quarta-feira, 15 jul. 2026

Psicologia diz que sentir prazer com o azar dos outros não significa ser má pessoa

Já aconteceu sentir uma satisfação secreta quando alguém que lhe causou mágoa recebeu uma má notícia? A psicologia tem uma explicação que pode surpreender.
Psicologia diz que sentir prazer com o azar dos outros não significa ser má pessoa

Acontece sem aviso. Aquela pessoa que nunca para de se gabar comete um erro grave, ou alguém que lhe causou mágoa recebe uma notícia difícil, e surge, no interior, uma faísca de satisfação. Logo a seguir vem a culpa. "Que tipo de pessoa sou eu?" A resposta da psicologia é mais tranquilizadora do que se possa imaginar.

Tem nome e explicação científica

Os portugueses têm uma expressão, com variações, que captura isto com precisão: "pimenta no rabo dos outros para mim é refresco". A ciência, entretanto, foi mais longe e deu-lhe nome: schadenfreude, um termo alemão que descreve a alegria sentida perante o infortúnio alheio. Longe de ser uma raridade, trata-se de uma emoção frequente, que faz parte do funcionamento normal da mente humana. Investigadores da Universidade Emory, nos Estados Unidos, analisaram três décadas de estudos em psicologia social e clínica e concluíram que a schadenfreude, embora mal compreendida, não apenas é comum como pode revelar muito sobre o lado mais sombrio da natureza humana.

Segundo a equipa liderada por Shensheng Wang, a emoção divide-se em três subformas distintas mas interligadas: agressão, rivalidade e justiça. Ou seja, raramente nasce da maldade, mas sim de mecanismos internos que ajudam a gerir sentimentos difíceis.

Quando o cérebro interpreta o azar alheio como uma recompensa

Um dos impulsos mais comuns por detrás desta reação é precisamente a busca por justiça. Quando alguém age de forma arrogante ou injusta e acaba por sofrer as consequências disso, o cérebro interpreta essa situação como um restabelecimento da ordem. Há um sentido de equilíbrio que se reconstitui.

A comparação social tem também um papel determinante. O ser humano avalia-se constantemente em relação aos outros, e quando alguém que parecia estar num patamar superior falha, isso pode aliviar a pressão interna de quem se sentia inferior ou inseguro. Não é uma alegria pelo sofrimento em si, é antes um pequeno consolo: "não sou o único".

A nível biológico, a dopamina, o neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa, pode estar envolvida neste processo, gerando uma sensação momentânea de alívio. A British Psychological Society nota que pessoas comuns podem perder temporariamente a empatia nestas situações, ainda que de forma passageira.

Onde está a linha

Os especialistas são claros: esta emoção é normal enquanto não inclui um desejo ativo de causar dano. Sentir um alívio passageiro perante o erro de alguém que nos causou mágoa é humano. Desejar ativamente que outra pessoa fracasse, sofra ou não progrida, já é outra coisa.

Os investigadores da Emory ressalvam ainda que a propensão para a schadenfreude se sobrepõe a traços de personalidade mais sombrios, como o sadismo ou o narcisismo, quando deixa de ser uma reação espontânea e passa a ser uma postura habitual perante os outros.

O que esta reação diz sobre nós

No fundo, este sentimento fala mais das próprias emoções do que da outra pessoa. Das inseguranças, das feridas mal saradas, da necessidade de se sentir, por um momento, em equilíbrio com o mundo. E se a expressão popular serve de espelho ao que a ciência confirma, talvez o passo seguinte seja usá-la com consciência: reconhecer o refresco, perceber de onde vem, e não deixar que se torne um hábito. Compreender isso permite parar de se julgar com tanta dureza, e talvez ser mais empático com quem, ao lado, estará a sentir exatamente o mesmo.