Na chuvosa noite em que celebra o seu aniversário rodeado pela família, o multimilionário Lourenço Barcelos é encontrado assassinado no escritório da sua imponente mansão. O corpo ainda não arrefeceu, já os herdeiros disputam o seu património. Rodrigo é o filho mais velho, um empresário ambicioso que construiu a carreira à sombra do pai; a sua esposa Matilde, é ingénua e aparentemente distraída; Duarte, é o filho rebelde e jogador compulsivo afogado em dívidas; Beatriz, a filha mais nova, artista excêntrica marcada por um passado turbulento; e Leonor, a bela e enigmática segunda esposa de Lourenço, cuja presença sedutora esconde intenções perigosas.
A fortuna do patriarca da família encontra-se trancada numa caixa com um enigma: a chave está no Galo de Barcelos. Os herdeiros precisam de encontrar o galo que desapareceu na noite do crime e descobrir quem deles é o assassino. Com uma tempestade a isolá-los do mundo, começa então uma caça ao objeto dentro da própria casa. Quartos são vasculhados, alianças improváveis formam-se e segredos antigos vêm à tona: dívidas de jogo, traições, dependência química, amores proibidos e rivalidades familiares. A cada nova descoberta, o mistério torna-se mais complexo.
Este é o enredo da primeira novela vertical da TVI que estreou no dia 13 de julho no TVI Player e nas redes sociais do canal. O formato nasceu na China e domina o mercado asiático, tendo-se expandido fortemente para os EUA, Sudeste Asiático, Japão e Brasil.
A produção conta com 60 episódios de cerca de dois minutos, «permitindo uma experiência de visualização rápida ou contínua, ao ritmo de cada utilizador».
«A ideia surgiu na sequência de reuniões, internas e com agentes externos, visando debater e encontrar novas formas de reforçar a relação com o espectador/consumidor, à luz do que são as evoluções verificadas no panorama mundial», afirma José Eduardo Moniz à VERSA. «Num mercado tão exíguo como o nosso, há que ser sempre muito cuidadoso em todas as opções. Um passo de cada vez. É uma perspectiva de longo prazo a que nos anima», continua o diretor geral da TVI, admitindo querer sempre captar mais públicos, independentemente das idades. «É evidente que as formas de consumir televisão evoluíram e que as dinâmicas que movem os espectadores alteram-se e ajustam-se a ritmos impressionantes. Ninguém pode ser cego perante a realidade. O fenómeno é transversal e há que saber enfrentá-lo, confiando no futuro do meio em si», acredita.
Um formato novo
Segundo Edgard Miranda, diretor do projeto, o convite surgiu precisamente através de José Eduardo Moniz que, para o realizador brasileiro, é «um visionário da teledramaturgia». «Há três anos conversámos sobre este formato. As [novelas] verticais já eram uma realidade na China, na Coreia do Sul e davam sinais de vida no Brasil. Por alguns motivos não realizámos na época, entre eles o meu envolvimento com outros projetos», conta à VERSA. «Recentemente, com a explosão mundial dos microdramas, o José Eduardo Moniz me chamou e disse: ‘Chegou a hora! Vamos fazer!», revela.
Interrogado sobre o que muda na realização quando a história é pensada para um ecrã na vertical, Edgard explica que o plano geral deixa de ser tão importante. «A história, o gancho dos capítulos, os atores, esses sim são essenciais (...) Sempre fui um esteta. Para mim, o compromisso era que o público recebesse um produto de qualidade no telemóvel, independente de ser em 16:9 ou 9:16. Tínhamos uma locação maravilhosa que nos facilitou o trabalho», afirma, acrescentando que a qualidade do texto é fundamental. «Paula Richard é uma autora com qualidade e excelência», reforça Edgard.
O elenco da novela reúne nomes como Joana de Verona, Tomás Alves, Susana Arrais, Inês Aguiar, Ângelo Rodrigues, Miguel Amorim, João Craveiro, Diana Nicolau, Sérgio Silva e Frederico Barata.
