terça-feira, 08 set. 2026

SPEED: De anónimo a fenómeno global à velocidade da luz

Começou por fazer lives a jogar videojogos no seu quarto. Aos 21 anos, Speed tem mais de 60 milhões de seguidores no Youtube, cantou na final do campeonato do Mundo e é amigo de todas as celebridades
SPEED: De anónimo a fenómeno global à velocidade da luz

É uma das personalidades mais conhecidas do YouTube e do streaming. Barulhento, carismático, brincalhão, energético, destemido e sem medo do ridículo, passou rapidamente de jovem humilde que fazia transmissões (ou lives) online a partir do seu quarto a celebridade global com dezenas de milhões de seguidores. «Só quero ser como o Ronaldo. Só quero ser grande», dizia antes de se tornar conhecido. Entretanto, conseguiu conhecer e tornar-se amigo do seu ídolo e conquistou o seu espaço mediático. Alguns especialistas estimam que o seu património possa estar na casa dos 20 milhões de dólares, devido às visualizações nas redes sociais, contratos com marcas e aparições em eventos globais. Segundo as suas próprias estimativas, o jovem de apenas 21 anos passa 70% do seu tempo a fazer transmissões ao vivo.

No final de julho, por exemplo, alcançou mais um marco importante nesse caminho, ao apresentar ‘World Cup (Champions)’ – uma nova versão do tema que lançou em 2022 –, na cerimónia de encerramento do Campeonato do Mundo, em Nova Iorque. No videoclipe da canção, publicado no dia 1 de junho no Youtube, Speed menciona todas as 48 seleções participantes do torneio, veste camisolas de diferentes países, incluindo Portugal, e mostra bandeiras nacionais e adeptos de várias nacionalidades. Em menos de 24 horas, a música acumulou mais de sete milhões de visualizações na plataforma.

Vestido de branco, o jovem fez vibrar as bancadas do MetLife Stadium ao correr pelo palco, interagindo com o público, dançando e incentivando os adeptos a cantar e bater palmas. Até há pouco tempo, seria difícil um criador de conteúdos ter um lugar de destaque num evento da FIFA – segundo vários meios de comunicação estrangeiros, esta escolha refletiu a sua enorme influência e o papel que teve na divulgação do futebol através das redes sociais e das transmissões em direto. Durante o torneio, Speed fez várias transmissões ao vivo a partir dos estádios, falando com adeptos, jogadores e outras celebridades com quem se foi cruzando.

Mas parece que Speed sabe o que faz. Antes do convite, tinha publicado várias mensagens nas redes sociais a pedir que a sua canção fosse escolhida para o Mundial. A dada altura, a FIFA respondeu: «Entraremos em contacto». O influencer acabou por receber uma chamada da FIFA a dizer que tinham ouvido a música e gostariam que ele a interpretasse na cerimónia. Speed pensou que talvez fosse uma partida. Porém, pouco depois, a música passou a integrar o álbum oficial do Mundial.

Há três meses, foi anunciado que terá direito a uma série de animação. De acordo com a Variety, Speed dará voz a uma versão animada de si mesmo. A série é descrita como uma produção em estilo anime, embora os detalhes específicos sobre o enredo permaneçam em segredo. Sabe-se também que será escrita por Matt Owens, o showrunner das duas primeiras temporadas da adaptação de One Piece, da Netflix – produção que o jovem acompanhou e que o ajudou num período mais depressivo que viveu em 2020.

Num comunicado partilhado pela mesma revista, o jovem destacou o seu amor de longa data por animes: «Sempre adorei animes. Por isso, poder criar algo assim é um sonho», revelou. «A equipa por trás deste projeto é incrivelmente talentosa e mal posso esperar para que os meus fãs vejam o que estamos a construir juntos».

Exemplo de persistência

Mas de que forma chegou aqui? Porque é que Speed é tão amado em todo o mundo? Como conseguiu construir uma audiência global tão grande que interage com ele em tempo real? E em tão pouco tempo? Na verdade, pouco se sabe sobre a sua vida pessoal e infância. Darren Jason Watkins Jr. – é este o seu nome verdadeiro – nasceu em 21 de janeiro de 2005, em Cincinnati, no estado de Ohio, EUA, no seio de uma família humilde. Os seus pais estão divorciados há alguns anos e tem vários irmãos.

