quinta-feira, 16 abr. 2026

O meu filho é gay

Há pais que garantem ter pressentido que a orientação sexual dos filhos era diferente da heterossexualidade. Outros foram apanhados de surpresa. A VERSA foi ao encontro de três casos e descobriu que ainda há muito preconceito - sobretudo fora da família nuclear - e algum sofrimento por parte dos homossexuais até conseguirem lidar com a sua verdade.
O meu filho é gay

Os últimos dados são do estudo ‘IPSOS Pride 2023’ e indicam que, em Portugal, 6% da população se identifica com orientações sexuais diferentes da heterossexual. O preconceito e as dúvidas levam a que muitos ainda temam ‘sair do armário’. A VERSA foi conhecer a história de pais de homossexuais que revelam como foi lidar com a diferença dos filhos. E de filhos que não se importaram de dar a cara pela sua orientação sexual e contar experiências muitas vezes violentas.

«Acho que soube, desde sempre, que o meu filho Guilherme era homossexual. São aqueles instintos de mãe», começa por recordar Manuela Ferreira, antiga presidente da AMPLOS, uma associação de apoio a familiares de pessoas LGBTQI+. «Nunca lhe perguntei. De certa forma tinha a ideia de que se não perguntasse não sabia. E se não sabia isso não iria incomodar-me e as coisas iam andando», prossegue.

Guilherme, 42 anos, não mostrava sinais na infância. Só um gosto especial pela costura mas «poderia vir a ser estilista e heterossexual», diz a mãe. Os anos foram passando e, na adolescência, também nada fora do comum. «Ele tinha muitas amigas e amigos. Mais tarde, vim-me a aperceber que as amigas queriam ser mais do que amigas. E que os amigos, alguns, se calhar eram mais do que amigos», sorri. «E nunca teve quaisquer maneirismos».

O tempo correu. Guilherme estudou, fez o seu percurso e saiu de casa. Até que chegou um certo Natal em que deu pistas à mãe sobre a sua orientação sexual. «Chegou lá a casa, mostrou-me um presente, contou-me que lhe tinha sido oferecido por um petit ami… O meu filho sabia perfeitamente que eu ia ficar com curiosidade». Foi, então, que a conversa entre mãe e filho aconteceu, no sofá lá de casa. «Perguntei-lhe se era homossexual e o Guilherme responde: ‘Sou, mãe. Há algum problema?’ Eu disse logo que não havia qualquer problema mas havia», confidencia Manuela Ferreira.

Os dias seguintes foram de choque. «Tive ali uns dois dias em que chorei bastante. E vou explicar porque é que chorei. Nós criamos expectativas em relação aos nossos filhos. Não deveríamos, não é? Porque a vida é deles. Mas isto é quase incontrolável e eu tinha uma expectativa comum, um panorama de vida. Tinha todo um filme na minha cabeça de o ver casado, com uma mulher, como é óbvio. Porque para mim era óbvio. Queria ter netos. Até que caí em mim e pensei: não vai ser assim; vai ser de outra maneira».

Manuela contou ao marido e ao irmão de Guilherme o que se passava. O irmão olhou para a mãe com espanto. «Foi do género: ‘Só agora é que sabes?’ O pai foi muito pragmático e aquilo ficou logo arrumado na cabeça dele», recorda.

Mais tarde Manuela conheceu o genro, que a trata por “mãezinha”. «Conhecemo-lo quando ainda eram namorados. Correu sempre tudo bem, de forma muito pacífica. Foi uma pessoa de quem nós gostámos logo ao princípio, além de ser um homem lindíssimo! É uma pessoa com bons valores, um rapaz muito querido mesmo. Nós até nos esquecemos que ele não é nosso filho». Os sogros também sempre tiveram uma ótima relação com Guilherme.

