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Oito vinhos produzidos pelo prestigiado Château d’Yquem há mais de 130 anos foram restaurados após terem passado décadas escondidos sob o soalho de uma capela medieval na República Checa.
As garrafas fazem parte de uma coleção excecional composta por pelo menos 130 vinhos e aguardentes históricas, cujo valor estimado ronda os cinco milhões de dólares.
Entre as raridades encontram-se exemplares de finais do século XIX, incluindo colheitas como Pedro Ximenes 1899 e Porto 1892.
A coleção foi descoberta no complexo medieval de Becov nad Teplou, no oeste da República Checa, uma propriedade que pertenceu à família aristocrática Beaufort-Spontin durante o período do antigo Império Austro-Húngaro.
Escondidos após a Segunda Guerra Mundial
A propriedade foi confiscada pelas autoridades checoslovacas em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Com a ausência dos proprietários, os vinhos permaneceram escondidos durante décadas sob o pavimento da capela do castelo, juntamente com um valioso relicário religioso.
O esconderijo foi descoberto pela polícia secreta comunista em 1985. No entanto, enquanto o relicário foi imediatamente enviado para restauro e posteriormente colocado em exposição pública, as garrafas acabaram praticamente esquecidas.
A redescoberta só ocorreu há cerca de uma década, durante um inventário patrimonial, dando início a uma complexa operação de recuperação.
Château d’Yquem liderou processo de restauro
O Château d’Yquem, uma das mais prestigiadas propriedades vinícolas francesas, assumiu a responsabilidade pela recuperação das garrafas produzidas em 1892 e 1896.
O processo incluiu a substituição de rolhas e a aplicação de novas cápsulas protetoras para preservar o conteúdo.
“Provámos uma amostra para garantir que, em termos de equilíbrio e perceção geral, o vinho correspondia a um Château d’Yquem daquela época”, explicou o mestre de adega Toni El Khawand.
As análises laboratoriais confirmaram a autenticidade e a origem dos vinhos.
Contudo, devido à lenta oxidação sofrida ao longo das décadas, foi necessário proceder à decantação do conteúdo, permitindo que apenas cinco garrafas originais fossem devolvidas totalmente preenchidas ao castelo de Becov.
"Abrir estas garrafas é abrir o próprio tempo"
Para os especialistas envolvidos no projeto, a prova dos vinhos representou uma experiência única.
Toni El Khawand descreveu o momento como "mágico", destacando a surpreendente frescura preservada após mais de um século.
Segundo o enólogo, o elevado teor de açúcar ajudou a garantir a longevidade do vinho, que ainda apresenta uma acidez notável.
Entre os aromas identificados destacam-se notas de cedro, frutos secos, açafrão, canela e noz-moscada, além de características clássicas dos antigos Château d’Yquem, como chocolate, café e madeira de oud.
“Na verdade, abri-lo é como abrir o próprio tempo”, afirmou.
Valor histórico supera valor financeiro
Apesar de o Instituto Nacional do Património da República Checa estimar que a coleção poderia alcançar vários milhões de dólares num eventual leilão, os responsáveis descartam, para já, qualquer intenção de venda.
Para Toni El Khawand, de acordo com a agência AFP, o verdadeiro valor destas garrafas vai muito além do aspeto financeiro.
“Acima de tudo, têm um valor moral e histórico”, sublinhou.
O castelo de Becov pretende agora expor toda a coleção ao público e lançou uma campanha de angariação de fundos para financiar novos estudos e trabalhos de conservação.
A responsável pelas coleções do castelo, Katerina Nyvltova, revelou que a instituição espera aprofundar a análise científica dos vinhos e, se possível, recuperar mais exemplares.
“Se conseguirmos restaurar o restante conteúdo, certamente não perderemos essa oportunidade”, afirmou.
A descoberta e recuperação destas garrafas constitui um dos mais notáveis projetos de preservação vínica dos últimos anos, oferecendo uma rara janela para a história da enologia europeia do século XIX.