Começou a interessar-se por videojogos muito cedo. Em miúdo passava grande parte dos seus tempos livres a jogar e ver youtubers. Antes de começar esta carreira, teve o sonho de ser astronauta. «Estava muito fascinado com essa ideia no ensino médio, quando estudamos a atmosfera. Sempre tive esse lado explorador, e é engraçado como isso se está a concretizar através da minha carreira no YouTube. O Elon Musk é um homem muito inteligente. E, neste momento, pode fazer isso acontecer porque tem a tecnologia para isso. Se fosse possível, largaria tudo o que estou a fazer agora e iria», disse numa entrevista à Wired, revista norte-americana (com edições online) focada no impacto da tecnologia na cultura, na ciência, nos negócios e na sociedade.

Em 2016, resolveu criar o canal IShowSpeed, mas durante vários anos quase ninguém o via. Nessa fase inicial publicava vídeos a jogar NBA 2K e Fortnite, fazia comentários sobre outros jogos e filmava pequenos momentos engraçados. Era capaz de fazer diretos durante horas com apenas duas ou três pessoas a assistir. Mas não desistiu, pois aquilo que lhe importava era entreter quem o via. «Quando comecei a fazer lives, só tinha um ou dois espetadores», contou numa conversa com a Forbes, em 2024. «Na segunda semana, a minha média subiu para quatro espetadores. Na terceira, para 17. Conforme mais pessoas assistiam, pensava que poderia chegar a algum lado com isso. E, mais importante do que tudo, divertia-me. Foi isso que me motivou». O nome IShowSpeed – ou Speed – vem de um apelido desportivo que lhe deram quando era pequeno: «Chamavam-me Speedy porque eu era rápido». Fazendo jus à alcunha, num dos seus vídeos com mais visualizações, surge a saltar por cima de um Lamborghini em movimento.

A grande mudança aconteceu em 2021, durante a pandemia da covid-19. «Deixei de ir à escola e fazia lives todos os dias [...]. A pandemia afetou realmente o meu estado psicológico e fazer lives ajudou-me muito», disse numa outra entrevista com a Dazed.

Publicou um vídeo onde aparecia «furioso com um jogo» e a mãe acabou por fazer-lhe um ultimato depois de ler os comentários negativos: «Ficou chateada. Disse-me para parar com os vídeos. Não entendia porque é que as pessoas falavam assim do seu filho».

Speed acabou por ir morar com o pai, em Detroit. Na altura, dividia o quarto com o tio, que tinha uma PS4. «Era tudo o que eu precisava para continuar a fazer transmissões [...]. Por sorte, levei a minha câmara e consegui continuar a fazer os meus vídeos. Simplesmente não parei, por mais que a minha mãe quisesse», admitiu.

Recentemente, o streamer garantiu que a relação com a mãe melhorou e que esta acabou por aceitar a sua carreira. «Superei as suas expectativas», congratula-se. Aliás, uma das primeiras oisas que fez quando começou a ganhar muito dinheiro foi comprar uma casa para a mãe.

Nessa altura da pandemia, o jovem aproveitou o facto das pessoas estarem em casa para começar a fazer mais transmissões e a desenvolver uma personagem mais intensa: um streamer extremamente energético, exagerado, imprevisível e emocional. As pessoas achavam graça à sua forma de ser e os memes retirados dos seus vídeos começaram a espalhar-se pelo Tik Tok, Instagram e X (antigo Twitter). Foi uma fase em que os internautas começaram a ser atraídos por vídeos curtos, e muitos utilizadores que nunca tinham visto o seu canal começaram a conhecê-lo através de vídeos de poucos segundos. Neles, Speed gritava e tinha explosões de emoção durante os jogos, reações exageradas em derrotas, e fazia danças e brincadeiras ridículas e inesperadas. Muitos especialistas, citados pela Revolt (empresa de multimédia e rede de televisão cabo focada na cultura hip-hop e na comunidade negra), acreditam que o jovem transformou a própria personalidade num espetáculo. O facto de interagir diretamente com os fãs desde o princípio ajudou a catapultá-lo para o estatuto de GOAT (Greatest of All Time - Maior de Todos os Tempos). E houve outro aspeto decisivo no caminho para o sucesso: a sua obsessão por Cristiano Ronaldo. O jovem falava constantemente do jogador nos seus vídeos, mostrando, mais uma vez, bastante emoção, e imitava a famosa celebração do jogador depois de marcar um golo. A comunidade do futebol começou a descobri-lo. Em poucos meses passou de milhares para milhões de seguidores.