Para Manuela o mais difícil foi mentalizar-se de que teria de enfrentar as pessoas conhecidas na rua. «Há aquelas pessoas que conhecemos do café, do cabeleireiro… E eu comecei a pensar se estava preparada para não esconder este filho». Foi nesta altura que conheceu a AMPLOS e começou a frequentar as iniciativas da associação. «Precisava de um empurrão para sair do meu casulo e enfrentar o resto do mundo, para uma saída plena do armário».

Com o tempo e as reuniões na AMPLOS, Manuela aprendeu a lidar com a homossexualidade do filho, em público, com naturalidade. «Percebi que recebo em espelho. Se eu falo disto naturalmente, olhos nos olhos, sem nada que me esteja a perturbar, vou receber da mesma maneira. Se eu baixar os olhos e falar disto quase como se estivesse a rezar, as pessoas vêm logo com paternalismos para cima de mim».

Por isso, aconselha outros pais na mesma situação. «É preciso aceitar, porque se trata de uma característica, não de uma escolha. E lembrarmo-nos de que isto é um processo muito complicado para os próprios. Geralmente, quando verbalizam já há um caminho feito, de forma solitária, de se entenderem a si próprios. No fundo, nós pais só temos de nos tentar pôr, um bocadinho, na pele deles», resume.

 

“QUERIA VÊ-LO CASADO”

Silvina da Graça Neves, 64 anos, tem três filhos. Alberto, o do meio, sempre foi diferente. «Este meu filho, desde pequenino, sempre foi uma criança muito fechada. Aí com três, quatro meses, quando ia aos médicos nunca se deixava apalpar. E então quando chegava na parte íntima, não deixava mesmo», lembra-se Silvina. «Na altura do Carnaval vestia-se sempre de mulher. Gostou sempre de se vestir de mulher, com as minhas roupas, os meus sapatos. E, mais tarde ou mais cedo, vim-me a aperceber que ele não era igual aos outros. Mas era um bom filho, sempre foi».

Silvina garante que nunca conheceu qualquer relacionamento ao filho. «Ao pé de mim nunca vi o Alberto com ninguém. Ele dava-se tanto com mulheres como com homens, ainda hoje tem amigas de infância. Mas nunca conheci nenhum namorado ou namorada. Se tinha, era nas horas livres dele».

Já adulto, segundo o relato da mãe, viveu com um homem, Bruno, «mas não tinham nada um com o outro», adivinha Silvina.

Silvina sempre respeitou a orientação sexual do filho. «Para mim isso não me diz nada. O que eu sempre quis foi o bem-estar dele. Se ele está bem, eu estou bem. Ele foi um miúdo que sempre me acompanhou e apoiou, e eu sempre o apoiei a ele».

Apesar de tudo, quando soube ficou, de certa forma, desiludida. «Eu queria vê-lo arrumado, casado. Mas não faz diferença nenhuma», anima-se. Alberto prometeu-lhe: «Apesar de eu ser gay, uma coisa te garanto: nunca me vais ver na rua vestido de mulher». A mãe ri-se.

Alberto, 42 anos, decidiu acompanhar a mãe durante a conversa com a VERSA. E fez algumas revelações. «O desejo só apareceu aos 16 anos. Sempre fui uma criança muito tardia. Nada em mim se desenvolveu como homem e a minha genitália não cresceu. Tenho a genitália de uma criança de cinco anos».

Isso não impediu Alberto de se interessar por outros homens. «Aos 16 anos, quando comecei a perceber que o meu desejo era por homens, entrei em esgotamento. E aí tentei relacionar-me com mulheres porque não queria ser homossexual», revela.

Para trás estava uma longa história de bullying, num bairro popular de Lisboa. «Eu morava no Bairro Alto e era muito duro. Sofria de bullying porque sempre tive muitos trejeitos, desde pequenino. Eu via a minha mãe, e as outras senhoras, olhava para ela e via poder. Via o que faziam e imitava. Sempre olhei para a mulher como uma diva. Sempre gostei muito de mulheres, mas num pedestal, como divas».

