segunda-feira, 17 ago. 2026

Rosinha: dos bastidores ao palco

Entre março a outubro a artista popular passa os dias na estrada a caminho de palcos por todo o país. Desta vez esteve no arraial da Misericórdia, em Lisboa, e abriu o espetáculo com o seu novo êxito: 'Pintei-lhos'. Chegou quatro horas e meia antes ao recinto onde, nos bastiores, conversou com a VERSA e nos mostrou a transformação de Rosa Maria em Rosinha.
Rosinha: dos bastidores ao palco

São quase cinco da tarde de uma sexta-feira muito quente em Lisboa. As festas da cidade animam as ruas e o Bairro Alto não é exceção. No Jardim de São Pedro de Alcântara, com uma vista privilegiada, está montado o arraial da Misericórdia. Não faltam as tradicionais barraquinhas de comes e bebes e um pequeno palco, por onde já desfilaram outros artistas populares, como Quim Barreiros ou Toy. Desta vez foi Rosinha a abrilhantar a festa.

A cantora de sucessos como ‘Eu levo no pacote’ ou ‘Eu descasco-lhe a banana’ chega numa carrinha com toda a equipa: bailarinas, músicos e a sua promotora. Atrás do palco há dois pequenos camarins, improvisados em abrigos de jardim. Rosinha chega com um ar cansado mas bem-disposto. «Antes de vir tento não adormecer nas viagens, que são enormes. Outras vezes, tento dormir porque estou muito cansada, todas as vezes é que não porque fico mais mole e não quero», confessa à VERSA, enquanto ajuda a carregar material para o espetáculo.

DE HOTEL EM HOTEL

Chegou do Norte do país mas nem a tal viagem longa lhe tira a alegria. Oferece-se para conversar connosco logo depois de pousar, num dos cantos do camarim, o guarda-roupa. Revela como têm sido os últimos meses. «Eu e a minha equipa andamos sempre juntos. Passamos uma semana, duas semanas, sem ir a casa. Hoje, por exemplo, podemos ir a casa porque é perto. Como estamos em Lisboa e a malta mora toda na margem sul vai ser possível», começa por explicar, sempre despachada e com um sorriso sincero. «De resto, andamos de hotel em hotel. Na estrada, uns dias sorrimos muito, outros menos. E não é por não gostarmos do que estamos a fazer, é mesmo pelo cansaço. Por vezes falo com outras pessoas e tento explicar isto: Uma pessoa pode trabalhar imenso, das nove às cinco. Mas, terminado o seu dia de trabalho, vai para casa. Por ir exausta, cansadíssima, chateada com alguma coisa, porque lhe correu mal o dia de trabalho e está tudo certo. Mas vai para a sua casa e faz o que lhe apetece. Dorme na sua cama, veste a roupa que quer, vai à sua casa de banho, que é tão importante… Quando temos isso como garantido não nos apercebemos o quanto é importante».

Para a cantora popular não há rotinas. Horários só os dos espetáculos. «Todos os dias estamos em viagem, de um sítio para o outro. Rimos muito, dizemos e fazemos muitas parvoeiras! E depois há dias em que estamos mais cansadinhos. Por exemplo, se tivermos viagens do Minho para o Algarve e depois voltamos para o Centro ou para o Norte, já estamos de rastos, porque as viagens são muito grandes e, fisicamente, ficamos muito mais cansados».

Só a partir de outubro o ritmo desacelera. «Em outubro ainda temos muitos dias da semana ocupados porque há as receções ao caloiro. Em novembro já, praticamente, os espetáculos são todos ao fim de semana. Em dezembro temos algumas festas de empresas, eventos de Natal. Depois vem janeiro, que é um mês calmíssimo. Fevereiro também é calmo mas há o Carnaval e essa semana é sempre a abrir!», descreve. Com a chegada da primavera começa a acelerar o ritmo. «Em março as andorinhas voltam ao nosso Portugal e as festas também!».

DOS BAILARICOS À FAMA

Rosinha não conhece outra profissão. Tirou o curso de acordeão e desde os 17 anos, quando começou a animar bailes em coletividades, nunca mais parou. «Tem de se gostar muito do que se faz, mas em qualquer trabalho é assim. Quando se gosta é menos difícil. Nós temos aquele provérbio que diz: ‘Quem corre por gosto não cansa’. Cansa, mas não desiste, é a diferença, e eu por mim falo. Amo aquilo que faço e, desde menina, a minha paixão foi o acordeão».

Nascida em criada em Pegões, para onde a mãe foi viver muito jovem para uma colónia agrícola, Rosinha - que nessa altura ainda era só Rosa Maria - adorava os bailaricos. «Em adolescente ia para os bailes. Via os acordeonistas em cima do palco, a fazer aquelas festas, toda a gente a dançar. E via aquelas pessoas todas, ou nas coletividades, ou nas festas de verão, a dançar e pensava: quem me dera fazer isto um dia. Era mesmo o meu sonho».

