É a escolher! É a escolher, freguesas! Quentinho e barato!». Fernando Leitão tem 56 anos e a garganta afinada para o pregão. É um dos feirantes, na Feira da Brandoa, Amadora, onde a VERSA foi descobrir mais sobre estes profissionais. «Os meus pais já faziam o mesmo. Antigamente, era o carro dos cobertores, andavam de feira em feira, ou até pelos bairros das cidades, com a carrinha e chamavam os fregueses pelo microfone».
Fernando vende têxteis lar e reserva os domingos para a Feira da Brandoa. Mas, por aqui, não se pode fazer barulho. «Na zona de Lisboa não deixam, por causa das leis do ruído. Aqui não deixam mas há sítios onde até nos chamam para lá irmos». Nos outros dias da semana percorre o Sul do país, onde mantém esta tradição, de microfone em riste. «Ui, digo tanta aldrabice ao microfone!», brinca. «Ando pelo Alentejo, pelo Algarve. Faço feiras por todo o país. Só ao sábado e domingo é que estou em Lisboa. A camioneta tem lá dentro uma cama para dormirmos».
Ser feirante é, para Fernando tal como para outros tantos, um modo de vida hereditário. «Isto já nasce com a gente. Quem é feirante há de sempre ser feirante! Nunca pensei em fazer outra coisa na vida, segui o caminho dos meus pais». Já as filhas têm outras ambições. A mais velha estuda Farmácia. Ao todo são cinco e, quando o pai está nas feiras, são as duas mais velhas que tomam conta das mais pequenas. «Vou eu e a minha mulher, de feira em feira. Também tenho uma roulotte, quando é para ficar mais dias fora, para podermos levar mais coisas».
O dia começa ainda noite para os feirantes. «Vim para aqui eram quatro da manhã», comenta Fernando, emoldurado pelo colorido dos edredons, lençóis, tolhas, cobertores, robes ou pijamas. E, apesar de não ter ganhos fixos, não se queixa. «Clientela há sempre. As feiras dificilmente podem acabar. O que pode mudar somos nós, os feirantes. Os mais novos não querem esta vida, nós vamos acabando, e depois vêm pessoas de fora para nos substituírem», afirma, de olho no vizinho indostânico que vende rádios a pilhas e outras pequenas bugigangas.
Infância na feira
Quem também não troca a feira por outro local de trabalho é Bernardo Morgado, de 25 anos, que vende frutas frescas e frutos secos. Tal como Fernando, a profissão é de família. «O meu pai também sempre foi feirante. Além disto, sou assador de castanhas, costumo estar no Largo do Rato ou junto ao Centro Comercial da Portela. Esse negócio das castanhas também vem de família, de uns tios, de Chã da Beira, perto de Lamego».
Bernardo anda pelas feiras desde os cinco anos. «Sempre fui habituado a isto e não me vejo a fazer mais nada», afiança. A escola não era com ele e saiu assim que pode. «A minha avó sempre me disse que tinha de trabalhar; se não trabalhasse não comia (encolhe os ombros). Nunca estudei muito, cheguei ao 10º ano e saí logo. Fiz um curso, porque era obrigado a andar na escola, mas queria mesmo era vir para aqui. A gente vê muitas notas na mão e isto é um bichinho».
Namorada não tem; amigos são poucos. «Não tenho tempo. Chego à feira de madrugada e depois é montar isto tudo, o que leva duas ou três horas. Muitas vezes, somos os primeiros a chegar e os últimos a ir embora». Mas, para Bernardo, compensa. Ainda assim, dá conta de que tem um negócio sensível. «Há alturas em que apodrece muita fruta por não termos mais condições. Tenho duas câmaras frigoríficas que custaram à volta de 15 mil euros; tenho um carro frigorífico e, só o motor de frio, custou 10 mil euros. Os lugares na feira estão caríssimos. Aqui na Brandoa, entre empregados, lugar e comes e bebes, tenho 500 euros de despesa por domingo».
