Pássaros estão a ficar 'viciados' em cigarros. E um estudo diz que ficam mais saudáveis por causa disso

Investigadores da Universidade de Lodz descobriram que chapins-azuis em toda a Europa apanham beatas de cigarros para protegerem as crias de parasitas e há até pássaros que dormem em cinzeiros. É estranho, é real e tem um senão genético que os cientistas ainda estão a avaliar.
Pássaros estão a ficar 'viciados' em cigarros. E um estudo diz que ficam mais saudáveis por causa disso

Há uma certa ironia em descobrir que o objecto mais associado a doenças respiratórias do século XX acabou por se tornar um recurso de saúde para algumas aves. Não é uma metáfora. É o que um grupo de investigadores na Polónia encontrou ao estudar chapins-azuis em contexto urbano, num trabalho publicado na revista científica Animal Behaviour e destacado pelo New York Times.

O chapim-azul é uma ave pequena, de peito amarelo e calote azul intensa, presente em praticamente todos os jardins e parques da Europa, incluindo Portugal. Em cidades onde as beatas de cigarro fazem parte da paisagem do passeio, estas aves começaram a incorporá-las nos ninhos com uma regularidade que chamou a atenção dos cientistas. A primeira hipótese óbvia era que confundiam os filtros com material fibroso comum. Mas os dados apontaram para algo mais calculado.

Para testar a hipótese, montaram uma série de experiências controladas. Dividiram ninhos em três grupos: num adicionaram beatas de cigarro no quinto e no décimo dia do período de ninhada, outro ficou sem qualquer alteração como grupo de controlo, e num terceiro substituíram o ninho natural por um ninho artificial esterilizado em laboratório, feito de musgo e lã de algodão. Os resultados foram claros o suficiente para justificar a publicação. As crias dos ninhos com beatas e dos ninhos esterilizados apresentaram níveis significativamente mais elevados de hemoglobina e de concentração de glóbulos vermelhos do que as dos ninhos de controlo, o que indica melhor condição fisiológica geral. Os ninhos naturais não tratados tinham também maior presença de parasitas, incluindo carraças, ácaros e pulgas.

A explicação está na bioquímica do próprio tabaco. A nicotina não foi inventada pela indústria tabaqueira: é um composto que a planta do tabaco produz naturalmente como defesa contra insectos. Nos filtros já fumados acumulam-se também outros compostos voláteis que, em doses residuais dentro do ninho, tornam o ambiente hostil para artrópodes parasitas. O cigarro, enquanto inseticida de oportunidade, funciona.

O fenómeno não se limita aos chapins europeus. O ecologista Constantino Macías García, da Universidade Nacional Autónoma do México, observou tentilhões e pardais na Cidade do México a desfazer as beatas por completo e a distribuir as fibras pelo interior do ninho para uma protecção mais uniforme. Nas ilhas Galápagos, investigações anteriores sugeriram que os tentilhões de Darwin recorrem a resíduos de tabaco para contrariar as moscas vampiro invasoras que ameaçam os ninhos. E um estudo de 2017 sobre tentilhões-domésticos revelou que as fêmeas respondem activamente a um aumento da presença de carraças nos ninhos colocando ainda mais beatas, o que indica que a resposta é proporcional à ameaça e não um comportamento fixo ou acidental. Nalgumas cidades registaram-se ainda casos de ninhos construídos directamente dentro de cinzeiros de exterior, uma solução que resolve com eficiência o problema da logística de abastecimento.

Há, naturalmente, um outro lado. Crias em contacto directo com nicotina mostraram sinais de danos genotóxicos nas células sanguíneas, ou seja, lesões no ADN cujas consequências a longo prazo ainda não foram estudadas com profundidade. O benefício imediato na resistência a parasitas e o custo diferido nos genes podem coexistir sem se anularem, e os investigadores sublinham que os dados actuais não chegam para concluir que o comportamento é globalmente vantajoso para as populações ao longo de gerações.

Imagine um pássaro a recolher metodicamente uma beata do passeio de uma cidade europeia e a levá-la para onde estão as crias. Para a ave não é ironia nenhuma. É apenas o material disponível a cumprir uma função. O facto de esse material ser o resíduo de um dos produtos mais estudados pela medicina moderna como causa de doença é, no mínimo, um dado curioso sobre o que acontece quando a vida selvagem e os hábitos humanos partilham o mesmo espaço.