segunda-feira, 13 abr. 2026

O núcleo da Terra parou e agora está a girar ao contrário. O que isso significa para o planeta?

Investigações publicadas nas revistas Nature e Nature Geoscience confirmam que o núcleo sólido do planeta abrandou, parou e começou a girar em sentido contrário ao da superfície. O fenómeno segue um ciclo de décadas e os seus efeitos, subtis mas reais, já chegam aos nossos dias.
O núcleo da Terra parou e agora está a girar ao contrário. O que isso significa para o planeta?

A mais de 5.000 quilómetros de profundidade, envolto por uma camada de ferro líquido em permanente turbilhão, existe um lugar que nenhum ser humano alguma vez visitou nem conseguirá visitar: o núcleo interno da Terra, uma esfera sólida de ferro e níquel com dimensões comparáveis às da Lua. Durante décadas, os cientistas suspeitaram que esta estrutura girava de forma independente em relação à superfície do planeta. Agora, dois estudos publicados em 2024 e 2025 nas revistas Nature e Nature Geoscience confirmam algo que vai além dessa suspeita: o núcleo interno abrandou, chegou a parar e terá invertido o sentido de rotação.

O que os estudos revelaram

A história começa em 2023, quando Yi Yang e Xiaodong Song, investigadores da Universidade de Pequim, publicaram na Nature Geoscience a análise de décadas de dados sísmicos recolhidos desde a década de 1960. Os resultados apontavam para um padrão claro: o núcleo interno, que girava ligeiramente mais depressa do que a superfície terrestre, abrandou por volta de 2009 e deu sinais de inversão do movimento. Os autores propuseram que o fenómeno faz parte de um ciclo de aproximadamente 70 anos, com uma inversão semelhante registada na década de 1970. Em Julho de 2024, John Vidale, professor de Ciências da Terra na Universidade do Sul da Califórnia, e Wei Wang, investigador da Academia Chinesa de Ciências, publicaram na Nature um dos estudos mais abrangentes alguma vez realizados sobre o interior profundo do planeta. A equipa analisou 121 pares de terramotos repetitivos registados nas Ilhas Sandwich do Sul, no Atlântico Sul, entre 1991 e 2023. Estes eventos são particularmente valiosos para a ciência porque ocorrem no mesmo local e produzem sinais sísmicos praticamente idênticos, o que significa que qualquer diferença detectada noutro ponto do globo revela alterações nas camadas internas da Terra por onde essas ondas passaram. As conclusões foram inequívocas: o núcleo interno girou durante décadas mais depressa do que o resto do planeta, mas a partir de 2010 esse ritmo inverteu-se.

Uma segunda descoberta ainda mais inesperada

Em Fevereiro de 2025, o mesmo John Vidale liderou um novo estudo, publicado na Nature Geoscience, que foi além da rotação. Ao analisar 168 pares de terramotos registados entre 1991 e 2024, a equipa detectou diferenças subtis nas ondas sísmicas captadas pela estação de Yellowknife, no Canadá, que não apareceram nos registos da estação de Fairbanks, no Alasca. Se a única alteração no núcleo fosse rotacional, ambas as estações deveriam ter registado padrões equivalentes. Não registaram. A conclusão mais consistente com os dados é que a superfície do núcleo interno se estará a deformar fisicamente. "É quase ficção científica imaginar o que se passa na superfície do núcleo interno", afirmou Vidale à CNN. "Talvez a topografia esteja a subir e a descer. O mais provável é que o núcleo externo esteja simplesmente a empurrar o núcleo interno e a movê-lo um pouco." O próprio investigador admitiu que o projecto começou com um objectivo diferente: "O que acabámos por descobrir foi evidência de que a superfície do núcleo interno sofre alterações estruturais."

O que explica estas mudanças

O núcleo interno é rodeado pelo núcleo externo líquido, composto por ferro fundido em permanente movimento. Esta camada é responsável pela geração do campo magnético terrestre. As forças que actuam sobre a esfera sólida interior são múltiplas e em permanente competição:

  • A força exercida pelo campo magnético gerado no núcleo externo líquido

  • A atracção gravitacional das regiões mais densas do manto terrestre

  • As diferenças de temperatura e densidade entre as camadas internas

Vidale atribui a variação de velocidade ao "agitar do ferro líquido do núcleo externo que o rodeia, o qual gera o campo magnético da Terra, bem como às forças gravitacionais das regiões densas do manto rochoso sobrejacente." O debate sobre a periodicidade do ciclo não está encerrado. Enquanto Yang e Song defendem um ciclo de cerca de 70 anos, Hrvoje Tkalcic, geofísico da Universidade Nacional da Austrália, considera que o ciclo deverá ser de apenas 20 a 30 anos. Um estudo anterior do próprio Vidale, baseado em dados de testes nucleares soviéticos e americanos das décadas de 1960 e 1970, chegara a sugerir um ciclo ainda mais curto, de seis anos.

O núcleo pode não ser totalmente sólido

Em Dezembro de 2025, uma equipa liderada pelo Professor Youjun Zhang, da Universidade de Sichuan, publicou na revista National Science Review evidências experimentais que acrescentam uma camada adicional de complexidade. Os resultados sugerem que o núcleo interno pode encontrar-se num estado superiônico da matéria, uma fase distinta do sólido, do líquido e do gás, em que alguns átomos permanecem organizados numa rede cristalina rígida enquanto elementos mais leves se movem livremente através dessa estrutura, comportando-se como um fluido. Para testar a hipótese, os cientistas aceleraram amostras de ligas de ferro e carbono a mais de sete quilómetros por segundo, recriando pressões semelhantes às existentes no interior do planeta. Os resultados foram considerados suficientemente robustos para reabrir o debate sobre a natureza real do núcleo.

O que muda para a vida na superfície

Apesar da dimensão do fenómeno, os efeitos directos sobre o quotidiano das populações são extremamente subtis. A inversão da rotação do núcleo tem implicações para a duração do dia, embora as variações sejam da ordem dos milésimos de segundo, praticamente imperceptíveis fora dos laboratórios. O campo magnético terrestre, que protege o planeta da radiação solar e sustenta tecnologias como o GPS e as comunicações por satélite, é gerado no núcleo externo e pode ser influenciado pelo comportamento do núcleo interno. Os investigadores continuam a analisar registos sísmicos de todo o mundo, à espera que novos terramotos forneçam dados capazes de desvendar com maior precisão os ciclos e os mecanismos de um dos lugares mais inacessíveis do Sistema Solar, situado mesmo debaixo dos nossos pés.