Federação quer mudanças na lei
Joaquim Santos é o presidente da Federação Nacional das Associações de Feirantes (FNAF) e tem-se empenhado em melhorar as condições destes comerciantes. «Era preciso algum incentivo, sobretudo para quem começa, para as carrinhas. As carrinhas são o nosso ativo, para andarmos de feira em feira. Hoje os incentivos não são praticamente nenhuns», garante.
Por estas e outras questões a FNAF reuniu-se com o Governo em dezembro. «Há uma lei a que estamos sujeitos, que é o RJACSR (Regime Jurídico de Acesso e Exercício de Atividades de Comércio, Serviços e Restauração) que nos penaliza completamente e que determina as normas da atividade», prossegue Joaquim Santos. E avança com outros problemas, também enumerados por muitos feirantes. «Em certos locais as taxas são muito altas. Além disso temos de contar com o tempo e muito. Há dias bons mas também temos uma certa instabilidade meteorológica que nos deixa muitos dias em casa».
De volta à Feira da Brandoa, à medida que o tempo passa vão chegando mais clientes. São obretudo pessoas de meia-idade e idosos. Só na zona dos bares se encontram mais jovens. Muitos comem bifanas e sopa às sete da manhã. «É mais o pessoal que vem da noite que come a sopa», explica Tatiana Gonçalves, responsável por uma das três roulottes da feira.
No lugar de frutas de Bernardo trabalha também a irmã, Inês, de 20 anos. «Isto já vem de família, dos avós, já é uma tradição. Começou com a minha avó, que vendia fruta numa praça. Depois começámos a vender noutros tipos de feiras, várias feiras, e foi sucedendo, de geração em geração», recorda a jovem, que anda pelas feiras desde os 10 anos. Conta que começou logo a ajudar no negócio com essa idade mas antecipa um futuro diferente daquele do irmão. Está a estudar Economia e Gestão e quer ser gestora financeira.
Enquanto estuda e se dedica à fruta, Inês destaca, neste domingo chuvoso, que o clima conta muito para o sucesso das vendas. «A chuva e o vento são um problema, tanto para nós montarmos a banca, como para a clientela, que não vem tanto à feira». A falta de dinheiro também atrapalha no negócio. «Posso dizer-lhe que uma das coisas mais difíceis neste trabalho é a comunicação com o público. A clientela está mais complicada. As pessoas não têm muito dinheiro, verdade seja dita. Às vezes, se há uma fruta mais tocada, que seja mais barata, as pessoas ainda regateiam mais. Ou seja, já não é fácil como antigamente. Antes as pessoas compravam e não diziam nada. Hoje em dia já discutem muito».
O desperdício, tal como Bernardo já tinha dito, é outra questão. «As frutas às vezes estragam-se de um dia para o outro. Imagine, à segunda não tenho mercado, depois só volto a vender na quinta-feira e muita fruta já não está em condições».
Há algum prejuízo mas estes feirantes partilham com quem precisam o que já não presta para vender. «Só guardamos o que estiver bom. De resto, a fruta que está mais tocada damos a um senhor, que a vem buscar para os animais».
Concorrência dos hipermercados
Mais adiante encontramos a banca de Sónia Marques, de 50 anos. Vende panelas, copos, talheres e outros utensílios para cozinha. «Sempre fui feirante, nunca tive outra profissão», adianta. «Comecei com os meus pais que já vendiam louça, aos 16 anos, e fui continuando».
Em dias de feira salta da cama às quatro e meia da manhã. Só para montar a banca demora duas a três horas. Sai da feira lá para as cinco da tarde. Apesar do esforço, mostra-se desiludida. «Ultimamente, ser feirante não compensa. A oisas aumentaram muitos e as pessoas têm muito por onde escolher, nos supermercados e hipermercados». O espaço que ocupa fica-lhe por 130 euros ao mês. «Torna-se bastante caro, porque também faço outras feiras e, claro, também tenho de pagar esses espaços».