Aos 17 anos, a artista começou a desenhar o tal sonho. «Carregava e descarregava o material, montava, desmontava, fazia o baile, ia buscar o cachê e passava o recibo!». Sempre foi artista, nunca conheceu outra profissão. «Desde que nós façamos aquilo que gostamos e, principalmente, com a entrega que conseguirmos dar, e o melhor que conseguirmos fazer, todos somos artistas».

Começou a tornar-se popular e, hoje em dia, não passa despercebida. A fama é o outro lado do seu trabalho. «Faz parte e é o que me leva a crer que tenho feito, dentro da minha linha, um bom trabalho. Senão não tinha essa parte das pessoas a querer tirar fotografias, a querer dar-me beijinhos, a querer dar-me abraços». Rosinha agradece ao seu público. «Devo tudo a essas pessoas. Sem elas eu não existia».

Os fãs andam por todo o lado. Havemos de encontrá-los mais tarde, na primeira fila para assistir ao espetáculo, vestidos a rigor, com as letras na ponta da língua e as coreografias bem ensaiadas. Mas já lá vamos.

Por agora, enquanto Rosinha aproveita para descansar no camarim e estar à conversa com a VERSA. Sem rodeios fala de todos os aspetos da sua vida. Questionamos: afinal, como é que a cantora, que passa grande parte do ano em digressão, concilia o trabalho com a sua própria vida? «Não concilio», responde prontamente. «De meados de abril até outubro não tenho vida. A Rosa Maria não existe; só existe a Rosinha».

“EU SOU MALANDRA DE ORIGEM”

As letras com trocadilhos malandros e a música alegre arrastam um público fiel. Rosinha garante que não se trata de uma personagem estudada. «Tudo isto começou porque eu sou mesmo assim. Não é uma fórmula, não foi nada estudado. Eu sou malandra de origem. Gosto de brincar com as palavras. Quando era mais nova, com a minha família, com os meus primos mais velhos, brincava com todos. E era sempre com alguma malícia», confessa.

Nos bailes, a mesma coisa. «Nessa altura já tentava apimentar um bocadinho os covers que cantava. E, durante as minhas atuações nos bailes, já espicaçava as pessoas, quer as conhecesse ou não, não importava. Era logo: ‘O senhor da camisa de xadrez verde e azul, que eu não sabia o nome, não aguenta uma até ao fim. Sempre que eu tocava um medley e as pessoas paravam era logo: ‘Vocês não aguentam duas!’».

Apesar da vocação musical, Rosinha é a única artista da família. Recorda apenas uma tia que tinha boa voz e, de vez em quando, recebia umas moedas ou um pão com chouriça pelas cantigas. «Houve uma tia, já falecida e que eu nunca ouvi cantar, irmã da minha mãe, que me diziam que cantava muito bem. Contava-se que as pessoas lhe davam uma moedinha ou um pão com um bocadinho de chouriça, isto há muitos anos quando havia fome, depois da primeira guerra mundial, quando ela cantava. As minhas tias diziam que ela cantava maravilhosamente bem. Que não é o meu caso. Mas pronto, vou-me desenrascando», ri-se.

Sempre que pode ir a casa - como aconteceu nesta noite - Rosinha fica maravilhada. Afinal de contas, mora na casa onde cresceu. «Era um sonho muito grande que eu tinha. Eu, adolescente, andava a sachar batatas com a minha tia e lembro-me perfeitamente como se fosse agora, de lhe dizer que tinha o sono de viver ali».

Os tios deixaram a casa em herança à mãe da cantora. «Como todas as filhas têm casa nos terrenos dos meus tios, deixaram esta casa para a minha mãe. A minha irmã é toda citadina, vive em Carcavelos. O sonho dela é viver na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Não tem nada a ver com Pegões, com as ervas, as moscas e os mosquitos. E lá estou eu!», afirma, satisfeita.

A horta, onde apanhava batatas com a tia, é que já não existe. «Não tenho lá tomates, murcharam», brinca. «A única coisa que resiste, lá em casa, são os animais porque vão tratar deles. E as árvores de fruto, porque aquilo tem um sistema de rega. Quando consigo dar lá um pulinho, como agora, já como uns figuinhos, umas ameixas, uns pêssegos…».

Rosa Maria é discreta. Chega vestida de preto, calças - só usa saia ou vestido nos espetáculos - e garante que prefere o castanho, o preto e o cinzento nas vestimentas. Tudo muda quando «a Rosa Maria passa a ser a Rosinha», diz, lançando uma sonora gargalhada. «As cores são as mais vivas possível, os vestidos têm muitos motivos, tudo muito espampanante, e os sapatos são altos, normalmente sandálias prateadas ou douradas, de tacão. Lábios pintados e lá vai ela toda airosa!».