A entrada no mundo desportivo e as viagens

A fama de Speed voltou a dar um salto em 2023, durante o Mundial do Qatar, em que fez transmissões relacionadas com futebol, criou a música ‘World Cup’ e começou a aparecer em conteúdos ligados ao desporto, ao lado de grandes nomes. Nesse ano, deu-se o encontro que mais esperava: conheceu Cristiano Ronaldo depois do jogo entre Portugal e Bósnia e Herzegovina, de qualificação para o Euro 2024, no Estádio da Luz, em Lisboa. Speed chegou a tatuar o rosto de CR7 no braço e lançou uma música de homenagem intitulada ‘Ronaldo’. Nesse encontro, que durou apenas alguns minutos, ajoelhou-se, abraçou o futebolista madeirense, mostrou-lhe a tatuagem, tiraram fotografias juntos e fizeram a celebração «Siiiiii!». O vídeo do streamer a saltar, a deitar-se no chão e a chorar depois do encontro tornou-se um dos mais vistos da sua carreira, com centenas de milhões de visualizações.

De um fenómeno americano, Speed passou assim a uma figura global. Seguiram-se as viagens, também elas transmitidas ao vivo, cheias de improviso e encontros inesperados. «A minha tournée pela Europa foi a primeira, e nós improvisámos muito bem. Não era para ser uma tournée, mas transformámo-la numa. Pensei: ‘Uau, isto é algo que eu realmente estou a fazer em grande escala.’ Depois da tournée pela Europa, fiz a tournée pelo Sudeste Asiático», explicou à Forbes. A tour europeia acumulou mais de 2,5 mil milhões de visualizações em várias plataformas, mostrando que o público queria vê-lo não apenas a jogar, mas a explorar o mundo.

Nas viagens, Speed simplesmente liga a câmara, interage com as pessoas de forma louca, mostra diferentes culturas e improvisa brincadeiras. Na Indonésia, fez história ao reunir mais de um milhão de espectadores simultâneos numa única transmissão ao vivo. «Quando cheguei a esse momento, simplesmente comecei a chorar porque havia um milhão de espectadores ao vivo, algo com que sempre sonhei. É a conquista que todo streamer almeja. E eu consegui sozinho, sem colaborações, sem eventos, apenas eu a transmitir. Isso sim é arte de verdade», confessou à mesma publicação.

Noutra viagem, através de um encontro inesperado, o jovem conheceu o primeiro-ministro da Albânia. «Do nada, um rapaz disse ao meu segurança que conhecia o primeiro-ministro. Eu ouvi. Vinte minutos depois, conseguimos o número dele na minha transmissão e acabei por conhecê-lo. Foi uma loucura», recordou. Em Oslo, o jovem caminhava pela cidade quando centenas de fãs se transformaram em milhares e o cercaram. As ruas ficaram tão cheias que a polícia teve de intervir. No meio da multidão, Speed acabou por se lesionar num tornozelo ao saltar de uma janela baixa para fugir da confusão. Acabou por receber assistência médica e teve de terminar a transmissão mais cedo do que gostaria.

A tour mais marcante

A viagem por África, intitulada ‘Speed Does Africa’, foi provavelmente o projeto mais ambicioso da sua carreira visto como um dos maiores projetos de streaming em direto alguma vez realizados por um criador de conteúdos. Em vez de visitar apenas um ou dois países, decidiu percorrer 20 em 28 dias, fazendo transmissões ao vivo praticamente todos os dias. O objetivo foi «mostrar uma imagem de África diferente dos estereótipos que muitos têm no Ocidente». Os vídeos tinham em média nove horas. A digressão começou no final de dezembro de 2025 em Angola e terminou no final de janeiro de 2026 na Namíbia. Quando aterrou em Luanda, centenas de pessoas esperavam-no no aeroporto. «Não posso acreditar nisto!», repetia no vídeo, mostrando surpresa pelo impacto que tem no continente africano.