Sónia gostava de mudar de vida mas não sabe como. «Neste momento, se pudesse trocava esta profissão por outra, mas como nunca fiz outra coisa, não sei onde é que me encaixava».
Jorge Ferreira, de 70 anos, junta-se à conversa. Não passa um domingo sem vir fazer compras à Feira da Brandoa. «Uma vez vim com uns amigos e pronto. Depois comecei a vir sozinho. Venho bem cedinho, de manhã, porque não posso perder tempo. Quando a minha mulher era viva, ainda tinha de ir para casa tratar dela e fazer o almoço. Agora sou viúvo, mas tenho a miúda (enteada) que também é deficiente e precisa de ajuda».
Dramas fora, Jorge não perde a boa disposição. Aliás, esse é um dos motivos que o leva à feira. «Venho pelos preços, pelo convívio e pela brincadeira. Venho sempre aos mesmos vendedores, já toda a gente me conhece, e brinca-se muito com eles. Passa-se aqui um bocadinho bom. Eu gosto».
"Até os turistas gostam"
Os pregões continuam. Aqui há de tudo: desde o mais básico ao mais exótico, como galinhas, pássaros e até hamsters. Há plásticos coloridos, cãos e gatos de louça, calças, camisas, sapatos, casacos de peles falsos, colheres de pau gigantes, quinquilharias, muita cor e movimento. «Ninguém enriquece nisto. Apenas enriquecemos o país com uma tradição e uma cultura. E isso deve ser respeitado pelos governos», acrescenta Joaquim Santos, da FNAF. «Até os turistas gostam! Aliás, devíamos pensar, em colaboração com as entidades oficiais, em termos alguma formação em línguas estrangeiras, para podermos comunicar melhor. Se bem que a melhor maneira de um português comunicar é através de um sorriso».
Perdemos Jorge Ferreira de vista. Mais tarde, iremos encontrar o mega fã da feira ataviado das mais variadas mercadorias. «Para mim só levo um queijo. As outras coisas são para amigos e vizinhos que me pedem. São as encomendas», ri-se o septuagenário. «Aqui a qualidade e o preço são excecionais. Ainda há uma semana levei a fruta para uma vizinha. Ela diz que paga, por uma manga, dois euros, no supermercado. Eu levei-lhe 10 mangas por quatros euros! É um preço espetacular».
Estamos agora junto a uma imensa banca onde não faltam centenas de pares de meias e cuecas. Eduardo Jorge Lopes, 54 anos, é o feirante que se segue. Em miúdo trabalhou com o pai na construção civil mas nunca gostou. Aos 14 anos, através de um amigo, foi para a feira. Era empregado quando conheceu a mulher, Judite, também empregada na mesma banca. O patrão era negociante de lingerie e Eduardo seguiu o mesmo negócio, estabelecendo-se por conta própria em 1995, com apenas 24 anos. «O bichinho pegou mas sou o único da minha família que é feirante».
Eduardo Jorge sabe bem o que o espera nos dias de feira. «Todo o trabalho é cansativo. Para montar tudo, entramos aqui às quatro da manhã e acabamos até às oito. Quando chove ainda é pior. Para desmontar são outras quatro horas, porque as estruturas são grandes». O espaço tem uma boa área e fica-lhe por 430 euros por mês. A esta taxa juntam-se as das outras feiras onde trabalha: Ladra, Cascais e Malveira.
Apesar de tudo, Eduardo fala com entusiasmo. «É preciso é gostarmos do que fazemos. E eu adoro conviver, falar com o público. Faço cinco feiras por semana, convivo com várias pessoas diferentes. Todas as semanas temos clientes novos», conta, com um olhar vivo. Vende apenas em feiras na região de Lisboa mas garante que é na Brandoa que vende mais.
