Passados dois anos e meio de vida em Londres, comecei a sentir que algo em mim pedia mudança. A rotina estava demasiado afinada, a vida demasiado organizada, tudo demasiado confortável. E, por mais estranho que pareça, foi exatamente isso que me inquietou.
A cidade que antes me desafiava, que me obrigava a correr atrás do metro e dos meus sonhos, começou a parecer-me pequena dentro da sua própria imensidão. Já sabia onde tomar o melhor café, tinha os meus lugares preferidos, os meus amigos certos, as minhas segundas-feiras iguais. Estava tudo “settled”, como dizem os ingleses, e eu, que sempre gostei de uma boa aventura, percebi que era hora de me mexer... Talvez seja isso o que mais me define: esta incapacidade de ficar quieta quando a vida começa a parecer demasiado certa.
Queria conhecer pessoas novas, descobrir outros mundos, perder-me noutras ruas, noutras línguas, noutros ritmos.
Comecei então a planear um ano sabático. Sabia apenas duas coisas: queria sair da Europa e a América do Sul chamava-me com força, natureza em excesso, caos no bom sentido e aquela sensação de que tudo podia acontecer. Mas não queria uma viagem qualquer; queria uma experiência que me tirasse do previsível.
Foi no carnaval do Rio de Janeiro, em 2023, que conheci um francês e um alemão que tinham atravessado o Atlântico à boleia. À boleia! A ideia pareceu-me absurda, mas quanto mais pensava nela, mais fazia sentido. Passei noites inteiras a pesquisar “como atravessar o Atlântico num veleiro (sem ser sequestrada no processo)” e, entre conversas com amigos de amigos, acabei por chegar ao nome de Norberto Serpa.
Descrever o Norberto é fácil: é o verdadeiro lobo do mar. Vive entre o Faial e o oceano, sente o vento e as marés como se fizessem parte dele, e fala de barcos com a paixão de quem lhes deu metade da vida. Já deu a volta ao mundo e continua com a curiosidade de quem o faz pela primeira vez. Quando falámos ao telefone, ele quase não me fez perguntas. Eu, confiando cegamente no destino, comprei o bilhete para a Horta.
No dia 6 de outubro de 2025, parti para aquilo que pressinto ser uma das maiores aventuras da minha vida. Mal aterrei, veio o primeiro desafio: chegar à marina. Não havia autocarros e os táxis custavam uma pequena fortuna, por isso decidi ir à boleia. Dois minutos depois, já estava no carro do Rui, que não só me levou até à marina como ainda me ofereceu histórias de vida suficientes para metade da travessia.
Na marina, encontrei finalmente, o meu capitão. O Norberto recebeu-me com um sorriso e uma frase que me acompanharia nos dias seguintes: «O barco está atrasado… e meio desviscerado». O motor, o gerador e o water maker estavam fora de bordo a serem arranjados, mas uma ajuda seria bem-vinda. E foi assim que tudo começou.
Os dias passaram entre o mar e a oficina: ver baleias, nadar com tubarões e aprender a polir motores sem polir os dedos. A primeira vez que mergulhei com tubarões foi uma mistura de adrenalina, entusiasmo e um certo medo que não quis admitir. Eles aproximavam-se com curiosidade, e bastava um gesto suave para se afastarem. Há algo de profundamente humano nesse encontro com o selvagem, um fascínio humilde, difícil de explicar.
Entre mergulhos e ferramentas, fui aprendendo carpintaria e a arte da paciência. E quando o trabalho deixava espaço, explorava as ilhas. O Faial é um lugar de paz rara, verde, vento e silêncio. Ouvem-se pássaros e ondas, mesmo longe da praia. Já o Pico é pura força: montanha imponente, verde e brava.
Uma semana depois de chegar, subi ao topo do Pico com um amigo chileno. Partimos ao fim da tarde para ver o pôr do sol e, após três horas de subida, a cratera esperava-nos fria e húmida. Fiquei a ver o céu até a primeira estrela cadente cair. Depois, o saco-cama venceu a batalha. O amanhecer foi indescritível, o sol a subir, o Faial ao longe, o mundo inteiro aos meus pés.
Agora, a quatro dias de embarcar no Taka 3 rumo ao Brasil, penso neste mês nos Açores como um capítulo que nunca vou esquecer. Foi aqui que comi peixe pela primeira vez em cinco anos. Ser vegetariana nos Açores é quase um desporto radical.
Levo comigo o mar, o cheiro da madeira e as pessoas que encontrei: viajantes curiosos, ambiciosos e apaixonados pela natureza. Gente que vive devagar, mas sonha alto.
Em breve, parto do Porto rumo ao outro lado do Atlântico onde vou começar um novo capitulo da minha viagem.