Há nomes que chegam antes da própria música. Basta ouvir alguém dizer ‘Trovante’ para que, de imediato, o nosso imaginário se encha de refrães que atravessaram décadas, de estradas a perder de vista, de praias de verão, de carros sem ar condicionado rumo ao Sul, de gravadores de cassetes a engolir fitas gastas de tanto rodar e de inúmeras canetas BIC utilizadas para rebobinar essas mesmas fitas. Para muitos portugueses, os Trovante são precisamente essa banda sonora difusa mas persistente, feita de canções que ficaram coladas a histórias de família, primeiras paixões, viagens em autocarros cheios e tardes de rádio em fundo.
Em 2026, cinquenta anos depois da sua formação, esse universo ganha nova vida com o regresso do grupo aos palcos, num reencontro muito esperado entre a banda e o público que a viu crescer. O anúncio do regresso não foi apenas mais uma notícia do ciclo cultural. Foi recebido como uma espécie de chamamento geracional. As primeiras datas, agendadas para a Meo Arena, em Lisboa (20 e 21 de março), e para a Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, no Porto (27 e 28 de março), rapidamente se destacaram na agenda de espetáculos para 2026, com a promessa de ‘Viver tudo numa noite’ – o slogan retirado da música ‘Memórias de um Beijo’ que condensa o tom deste reencontro.
«Somos completamente inocentes neste processo», começa por explicar, entre risos, a banda à VERSA. Em conversa com Luís Represas, João Gil e Manuel Faria foi possível desvendar novos detalhes sobre os contornos deste regresso. «Partiu de um convite da [produtora] Sons em Trânsito», explicam, admitindo que foi «bastante pacífico» entre os membros da banda aceitar este desafio. Este regresso aos palcos será «uma espécie de sondagem» da dimensão da banda 50 anos depois, afirmam, mostrando-se satisfeitos com os primeiros resultados dessa mesma “prova”: foi preciso abrir novas datas após terem esgotado os primeiros concertos anunciados (21 de março, em Lisboa e 28 de março, no Porto).
A história dos Trovante começa em Sagres, em 1976. A memória do 25 de Abril de 1974 estava ainda bem fresca e Portugal estava a abrir os olhos no dia inicial inteiro e limpo, como dizia Sophia de Mello Breyner. As ruas e os cafés fervilhavam de política e de novidade, e a música era um dos espaços naturais para experimentar, discutir e arriscar. Os Trovante nascem desse caldo de mudança, com uma formação que foi sofrendo alterações, mas que manteve um núcleo duro capaz de criar uma assinatura muito própria, com Luís Represas, João Gil e Manuel Faria. Entre a influência da música tradicional portuguesa, o folk, o jazz, a pop anglo-saxónica e ecos de músicas do mundo, o resultado foi um som que fugia às caixinhas habituais.
Aliás, assim mesmo se descrevem estes três integrantes da banda que falaram com a VERSA: «Nós éramos um bocado esquisitos», rincam, chegando a descreverem-se como «um grupo indie» na altura, que «não tinha nada a ver com o mainstream da altura».
«Em tempos, um produtor disse-nos: ‘vocês bem deviam limpar as mãos à parede com esses coros’, porque não lembravam a ninguém. Mas o que é certo é que aquilo, a nós, soava bem», acrescentam, admitindo que, se fosse para ‘refazer’ a banda agora, poderia bem ser uma «catástrofe». «Aprendemos muitos truques ao longo da vida. Na altura, não sabíamos truques nenhuns. Provavelmente iríamos atrás de qualquer coisa que iria pôr em causa a boa memória que nós temos», dizem, utilizando, ainda uma metáfora para explicar o porquê de essa mesma ‘esquisitice’ e ‘falta de truques’ ter sido fulcral para o sucesso dos Trovante: «As pessoas que andam pelas estradas secundárias conhecem muito mais vilas e lugares do que as que andam nas autoestradas».