Ana Curraleira, amiga desde os tempos da escola secundária, e sua promotora na editora País Real, trata do guarda-roupa exuberante da artista. «Ou vamos as duas às compras e escolhemos ou, ela que me conhece desde a escola, somos da mesma idade, conhece bem os meus gostos, tira-me as medidas e compra. Quando compra um vestido já feito, é todo alterado. Tem de ser cortado, depois leva uns brilhos, leva umas gregas, uns folhitos. Muitos dos vestidos, a Ana faz de origem».

Como qualquer artista popular que se preze também Rosinha atua com duas bailarinas. Desta vez tem a companhia de Inês e Mónica. Há uma terceira bailarina para que possam ir-se revezando. Curiosamente, as bailarinas de Rosinha são discretas, com pouca pele à mostra. A artista tem uma explicação: «Eu já canto músicas com muita malandrice, já chega. Está tudo bem assim, não precisamos de mais nada para aguçar aqui o cenário».

Do camarim, ainda sem estar ‘fardada’, Rosinha sobe uma primeira vez ao palco para fazer o sound check. Canta ‘Pintei-lhos’, o seu novo sucesso. Uma, duas, três vezes. No arraial, quando termina, há quem peça para cantar mais. Vão ter de esperar umas horinhas…

DOENÇA OBRIGA A ÓCULOS ESCUROS

Pelas sete, Rosinha e a equipa vão jantar a um restaurante nas redondezas. Às oito e meia está de volta ao camarim. É hora de vestir-se e maquilhar-se. «Como eu não pinto os olhos, é muito rápido. É só pôr um batonzinho e um blush». Os óculos escuros estão sempre presentes mas, ao contrário do que possa pensar-se, não fazem parte de um visual estudado. «Preferia não os usar, confesso. Mas tenho sensibilidade à luz, o meu olho direito não tem a membrana que protege da luz e não a consigo suportar. Não é algo em que eu pense, é automático no organismo. Se eu tirar os óculos o meu olho direito fecha automaticamente». Antes, o problema era só com a luz natural; hoje, Rosinha também já tem sensibilidade à luz artificial.

Rosinha está maravilhada com ‘Pintei-los’ mas não esquece o tema que a catapultou para a fama. «A música da Rosinha é ‘Eu levo no pacote’. Foi essa música que me deu a conhecer. Foi essa música que fez de nós, equipa, o que somos hoje e o que andamos hoje, os quilómetros que calcorreamos». Ainda assim, tem um fraquinho especial por outra canção do seu repertório. «Para mim, a ‘Na minha panela não entra qualquer colher’ tem um significado especial. Porque até esse disco, todos os meus discos eram gravados, como nós chamamos, com instrumentos de plástico, com sintetizadores, não eram instrumentos ao vivo. Essa música foi a primeira em que tive metais, tive guitarras, tudo ao vivo. Fiquei muito, muito feliz».

Já ‘Pintei-lhos’ é, no seu entender, «uma música engraçada, claro que fala na pintura do cabelo, e que fica no ouvido. As pessoas decoram-na facilmente. As bailarinas têm uma coreografia fantástica, que é com as mãozinhas na cabeça. Acho que é um tema muito dançável, muito ‘orelhudo’ e é leve, é música de verão».

Desde os bailes até agora Rosinha já conta com 37 anos de carreira. Por isso, antes de a cantora popular subir ao palco, a VERSA quis saber que conselhos daria a quem quer enveredar por este mundo. A artista não esconde algumas dificuldades. «Não é fácil, se a pessoa quiser entrar pelo seu trabalho e capacidade. Não é por só por ser um grande instrumentista, não é só por ter uma boa voz. As pessoas têm de ter vontade de trabalhar muito e não desanimar», garante.

Os rendimentos podem ser muitos ou poucos. A realidade é que não são certos. «Não há rendimento fixo e conseguir entrar no meio não é fácil. Hoje em dia já é mais fácil ir à televisão ou aceder a uma rádio, há uma abertura diferente. Mas pelo facto de irem à televisão isso não significa terem uma carreira feita. Nesta vida temos de ser muito insistentes e não desanimar. Insistir, insistir e insistir e sermos sempre melhores do que já somos».

São quase nove da noite. Rosinha, os músicos e as bailarinas estão a postos. Uma drag queen antecede o espetáculo da artista que abre com o novo tema ‘Pintei-lhos’. Excecionalmente, veste um vestido preto. Ela própria ficou surpreendida pela compra da amiga Ana Curraleira. Mas não faltam as sandálias altas e muita alegria.

Na primeira fila um grupo de admiradores veste a preceito, t-shirts com a cara da artista. Sabem todos os temas de cor e salteado e não param de dançar. O recinto enche logo aos primeiros acordes. Mais uma noite de festa que continua, pelas ruas do Bairro Alto, depois de Rosinha terminar o concerto e regressar à sua tão desejada casa.