Segundo Joana de Verona, o que a fez aceitar o convite para este projeto foi a história «que é uma espécie de cluedo, do universo da Agatha Christie, fora do naturalismo». «Tinha partes do texto cómicas e apeteceu-me brincar com este género», explica. A atriz admite não fazer parte do público deste tipo de formato, mas sabe que as novas gerações estão atentas e interessadas. «É por isso que vários países estão a produzir este tipo de novelas», acredita. «No entanto, preocupa-me a questão da capacidade de atenção… É um tipo de trabalho que, por ter episódios tão curtos, acaba por ir de encontro à dificuldade de atenção dos miúdos atualmente, que têm um limite de concentração muito reduzido», lamenta. A artista, que faz de viúva do multimilionário, descreve a sua personagem como extravagante, sedutora, não naturalista. «É a madrasta interesseira, um arquétipo divertido de se fazer», partilha.
Filmar para um ecrã na vertical não alterou a forma como encarou as cenas, mas tecnicamente trabalhou-se de forma diferente do habitual. «Temos que fazer gestos menos amplos, mais próximos do corpo. O elenco tem de estar muito mais próximo do que o habitual», refere.
As características da novela vertical
De acordo com Ricardo Tomé, diretor digital, a principal diferença entre uma novela vertical e uma websérie, não está apenas no formato vertical do ecrã, mas na forma como a história é pensada e escrita. «Uma websérie tradicional é, muitas vezes, uma série adaptada ao digital ou distribuída online. Uma novela vertical nasce para o telemóvel, desde a escrita ao enquadramento, ao ritmo e à duração dos episódios», esclarece. «Vivemos numa época em que milhões de pessoas consomem diariamente vídeos curtos nas redes sociais. Faz todo o sentido que a ficção também experimente novas linguagens e novas formas de relação com o público», acredita, acrescentando que uma novela vertical «procura oferecer uma experiência de entretenimento intensa, rápida e muito próxima do espectador, mantendo os ingredientes que sempre fizeram o sucesso das novelas: emoção, suspense, humor e identificação com as personagens e a história». «No fundo, não estamos a reinventar a novela. Estamos a levá-la para um novo ecrã e para novos momentos de consumo», sublinha.
Para si o maior desafio foi «aprender a dizer muito em muito pouco tempo», bem como «o ajuste da imagem a uma realidade vertical vs horizontal». «Na televisão estamos habituados a trabalhar episódios de dezenas de minutos, com espaço para desenvolver personagens e criar momentos de respiração narrativa. Aqui, cada segundo conta. Em dois minutos temos de captar a atenção do espectador nos primeiros instantes, fazer a narrativa avançar e terminar com um momento que o faça querer ver imediatamente o episódio seguinte», detalha o responsável.
Segundo o mesmo, isso obrigou a uma enorme disciplina criativa na escrita, na realização e na montagem. «Cada cena, cada diálogo e cada enquadramento têm de ter um propósito muito claro», afirma. Ao mesmo tempo, foi um exercício extremamente estimulante, «porque nos obrigou a pensar a ficção de uma forma diferente e a experimentar novas regras de storytelling».
Além disso, continua, quando filmamos para um telemóvel, a proximidade ganha ainda mais importância. «Os planos são mais íntimos, as expressões das personagens têm mais peso e a composição visual é pensada para um ecrã que está literalmente na palma da mão. Também existe um ritmo diferente. O consumo no mobile é mais imediato e mais pessoal. Por isso, a realização, a edição e até a forma de interpretar foram adaptadas a essa experiência», reforça.
No entanto, refere, é importante sublinhar que não se trata apenas de colocar a câmara na vertical. «Existe um trabalho criativo e técnico de raiz para que a narrativa funcione naquele formato. E tudo começa com o guião. Tal como o cinema e a televisão desenvolveram as suas próprias linguagens ao longo das décadas, acreditamos que a ficção vertical está agora a começar a construir a sua. Há uma geração que já vive grande parte do entretenimento no telemóvel. Se queremos continuar a contar histórias relevantes, também temos de estar onde as pessoas estão e falar a linguagem dos seus ecrãs», garante.