Começou como uma brincadeira nas redes sociais, mas rapidamente passou do ecrã para a vida real. Nos últimos meses, a ingestão de alimentos destinados a cães tem vindo a ganhar espaço em comunidades ligadas ao fitness e ao culturismo, alimentada pela promessa de um consumo elevado de proteína a baixo custo.
O fenómeno teve origem em vídeos virais publicados em 2023, sobretudo no TikTok, onde criadores de conteúdos defendiam que a ração seca para cães poderia ajudar a acelerar o ganho de massa muscular. A lógica apresentada era simples: se estes produtos têm elevados teores de proteína, poderiam ser uma alternativa aos suplementos tradicionais usados no ginásio. As publicações, muitas vezes acompanhadas de tabelas nutricionais, acumularam milhões de visualizações.
Mais recentemente, a tendência voltou a evoluir. Já não se fala da ração propriamente dita, mas sim de snacks para cães — pequenos biscoitos ou barras normalmente usados como “recompensa” para animais. A prática, que voltou às tendências através de publicações na rede social X, já começou a ser observada em ginásios portugueses.
Mas será seguro?
A popularidade destes produtos deve-se, em parte, ao preço. Os snacks para cães são significativamente mais baratos do que suplementos proteicos destinados a humanos. Além disso, os snacks para cães podem concentrar cerca de 20 gramas de proteína por porção, um número apelativo para quem procura maximizar resultados físicos.
No entanto, especialistas alertam que o raciocínio ignora um fator essencial: estes alimentos não são produzidos para consumo humano. Estes produtos não seguem as normas de higiene alimentar exigidas para alimentos destinados a pessoas, o que aumenta o risco de contaminação bacteriana. Além disso, contêm aditivos próprios para animais que podem causar problemas gastrointestinais nos humanos, como inchaço, gases e obstipação.
Excesso de proteína pode ser um risco
Outro problema prende-se com o desequilíbrio nutricional. Uma alimentação humana saudável pressupõe uma distribuição equilibrada de macronutrientes, que incluem proteína, hidratos de carbono e gorduras. Os snacks caninos ultrapassam largamente os valores recomendados de proteína, sem fornecer os restantes nutrientes essenciais na proporção adequada.
O consumo excessivo deste macronutriente pode ser perigoso. A proteína é mais exigente para o organismo, aumentando a carga de trabalho do sistema digestivo e dos rins - colestrol e sobrecarga dos órgãos podem ser algumas das consequências.
Alternativas seguras e eficazes
Para quem procura melhorar o desempenho físico e potenciar os resultados do treino, os especialistas são claros: existem opções seguras, eficazes e adaptadas às necessidades humanas. Carnes magras, ovos, laticínios, leguminosas e suplementos desenvolvidos especificamente para consumo humano permitem uma ingestão equilibrada de proteína, acompanhada de hidratos de carbono e gorduras essenciais à recuperação muscular.
A tendência pode ter nascido como um desafio online, mas os riscos associados mostram que nem tudo o que é viral é inofensivo - e o barato, pode mesmo sair caro.