinema) que impediu que estreasse no país no tempo previsto. «Quando começamos a trabalhar no filme, a ideia era trazer de volta o nome de Marighella. Mas então o filme se tornou sobre pessoas que estão resistindo até agora, não apenas sobre aqueles que resistiram então», acrescentou, defendendo ainda que «o Brasil está completamente polarizado, de uma maneira muito estúpida». Moura sempre achou que «a arte é política», independentemente do que se faz. «Às vezes você assiste a uma comédia despretensiosa e aquilo te traz algum tipo de questionamento, de transformação», acredita.