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Podem parecer inofensivas e até úteis para controlar o apetite ou melhorar o hálito, mas as pastilhas elásticas estão a ser alvo de novos alertas. Uma nutricionista espanhola considera-as “o alimento mais pró-inflamatório que existe”, enquanto um estudo apresentado pela American Chemical Society revela que cada unidade pode libertar centenas a milhares de microplásticos na saliva. Em paralelo, dados recentes indicam que o consumo em Portugal está a cair.
A polémica ganhou força depois de Sandra Moñino, especialista em nutrição, ter questionado nas redes sociais os efeitos deste hábito aparentemente banal. Segundo a nutricionista, mascar pastilha pode contribuir para inflamação da microbiota intestinal e dificultar a perda de gordura. Ao mascar, explica, “acabamos por nos esquecer de que estamos com fome”. Porém, alerta que, ao fazê-lo, “estamos a consumir, de certa forma, o alimento mais pró-inflamatório que existe”.
@nutricionat_ Los chicles te INFLAMAN 🦠 #inflamacionabdominal #inflamacion #inflamacionintestinal ♬ sonido original - Sandra Moñino Costa
Baixas calorias, mas impacto metabólico?
Um dos principais argumentos a favor das pastilhas elásticas — sobretudo nas versões sem açúcar — é o reduzido valor calórico: entre duas e cinco calorias por unidade. Ainda assim, Moñino defende que o impacto não se esgota nas calorias, sustentando que continuam a existir efeitos metabólicos e inflamatórios que devem ser considerados, especialmente quando o consumo é diário e prolongado.
A discussão surge numa altura em que o consumo parece perder força em Portugal. Segundo dados da Marktest, em 2023 existiam 2,4 milhões de consumidores no país, mas a tendência tem sido de descida. O perfil dominante mantém-se entre os jovens dos 15 aos 24 anos, com maior expressão entre mulheres e residentes na Área Metropolitana do Porto.
Microplásticos: o que diz a ciência
Além da questão inflamatória, há também preocupações ambientais e de saúde pública. Um estudo-piloto conduzido pela Universidade da Califórnia em Los Angeles e apresentado no ano passado concluiu que uma única pastilha (entre dois e seis gramas) pode libertar centenas a milhares de microplásticos na saliva.
A investigação, liderada por Sanjay Mohanty, indica que tanto as pastilhas naturais como as sintéticas libertam quantidades semelhantes de partículas, sendo que 94% são libertadas nos primeiros oito minutos de mastigação. As estimativas apontam que um consumidor regular — entre 160 e 180 pastilhas por ano — poderá ingerir cerca de 30 mil microplásticos anuais.
Apesar de os especialistas sublinharem que ainda são necessários mais estudos para avaliar o real impacto na saúde humana, recomendam “reduzir a exposição como medida de prudência”.
Entre alertas inflamatórios e partículas invisíveis, a pergunta impõe-se: será que um gesto tão automático deve passar a ser repensado?