O périplo levou-o a países como África do Sul, Moçambique, Botswana, Quénia, Etiópia, Egito, Argélia, Marrocos, Senegal, Nigéria e Gana. Mergulhou com tubarões, visitou bairros de lata, jogou à bola com crianças, fez safaris, interagiu com músicos, aprendeu danças tradicionais, experimentou comidas locais, etc.. No Egito, por exemplo, visitou as Pirâmides de Gizé e tornou-se, segundo vários relatos, o primeiro criador de conteúdos a fazer uma transmissão ao vivo dentro da Grande Pirâmide. A visita ao Gana talvez tenha sido uma das mais especiais, já que depois da viagem foi anunciado que lhe seria concedida cidadania ganesa honorária, como reconhecimento pela promoção positiva do país e do continente. «Estou de volta a casa, não há sensação melhor», disse o streamer, revelando que a sua ascendência remonta ao país.

As polémicas

Mas não é apenas de conquistas e momentos engraçados que vive a carreira de Speed. Como qualquer outra pessoa, já cometeu erros e já falou sobre eles em público, pedindo muitas vezes desculpa por algumas das suas atitudes. Possivelmente, o seu maior escândalo foi quando acidentalmente mostrou o pénis numa transmissão ao vivo. O incidente foi apelidado de IShowMeat. «Esse sempre foi o meu maior medo. Quando aconteceu, apaguei imediatamente a transmissão. Fui para o quarto da minha mãe, liguei para o meu empresário, para um amigo, e eles acalmaram-me», lembrou à Dazed. «E isso aconteceu porque eu não tinha roupa íntima limpa! Vesti um pijama e sabes como os pijamas têm aquela pequena abertura», descreveu, penitenciando-se pelo erro de não ter lavado a roupa. «É de loucos como algo tão pequeno pode causar uma situação tão grave. As pessoas fizeram piadas disso, mas já não me afeta», garantiu.

Em dezembro de 2021, foi suspenso da Twitch durante um programa de encontros (e-dating) organizado pelo streamer Adin Ross. Nele, vários convidados conversavam com criadores de conteúdo, incluindo a modelo e influenciadora Ash Kash. Durante a conversa, Speed fez a seguinte pergunta à modelo: «Se fôssemos as duas últimas pessoas na Terra e tivéssemos de reproduzir para salvar a humanidade, aceitavas?». Ash Kash respondeu que «não», acrescentando que isso não resolveria o problema, porque «os descendentes acabariam por enfrentar a questão da consanguinidade». Depois da rejeição, o influencer respondeu repetidamente: «E quem é que me iria impedir?». A sua atitude gerou bastante revolta na audiência, que interpretou esse comentário como uma insinuação de violência sexual. O jovem saiu da chamada, mas ao voltar a entrar dirigiu vários insultos à modelo. A sua conta acabou por ser banida e o pedido de desculpas acabou por acontecer. «Tenho 17 anos. Tinha 16 quando isso aconteceu e cometi um grande erro. Foi estúpido e imaturo. Percebi imediatamente e pedi desculpa. Continuarei a trabalhar em mim mesmo, reconhecendo que, crescendo online, tenho a responsabilidade de dar o exemplo para aqueles que me seguem e me apoiam», disse na mesma entrevista.

Em 2022, voltou a pedir desculpa, após um discurso sexista contra uma jogadora e, no mesmo ano, pediu desculpas por comentários racistas direcionados a um adepto de futebol chinês.

Um ano depois, durante uma viagem ao Japão, alguns momentos das transmissões geraram críticas, já que Speed tem o seu lado exagerado que contrasta com a cultura japonesa. No país, falou alto em transportes públicos, assustou pessoas na rua e teve brincadeiras consideradas desrespeitosas. Noutros momentos, acendeu um fogo de artifício, pegando fogo ao espaço onde se encontrava (conseguiu controlá-lo), saltou para cima do tejadilho de um automóvel, irritando o proprietário do veículo. Atitudes consideradas perigosas, visto o seu grau de influência sobre os jovens.

«Quando estou ao vivo é uma sensação incrível. É por isso que adoro ser streamer. É por isso que prefiro fazer lives. Isso dá-me uma energia extra. As pessoas pensam que é um personagem, mas não. É parte de mim», declara. «É simplesmente quem eu sou. Sou um rapaz divertido, maluco e engraçado. Não existe essa coisa de estar no personagem e não estar. Quando estou a fazer lives no YouTube, esse lado transparece, mas sim. Eu sou o Speed».