Quando Dean Simes comprou o seu primeiro computador, nos anos 1980, não fazia a mínima ideia de como o utilizar. Tinha acabado de deixar a indústria mineira australiana e precisou de pedir ajuda a outros para decifrar os comandos mais básicos da máquina. Essa experiência de aprendizagem tardia, longe de o intimidar, despertou nele uma missão: tornar a tecnologia acessível para quem chegou a ela mais tarde na vida.
Décadas depois, aos 102 anos, Simes lidera o Computer Pals, um clube de informática para seniores em Turramurra, na zona norte de Sydney. As turmas que orienta são compostas, na sua maioria, por alunos mais novos do que ele. E o programa não parou no tempo: nasceu na era do Windows XP e chegou a 2026 a ensinar Windows 11, aplicações de mensagens, folhas de cálculo e, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial.
Numa das sessões acompanhadas pela estação australiana ABC, Simes ajudava o casal Vera e Michael Last a configurar o WhatsApp num telemóvel Android. Vera, de 94 anos, admitiu sentir-se "desligada" da tecnologia. A cena resume bem o espírito do Computer Pals: não há barreiras de idade, só vontade de aprender.
A inteligência artificial também entrou na sala de aula
A novidade mais recente no programa são as ferramentas de pesquisa baseadas em IA. Simes integrou-as nas sessões e não tem dúvidas sobre o principal erro dos utilizadores: fazer perguntas demasiado genéricas. "Se fizer uma pergunta geral, pode acabar num labirinto de informação sem qualquer relação com o que procura", explicou.
Para ele, a IA é útil, mas exige método. E é exactamente esse método que tenta transmitir aos seus alunos.
Um século de vida sem parar
A idade de Simes não define o ritmo das aulas nem o seu quotidiano. Mantém a carta de condução ativa, frequenta o ginásio para evitar o sedentarismo e passa tempo com os seus seis filhos, enquanto acompanha as atualizações constantes de sistemas e interfaces que a indústria de software impõe a todos os utilizadores.
Em janeiro de 2026, a autarquia de Ku-ring-gai distinguiu-o com o título de Cidadão Local do Ano. O reconhecimento reflete não só o trabalho no clube, mas também o papel informal que desempenha na comunidade: é muitas vezes a primeira pessoa a quem os vizinhos recorrem quando o computador bloqueia ou surgem dúvidas de configuração.
"Não tenho tempo para ficar sentado sem fazer nada", resumiu. Aos 102 anos, Dean Simes continua a provar que tem razão.