“Vamos voltar onde fomos felizes”
Agora, prestes a regressar aos palcos, preferem ir contra o ditado popular: «Há quem diga para nunca voltar onde se foi feliz. Não concordamos, neste caso vamos voltar onde fomos felizes sim», dizem, garantindo que, quando optaram por seguir carreiras individuais, em 1992, houve a «inteligência de acabar bem», sem «arrastar-se por terrenos pantanosos», e os anos de carreira a solo que se seguiram, até à atualidade, também ajudaram a que o regresso agora seja natural. «Não andamos a fazer cirurgias plásticas, ninguém engrossou os lábios», ironizam, afirmando, porém, que «o público hoje em dia é mais competente, mais experiente e mais profissional», o que se traduz também numa maior exigência. Isso sim, «a amizade nunca esteve em causa», fizeram questão de garantir estes três elementos dos Trovante.
Nos primeiros anos, a banda ainda era conhecida sobretudo em circuitos mais atentos às novidades, entre pequenas salas, associações e festivais que apostavam em propostas menos óbvias. Mas a forma como os Trovante tratavam a palavra e o arranjo musical, com letras que não renunciavam à poesia nem ao comentário social e composições cheias de detalhes, começaram a destacar-se. Havia um lado experimental, quase de laboratório, que coexistia com refrães fortes, prontos a serem apropriados pelo grande público. Foi essa combinação que preparou o terreno para o salto que viria a seguir.
A década de 80 trouxe a consagração, consolidando a presença da banda com canções como ‘125 Azul’ e ’Perdidamente’, que se tornaram verdadeiros cartões de visita da banda. Sem grandes artifícios de estúdio, mas com arranjos sofisticados, os Trovante conseguiram criar músicas que funcionavam tanto na escuta atenta, ao detalhe, como naquele consumo distraído de rádio e gira-discos em casas cheias. Para quem vivia a adolescência e juventude nesses anos, era quase inevitável ter pelo menos uma canção do grupo associada a um momento importante da vida.
«Estávamos todos a aprender ainda, o país todo a aprender ao mesmo tempo», recordam, puxando a fita da memória para reavivar memórias guardadas no baú do tempo. «Uma vez, na década de 1980, pedimos um palco com 15 metros de boca e duas abas, uma em cada ponta, para colocar as colunas. Chegamos ao local, tínhamos efetivamente 15 metros de boca e, em cada ponta… duas árvores. O senhor tinha percebido mal, e arranjou forma de ter uma árvore em cada ponta do palco, não tínhamos era onde pôr as colunas», recordam, garantindo que esta é apenas uma de muitas histórias caricatas recolhidas durante os cerca de 16 anos em que a banda esteve no ativo.
A década de 80 foi também um tempo em que a televisão e os festivais de verão começaram a consolidar novos hábitos de consumo musical. Os Trovante souberam adaptar-se sem perder identidade. A presença em grandes palcos ajudou a disseminar a música do grupo por um país que se modernizava a várias velocidades. Havia um certo encanto em ver uma banda que não sacrificava a densidade das letras nem a riqueza dos arranjos a ocupar um espaço que, muitas vezes, estava reservado a propostas mais imediatas e descartáveis.
O fim da atividade regular da banda deixou um vazio para muitos fãs. Tal como acontece com outros grupos marcantes, o silêncio que se seguiu alimentou uma aura particular. As canções continuaram a passar nas rádios, os discos mantiveram-se em circulação, e uma nova geração foi descobrindo Trovante ora por via de pais e irmãos mais velhos, ora por acaso, em plataformas digitais e reedições.
De certa forma, a banda nunca desapareceu, limitou-se a mudar de lugar, passando a viver sobretudo na memória e nas estantes de discos.
«No que toca à plateia, em relação, por exemplo, a 1999, que foi o concerto no Meo Arena [na altura, Pavilhão Atlântico] que fizemos por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, convidados pelo Presidente da República Jorge Sampaio… se calhar vamos ter lá as mesmas pessoas, mas sentadas. Porque cada uma delas tem mais 27 anos em cima», antevê a banda, mostrando-se particularmente orgulhosa de ver o seu legado passar de pais para filhos. Isso sim, o objetivo aqui não é «modernizar» as canções nem acrescentar nada de diferente. «Vamos tocar as músicas como as tocámos na altura em que foram feitas. Na nossa sonoridade, estamos a fazer tudo para que nada mude», prometem.
Regressos pontuais depois do fim da banda em 1992, como concertos comemorativos e edições especiais, ajudaram a manter o nome vivo. Mas a ideia de um reencontro mais alargado, pensado para as grandes salas e para um público transversal, foi ganhando força à medida que se aproximava a marca simbólica dos cinquenta anos sobre a formação do grupo.
