sexta-feira, 13 mar. 2026

Será que aquecer alimentos no micro-ondas é mesmo perigoso? Saiba os verdadeiros riscos e quais os mitos criados

Apesar de a radiação não parecer o maior perigo, há coisas que devia saber antes de usar o micro-ondas.
Será que aquecer alimentos no micro-ondas é mesmo perigoso? Saiba os verdadeiros riscos e quais os mitos criados

Provavelmente é o eletrodoméstico presente em quase todas as cozinhas. Embora o micro-ondas seja útil e eficaz, há cuidados que devemos ter. No entanto, nem todos os perigos que já ouviu falar sobre o micro-ondas são verdade.

A radiação do micro-ondas é perigosa?

Quando usado corretamente, à partida não há motivos para preocupação quanto à radiação emitida pelo eletrodoméstico, garante a Organização Mundial de Saúde.

A radiação emitida pelo micro-ondas é eletromagnética de baixa frequência, usada também em lâmpadas e rádios. É essa radiação que, quando em contacto com as moléculas de água na comida, a faz aquecer. Ou seja, apesar de a radiação emitida entrar em contacto com a comida, é única e exclusivamente para esta aquecer, sendo inofensiva para o ser humano.

"Essas micro-ondas fazem parte das ondas eletromagnéticas às quais somos expostos diariamente. Quando assamos pão, somos expostos a ondas eletromagnéticas e energia infravermelha dos elementos de aquecimento do forno. Até as pessoas trocam ondas radioativas entre si", diz Juming Tang, professor de engenharia de alimentos na Universidade Estadual de Washington, citado pela BBC.

"Se come coisas cultivadas com a luz do sol, não se devia preocupar com comida de micro-ondas", acrescentou.

Os alimentos perdem nutrientes no micro-ondas?

De certeza que já ouviu dizer que os alimentos perdem nutrientes quando aquecidos no micro-ondas. Apesar de não ser um mito, não é assim tão grave.

Por exemplo, uma experiência com o cozimento de bróculos no micro-ondas concluiu que a radiação remove cerca de 97% de compostos com benefícios anti-inflamatórios. Se o legume for cozido, perde cerca de 73%.

No entanto, quando comparado, por exemplo, com o forno convencional, a perda é menor no micro-ondas. Além disso, se o alimento tiver apenas por um minuto dentro do micro-ondas, o aquecimento não chega a comprometer o seu valor nutricional.

Na realidade, ainda não há uma resposta concreta sobre se os vegetais retêm ou não os nutrientes no micro-ondas porque cada alimento é diferente em termos de textura e valor nutricional, de acordo com os especialistas.

"Embora em geral o micro-ondas seja o método preferido, o tempo ideal será diferente para diferentes vegetais", diz Xianli Wu, cientista do Centro de Pesquisa em Nutrição Humana de Beltsville, no Departamento de Agricultura dos EUA. "Ao considerar métodos de cozimento domésticos comumente usados, o micro-ondas é o melhor método de cozinhar, pelo menos para muitos alimentos de origem vegetal, mas provavelmente não para todos", acrescentou.

Os perigos do aquecimento do plástico

Se aquecer os alimentos no micro-ondas pode não causar problemas por si só, o plástico pode ser um inimigo. Alguns alimentos vêm em embalagens de plástico prontos para serem aquecidos. Nestes casos, especialistas alertam para o risco de ingestão de ftalatos.

Os ftalatos são substâncias químicas usadas para aumentar a flexibilidade e durabilidade do plástico. Quando exposto ao calor, esses aditivos podem-se decompor e dissolver-se nos alimentos.

"Alguns tipos de plástico não são feitos para micro-ondas, porque têm polímeros no interior para os tornar macios e flexíveis, que derretem a uma temperatura não tão alta, e podem soltar-se durante o processo se a temperatura ultrapassar os 100° C", explica o professor Tang.

Sabe-se que estes aditivos afetam as hormonas dos seres humanos, bem como o metabolismo. Nas crianças, os ftalatos podem aumentar a pressão arterial e a resistência à insulina, aumentanto o risco de distúrbios como diabetes e hipertensão.

Entre problemas mais graves estão ainda infertilidade, asma e Transtorno de Défice de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Além disso, os ftalatos são potenciais desreguladores das hormonas da tiróide, de acordo com Leonardo Trasande, professor de medicina ambiental e saúde da população na NYU School of Medicine, em Nova Iorque, que explica que estas são cruciais para o desenvolvimento do cérebro dos fetos durante a gravidez.

E atenção: de acordo com o mesmo professor de Nova Iorque, os potenciais riscos não aumentam de acordo com a frequência do uso do micro-ondas. "Acreditava-se que a dose definia o veneno. Agora entendemos a partir de vários estudos que as exposições de baixo nível são onde o grosso dos efeitos acontece, então não há um nível seguro de exposição", explica Trasande.

A melhor forma de minimizar o risco é usar outros recipientes para aquecer a sua comida, como cerâmica. Se usar embalagens de plástico, verifique o símbolo de reciclagem universal, geralmente na parte inferior do produto. Se o símbolo tiver o número 3 e as letras "V" ou "PVC" é porque a embalagem inclui ftalatos.

Verdadeiros riscos para a saúde

Mesmo que evite o uso do plástico, há outros riscos relacionados com o micro-ondas.

Se usar o micro-ondas para cozinhar alimentos, deve ter em consideração que o alimento não fica cozinhado de forma uniforme. "Dependendo da porção de alimento que é aquecida, haverá algumas partes mais quentes que outras", diz Francisco Diez-Gonzalez, professor de segurança alimentar da Universidade da Geórgia, nos EUA.

Além disso, reaquecer alimentos no micro-ondas também não é o ideal para a sua saúde. O importante é que o alimento cozinhe até 82ºC para matar bactérias nocivas, de acordo com os especialistas. No entanto, quando a comida volta a ficar fria, as bactérias voltam a crescer e a contaminar os alimentos. Se aquecer novamente, cria um ciclo de bactérias nos seus alimentos.

Além disso, as temperaturas do eletrodoméstico podem também apresentar algum risco. Por exemplo, alimentos ricos em amido, como cereais e vegetais, quando aquecidos no micro-ondas podem criar algo designado por "acrilamida química" que atua como substância cancerígena. As pesquisas neste campo são limitadas, mas têm assumido que os micro-ondas são mais favoráveis ao desenvolviemnto da acrilamida do que outros métodos de aquecimento.