Durante muitos anos sofreu de agressões verbais. «Chamavam-me de tudo: rabilone, roto, paneleiro… Acabei por me habituar». O pior aconteceu também aos 16 anos quando chegou a ser apedrejado, em pleno Chiado. «Foi a minha experiência mais difícil. Juntaram-se cerca de 30 miúdos, da minha idade e mais novos, e seguiram-me desde o elevador da Bica até à rua Garret. É um dia que nunca vou esquecer», confessa. A voz fica trémula e as lágrimas caem. Alberto precisa de parar um pouco antes de continuar a contar a sua história.

«Ia a descer para o Chiado com uma roupa oferecida pelo meu irmão. Sentia-me lindo! E comigo ia uma amiga, que é lésbica. De repente começou o apedrejamento, desde a calçada do Combro até à Brasileira do Chiado. Foi em 1999». «Não era pedras normais, eram daquelas cinzentas, enormes, da calçada. Ao mesmo tempo gritavam ‘paneleiro’ de um lado para o outro da rua. Acumulei muita raiva», prossegue Alberto. E recorda: «Naquela altura, no final dos anos 90, foi o momento em que os homossexuais saíram do armário. Havia travestis no meio da Brasileira, montados, em plena luz do dia. Queriam mostrar ao mundo o que eram. E foi um deles a salvar-me a vida».

Enquanto as agressões decorriam, apesar de haver polícia por perto, houve alguém que se chegou à frente. «Foi um travesti, chamava-se Diva, preto, alto, com dois metros e em cima de uns saltos vertiginosos! Ele meteu-se, pegou num dos tamancos e deu com ele num rapaz que entretanto já estava em cima de mim, a espancar-me. Nisto vieram os carros da polícia e eles começaram todos a fugir».

Alberto ficou uma semana sem sair de casa, com medo de novas agressões. Hoje é diferente. Assume-se como é, sem receios. «Deus aceita-nos como nós somos», garante. Pelo meio ainda tentou namorar com mulheres, mas garante que nunca sentiu atração pelo sexo feminino. «Nunca, só por homens, e sempre por heterossexuais. Depois acabávamos por ficar amigos e sofri imenso com paixões platónicas. No fundo, quando tentava alguma coisa com mulheres era porque queria ser como os meus irmãos e os rapazes da minha rua».

Atualmente, resolveu pôr a sexualidade em pausa. Está dedicado ao voluntariado e à fé evangélica. «Não me sinto atraído nem por homens nem por mulheres. Eu sou um eunuco», refere, citando a Bíblia; Mateus, capítulo 19, versículo 12: «Porque há eunucos que nasceram assim; e há eunucos que pelos homens foram feitos tais; e outros há que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus. Quem pode aceitar isso, aceite-o».

 

“ELA SEMPRE FOI MARIA RAPAZ”

 José Martins surge acompanhado pela filha, Rita, de 21 anos. «A Rita teve namorados mas depois mudou», avança o pai, de 60 anos. «Ela nunca me contou nada mas eu fui-me apercebendo, sobretudo pelas amizades que a Rita tinha. Quer dizer… Eu, em certa medida, já tinha alguma certeza sobre a orientação sexual da minha filha».

José sempre reagiu bem, ao contrário da mãe de Rita. «Ainda hoje ela não aceita. Diz que aceita porque é filha dela, mas não aceita», conclui o pai. «Perante mim, tem 100% de apoio. Então, se é o caminho que a minha filha escolheu, se é assim que é feliz - que foi a conversa que ela teve comigo - prefiro que ela tenha uma namorada que a trate bem e a faça feliz do que ter um namorado que lhe desse maus-tratos».

A mãe não se convence. «Tanto que a Rita não podia, por exemplo, levar uma namorada lá a casa». Rita Martins mantém uma relação sólida há sete anos com Inês. Por vezes a mãe visita o casal mas deixa escapar o preconceito. «A minha mãe é capaz de estar connosco, falar comigo e ignorar completamente a minha mulher», explica a jovem.