O plano agora conhecido para 2026 responde, assim, ao desejo de reviver esta icónica banda em palco. Lisboa e Porto recebem os espetáculos marcados para a Meo Arena e para a Super Bock Arena, salas que, por si sós, traduzem a dimensão da aposta. A escolha não é inocente. São espaços associados a grandes eventos e a concertos de artistas internacionais, e colocam os Trovante no mesmo patamar simbólico. Para uma banda que começou em palcos bem mais pequenos, há aqui um percurso que se fecha em círculo: das salas intimistas às arenas cheias, sempre com a crescente cumplicidade do público.
A expressão ‘Viver tudo numa noite’ funciona como chave de leitura para o que aí vem. O desafio é condensar meio século de história em poucas horas de concerto, sem cair numa simples lista de êxitos alinhados em modo nostálgico. A expectativa é que o alinhamento recupere as canções mais marcantes. Para muitos espetadores, será talvez a primeira oportunidade de ouvir ao vivo temas que só conhecem das gravações, o que acrescenta um lado quase arqueológico ao reencontro.
O público mais jovem, por seu lado, chega aos Trovante por um percurso diferente. Em vez de rádios e cassetes, são playlists digitais, algoritmos de recomendação e vídeos partilhados que servem de porta de entrada. Para esta geração, a ideia de ver a banda ao vivo em 2026 tem um sabor quase histórico. É a possibilidade de assistir, em tempo real, a algo que até aqui existia sobretudo como relato de outros, muitas vezes amigos e familiares mais velhos. A convivência entre estas duas formas de pertença, ou seja, os que cresceram com a banda e os que a descobriram em segunda mão, é um dos aspetos mais interessantes deste regresso.
Do lado dos músicos, o reencontro é também um exercício delicado de equilíbrio entre memória e presente. Voltar a tocar canções escritas noutro contexto político, social e tecnológico implica revisitar quem se era quando essas músicas nasceram, mas também aceitar quem se é hoje, décadas depois. Os arranjos podem ser ajustados, as vozes carregam a marca do tempo, os instrumentos soam de forma diferente. Tudo isso faz parte do processo. Em palco, o que se espera não é uma reconstituição museológica, mas uma nova leitura, alimentada pela experiência acumulada.
Aliás, é «imprevisível» o que venha a acontecer em palco, admite a banda, referindo que os ensaios não começaram ainda, mas que «o trabalho de casa já está a ser feito»: entenda-se, por exemplo, aperfeiçoar técnica ao piano, ou recordar letras de músicas escritas há já várias décadas.
Para quem viveu os anos 80 com Trovante como banda sonora, esta reunião terá inevitavelmente um lado de balanço. As canções funcionam como marcadores de tempo, lembrando o que se ganhou e o que se perdeu, o que ficou pelo caminho e o que resistiu. Talvez seja esse o verdadeiro poder deste regresso: oferecer um espaço coletivo onde cada um possa revisitar a própria história, ao mesmo tempo que partilha um presente comum com desconhecidos sentados na mesma fila. O concerto, nesse sentido, é ao mesmo tempo íntimo e público, individual e coletivo.
Num país onde a memória musical por vezes se dispersa entre modas passageiras e fenómenos virais, o retorno de Trovante aos grandes palcos surge como um lembrete da importância de cuidar de um património que é tanto emocional como artístico. Não se trata de viver preso ao passado, mas de reconhecer o valor de obras que continuam a fazer sentido, mesmo quando os contextos mudam. Em 2026, quando as luzes se apagarem e as primeiras notas ecoarem na sala, muitos sentirão que estão a entrar outra vez numa canção que nunca chegou realmente a acabar.
Talvez seja essa a melhor definição para o que está prestes a acontecer. Mais do que um concerto de reencontro, o regresso de Trovante é a continuação de uma conversa interrompida que o tempo não conseguiu calar. Durante umas horas, Lisboa e Porto vão transformar-se em lugares onde gerações diferentes se encontram para revisitar melodias antigas, descobrir nuances novas e, acima de tudo, cantar em conjunto. Para uma banda que sempre levou a sério a relação com o seu público, não podia haver forma mais coerente de celebrar cinquenta anos de caminho partilhado.