Vai buscar a mercadoria ao Porto Alto e ao Martim Moniz e não tem medo da concorrência. «Sempre houve lojas. Claro que dantes não havia centros comerciais e vinha tudo à feira. Agora, é como tudo, os clientes espalham-se, enquanto antigamente tinha de se vir à feira comprar».
Eduardo Jorge e Judite têm um filho com 34 anos e uma filha. «Ele é engenheiro e ela está a tirar um mestrado. Não querem nada disto! Pouca gente gosta, porque é difícil. Hoje levantei-me às três da manhã para estar aqui às quatro».
Jovens precisam-se
Joaquim Santos, presidente da FNAF, adverte para o perigo da descontinuidade das feiras, a médio e longo prazo. São precisos jovens, tanto para vender, como para comprar. «Hoje vê-se muito pouca juventude a vir à feira. Precisamos de jovens na feira, feirantes e fregueses. Queremos criar o hábito de que as pessoas voltem à feira. Precisamos que a juventude não deixe morrer estas tradições e esta cultura».
Mas para que os jovens continuem estes negócios de família ou se estabeleçam por sua iniciativa, Joaquim Santos, mais uma vez, apela a quem governa. «Futuramente, temos de trazer mais alguns jovens para esta atividade. Mas para isso, temos de ter o Governo e as nossas entidades máximas a pensar e simplificar esta atividade, além de criar uma tributação especial para os feirantes».
O dirigente da FNAF aproveita, ainda, para apregoar a qualidade dos produtos que se vendem nas feiras, sobretudo frutas e hortícolas. «A qualidade, para quem compra, dos legumes, das frutas, não tem nada a ver com o que se compra nos supermercados e hipermercados».
Apesar de alguns produtos serem importados muitos feirantes ainda têm fornecedores locais. «Temos muitos desses produtores a trabalhar com os feirantes. São esses produtos que se pode, muitas vezes, encontrar na feira. Se calhar, muitos legumes, muita parte do que as pessoas comem, é colhido hoje para ser vendido amanhã. E isso é muito bom», sublinha.
Do computador para o forno
Jorge Ferreira, já acabou as compras. Despede-se da feira com um pão com chouriço quentinho e um copo de traçadinho (vinho com gasosa). Vamos no seu encalço e encontramos Gonçalo Patrão, de 24 anos, que ali tem uma camioneta transformada em padaria ambulante. «Toda a minha família trabalha neste setor. Isto é um negócio que começou com a minha avó. O meu pai e a minha tia começaram a vir, que são os filhos. E entretanto nós, os netos, também começámos a ajudar».
Gonçalo licenciou-se em marketing e esteve dois anos a trabalhar nessa área. Desistiu e juntou-se à família. «Sinto-me mais realizado aqui do que a passar os dias em frente ao computador». Tal como a maioria dos feirantes, começou cedo a ambientar-se. «Desde pequeno que vinha ajudar o meu pai e sempre gostei muito disto. Gosto muito de trabalhar com as mãos, acho muita piada».
Estar a trabalhar no forno a lenha é o que prefere e orgulha-se da padaria ambulante, instalada numa camioneta, que foi transformada pelo pai para esse fim. «A produção é local, acaba por ser um pouco mais complexo. Não é só trazer o pão e vender. Fazemos tudo aqui, desde a máquina que está a trabalhar agora (amassadeira), até mexer o pão, à venda, temos tudo aqui. Temos três carros destes».
Em som de fundo ouve-se a amassadeira. Em frente, a um ritmo frenético, outro familiar recheia a massa. Além do tradicional pão com chouriço há outras receitas: pão com torresmos, queijo e fiambre e farinheira. Provámos o último e podemos confidenciar que estava delicioso.
A família Patrão é originária do Pobral, um pequeno lugar na região de Ericeira, Mafra. «Somos mesmo da zona do pão saloio», orgulha-se este doutor feirante.