O pai recorda a infância da filha. «Ela sempre foi Maria Rapaz. Gostava mais de jogar à bola do que brincar com bonecas. E quando começou a ficar mais velha, não queria nada de pinturas nem de penteados de menina. Nada dessas coisas». Em relação à nora Inês, não podia estar mais satisfeito. «É amiga da minha filha, trata-a bem, é trabalhadora, e quando assim é nada há a dizer».

Rita, que se assume como bissexual, conta como foi a sua primeira experiência lésbica. «Tinha 14 anos, sempre namorei com rapazes, sempre joguei à bola, sempre tive mais amigos rapazes. Nessa altura tinha uma amiga que namorava com uma rapariga, eu era só amiga delas», desvenda. «Entretanto, elas acabaram e eu fiquei amiga das duas. Passado um bom tempo, uma dessas raparigas, era mais velha do que eu, deu-me um beijo na boca. E eu, ao início, não reagi bem».

A confusão instalou-se na cabeça da adolescente Rita. «Não sabia o que é que estava a fazer. Quando comecei a namorar com ela, fiquei três meses sem conseguir dormir como deve ser, sem conseguir comer como deve ser, porque estava a tentar perceber o que é que se passava comigo». O tempo acabou por clarificar-lhe as ideias. «Passados três meses, efetivamente, começaram a surgir sentimentos e percebi que, afinal, estava a gostar dela. Depois as coisas acabaram, continuei na minha vida normal e encontrei um rapaz. Mais tarde separei-me e fui para outra rapariga. Só assim descobri que era bissexual. Sinto atração por homens e mulheres».

À semelhança de Alberto, e apesar da diferença de idades, Rita também lidou com o bullying. «Cheguei a levar com pedras, na escola, mandavam-me bocas. Tinha de conviver com isso diariamente. Bastava eu estar com uma amiga, que não era mais que isso, que já era motivo de gozo».

Rita foi acumulando tristeza. «Ficava muito mal com o que me acontecia e não podia falar com a minha mãe, porque ela nunca respeitou a minha sexualidade. Com o meu pai tinha abertura para falar mas sempre fui muito discreta, guardava as coisas para mim». Uma bomba-relógio que explodiu na forma de automutilação. «Cortava-me, dava socos na parede, era muito impulsiva. Tentava superar tudo sozinha».

A dada altura, procurou a psicóloga da escola. «Ajudou-me a crescer a nível psicológico, a nível emocional. Ajudou-me a tratar as feridas de outra forma. Não devemos estar sempre a batalhar no mesmo. Temos de dar um passo em frente. Se é a vida que eu quero levar é isso que eu tenho de levar para o resto da vida. Não vou ficar triste sempre pelo mesmo. Acho que me ajudou muito».

Só a atitude da mãe lhe continua a provocar mágoa. «É a minha vida, é a minha sexualidade, é a minha orientação. Acho que ela tem de ficar do meu lado acima de tudo. Pode não gostar, mas tem de me respeitar como eu sou». Não é o que acontece. «Se for preciso, todos os dias, ela diz-me que eu tenho de namorar com um homem. Se for preciso, todos os dias, ela quer-me de volta para a casa dela porque a minha mãe quer que eu tenha uma vida dita ‘normal’. Normal é a vida que eu tenho, para mim. Tanto com uma mulher agora, ou com um homem a seguir, ou sozinha».

Rita conheceu a companheira Inês através de amigos comuns, mas foi durante umas férias, na Lagoa de Albufeira, que se deu o clique. Estão juntas há sete anos mas não pensam casar-se. Pelo menos para já. «Ainda é cedo. Acho que um casamento não define tudo. Temos de continuar a construir a nossa relação para ir mais além. Ainda não está na altura de dar esse passo tão grande».

José Martins vai ouvindo, atentamente, as palavras da filha. No final deixa um conselho para outros pais de pessoas LGBTQI+. «Que os acompanhem, respeitem e apoiem sempre».